Recessão agrava-se e dá mais força ao risco de um segundo resgate

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Rehn estuda com o Governo espanhol uma possível flexibilização GEORGES GOBET/afp

A seguir à Grécia, Portugal é o país do euro com as piores perspectivas em 2012. O agravamento da recessão torna mais difícil o cumprimento do programa da troika

Há uma década que o desemprego sobe sem que a actividade económica o absorva. E as previsões da Comissão Europeia ontem divulgadas, que apontam para uma queda do PIB em 3,3%, fazem antever um agravamento da taxa de desemprego, que já se situa em 14%. Economistas ouvidos pelo PÚBLICO consideram que, face ao aprofundamento da recessão, será inevitável um novo resgate financeiro. É só uma questão de tempo.

Ontem, a Comissão Europeia tornou público que espera para Portugal o segundo pior desempenho da União Europeia - só ultrapassado pelo da Grécia. E enquanto o Governo aponta para uma recessão de 3%, o executivo comunitário vai mais longe: menos 3,3%, num cenário macroeconómico cercado de "incertezas" .

A diferença de 0,3% entre as duas previsões parece diminuta. O economista e ex-ministro das Finanças da maioria PSD/CDS António Bagão Félix, por exemplo, acha-a quase irrelevante, face aos problemas estruturais do país. A questão é, antes, a de saber quando se dará a inflexão da recessão para o crescimento ou se, pelo contrário, a situação não se vai agravar por si própria. "Pelo menos como acto de fé", Bagão Félix acha que a inflexão poderá dar-se por volta do quarto trimestre de 2012. Mas Paulo Trigo Pereira, professor do ISEG, avança que "a contracção do PIB em 2012 será superior" - entre 3,5 a 3,8%.

"A ideia de que este ano teríamos uma recessão moderada e para o ano já cresceríamos está afastada. A recessão será mais agravada este ano e, se em 2013 tivéssemos um crescimento zero, já seria positivo", alerta. Perante estas perspectivas, o professor do ISEG não tem dúvidas de que o "desemprego tenderá a aumentar".

O pano de fundo

Mas é a tendência que mais pode assustar. Estas previsões colam com um cenário de fundo que está subjacente à fragilizada actual situação económica do país.

Desde os anos 80 que o crescimento económico tem sido fraco (ver gráfico). A subida do desemprego foi sendo absorvida e a respectiva taxa atingiu um dos seus pontos mais baixos no segundo trimestre de 2000 (3,7%). Desde aí, porém,o desemprego nunca mais parou de subir, com ou sem recessão. Essa década coincidiu com a criação do euro, em que o escudo entrou - de forma politicamente deliberada - com um valor mais elevado do que o seu valor real. Era a estratégia do "escudo duro", para forçar a reestruturação do tecido produtivo em moldes internacionais, com vista a uma subida sustentada das exportações. Mas a política cambial nunca surtiu esse efeito. E acabou por ser prejudicada com a abertura do mercado europeu aos produtos de países terceiros (no final de 2004). A economia virou-se para os sectores não competitivos e para a construção.

Passados 12 anos, a taxa de desemprego atingiu o ponto mais alto - 14% no 4.º trimestre de 2011, um índice que aprofunda o efeito recessivo das sucessivas medidas de austeridade, pós-crise de 2008/09. Ora, uma recessão mais profunda terá - segundo os economistas contactados - consequências gravosas, nomeadamente para as contas públicas e para o plano de resgate. Paulo Trigo Pereira alerta para o impacto nas receitas fiscais (no IVA): "O défice será superior ao previsto. Para alcançar o objectivo, o Governo terá de fazer uso de outras receitas extraordinárias que, espero, não sobrecarreguem mais os portugueses", afirmou. O seu receio é o de que, neste cenário, "não estaremos em condições de ir aos mercados em 2013 e, muito provavelmente, precisaremos de um novo financiamento, mas de montante mais pequeno". Ainda assim, a situação "não é de todo comparável com a situação grega".

O economista José Reis é mais pessimista: o agravamento das previsões "é a confirmação de que as medidas de austeridade não funcionam, são destruidoras e que o processo recessivo é inevitável e longo". "Não se vêem no horizonte mecanismos e medidas com uma lógica de recuperação e de crescimento. Fico à espera de novas revisões em baixa", frisa. A quebra das receitas fiscais e o aumento do desemprego são "inevitáveis" e criam um efeito "ainda mais recessivo".

A necessidade de um segundo resgate é, por isso, "um risco desde o início" do processo. "O programa de resgate, ao vir embrulhado neste pacote recessivo, criou a impossibilidade de ele próprio se tornar uma solução. Receio que a necessidade de ajuda externa se vá tornar um problema cumulativo e recorrente", assevera.

Também Bagão Félix parece não ver uma luz ao fundo do túnel. "A Europa enfiou-se num colete de forças e não consegue dele sair. E a moeda única, que deveria ser o fim do processo, transformou-se no princípio do caminho, de um caminho coxo." É a austeridade a solução? "Tem de ser uma austeridade inteligente, com sentido geracional", defende.

Mas as instituições internacionais ainda mantêm o discurso optimista. Sobre se Portugal precisará de um segundo pacote, o presidente do BCE, Mario Draghi, respondeu: "Não. Consideramos que o programa [português] está no caminho certo." com Raquel Martins e Pedro Crisóstomo

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