Desequilíbrios

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Em tempos de crise, as pessoas necessitam de se agarrar a líderes. O Parlamento viu em Monti um dos seus campeões

Foi publicado a 14 de Fevereiro, pela Comissão Europeia, o primeiro relatório sobre desequilíbrios macroeconómicos em países da União, contendo informação relativa a dez indicadores económicos, financeiros e estruturais relevantes para a detecção precoce dos desequilíbrios em cada Estado-membro. A tabela comparativa, em actualização constante pelo Eurostat, inclui indicadores internos sobre a dívida pública e dos particulares, fluxos de crédito privado, preços das habitações e desemprego. Os desequilíbrios externos são medidos por indicadores sobre a balança de transacções correntes, a situação do investimento líquido, as taxas de câmbio efectivas, a parte do país nas exportações mundiais e os custos nominais unitários de mão-de-obra. Todos os valores se reportam a médias dos três últimos anos. Não temos dúvidas de que este material vai passar a ser exaustivamente explorado pelos académicos.

A apresentação feita pelo comissário Olli Rehn suscitou as esperadas perguntas sobre a elevada taxa de desemprego em Espanha (16,5% em 2010) e o excedente da Alemanha, na balança das transacções correntes (5,9% do PIB, tendo ainda à sua frente a Suécia, com 7,5% e o Luxemburgo com 6,4%), generalizadamente considerada como a principal causa dos desequilíbrios na zona euro. O comissário reconheceu que o reduzido consumo interno seria o principal factor de crescimento da Alemanha. Ao ler os quadros verifica-se que esta contenção tem uma explicação salarial: entre 2005 e 2008, na Alemanha, os custos de mão-de-obra reduziram-se consistentemente (-0,5; -3,4; -3,7; -0,6, respectivamente) só voltando a subir em 2009 (7,0) e 2010 (6,6). Estas análises não podem servir apenas para a culpabilização das vítimas. Devem ser usadas para explicar as dificuldades de ajustamento em situações tão desequilibradas. Como agora muitos reconhecem, as situações de excedente das balanças de transacções em sete países (Dinamarca, Alemanha, Luxemburgo, Holanda, Áustria, Finlândia e Suécia) são simétricas das situações de défice nos restantes 20 países, onde a reduzida competitividade, um sistema de moeda única e o crédito internacional fácil e barato determinaram consumos excessivos de bens importados dos primeiros. Elisa Ferreira, relatora da peça do "Pacote de Seis" sobre desequilíbrios macroeconómicos, actual coordenadora dos Socialistas e Democratas na Comissão dos Assuntos Económicos, criticou fortemente a Comissão por deliberadamente ter falhado em produzir uma visão geral dos desequilíbrios entre países da mesma zona monetária, centrando-se nos países com défices e omitindo a principal causa do desequilíbrio que é a economia alemã. A ela devemos agora a garantia de que as situações de cada país passarão a ser analisadas de forma comparada e completa através destes indicadores. Passámos a ter a demonstração cabal de que, quando as economias se fecham e a moeda é única, como aconteceu com a economia europeia, para que uns ganhem, outros têm que perder. Ou, de outra forma, se alguns perdem muito, é porque outros muito ganham.

Mario Monti, primeiro-ministro de Itália, brilhou a grande altura no Parlamento Europeu. Conhecendo bem a casa, desvelou-se em profissões de fé comunitárias e em críticas ao método intergovernamental. E não se coibiu de lembrar, com dureza, que foram a Alemanha e a França, em 2003, os primeiros países a relaxarem os critérios de Maastricht, criando a ideia de que poderia ser sempre assim. Defendeu com vigor os stability bonds e falou sempre e cada vez mais em crescimento e emprego, sem negar a importância do pacto orçamental. Teve ainda tempo e gosto em desfazer as críticas de um eurocéptico inglês com elegância e humor. Presume-se que para manter algum equilíbrio desferiu no final um duríssimo ataque contra os governos gregos dos últimos 20 anos, considerando que eles conseguiram esgotar o catálogo das más políticas financeiras e económicas. Aplaudido ao centro, à esquerda e à direita, excepto pelos extremos, sagrou-se verdadeiro campeão de uma Europa a ressuscitar.

Porquê tão forte unanimidade? Em tempos de crise, as pessoas necessitam de se agarrar a líderes. O Parlamento viu nele um dos seus campeões, um antigo e respeitado comissário, elevado a senador, chamado a arbitragens, como a da nova ligação eléctrica Espanha-França, ou a funções de guia, como no convite que Barroso lhe dirigiu para o Relatório sobre o Mercado Único, peça essencial da celebração dos 20 anos daquela ideia de Delors, agora erigida em quinta-essência do crescimento e emprego. A coragem, inteligência e criatividade com que está a gerir o período transitório de governo para o qual os italianos o chamaram, o seu sentido de equilíbrio entre o crescimento e a redistribuição fazem dele um dos poucos europeus respeitáveis e agora de novo no activo. O inconsciente colectivo europeu elege-o como o seu príncipe, numa floresta onde campeiam rústicos, burgueses cúpidos e alguns meliantes. Deputado do PS ao Parlamento Europeu