A casinha dos chocolates

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A argentina Beatriz vive em Portugal há 18 anos Rui Gaudêncio

Entramos em Odemira e perguntamos à primeira pessoa que encontramos o caminho para a Estrada do Cemitério. Estamos à procura de uma loja de chocolates, explicamos. "Ah, a Beatriz", responde o homem. É fácil de encontrar. Não há muita gente em Odemira a fazer chocolates artesanais. Ou melhor, não há mais ninguém a não ser Beatriz, argentina vinda da Patagónia, mais exactamente de Barriloche, terra conhecida pelos seus chocolates.

Terá sido por ter crescido numa terra que tem uma rua cheia de lojas de chocolates, e a que chamam "a Suíça argentina", que levou Beatriz a abrir o negócio aqui? É possível, diz esta agrónoma de formação, há 18 anos a viver em Portugal. Talvez as imagens de infância dessas lojas cheias de chocolates feitos artesanalmente tivessem tido influência. Isso e a constatação de que, em Odemira, quem fosse jantar a casa de amigos e quisesse levar uns chocolates não tinha nenhuma alternativa às marcas comerciais à venda nos supermercados. Há quatro anos começou a pensar na ideia. E os Chocolates de Beatriz abriram há dois.

Acabamos por encontrar Beatriz a meio do caminho e seguimos com ela pela estradinha que sobe até à casa, com o rio a correr ali ao lado. Isolada, rodeada de verde, a casa, totalmente recuperada, parece a Casinha de Chocolate que os dois meninos do conto dos irmãos Grimm encontraram no meio da floresta. Mas, apesar de no desenho da loja aparecer com os cabelos revoltos e a mexer uma enorme panela, Beatriz é tudo menos uma bruxa má. E a casinha branca é um refúgio encantador com cheiro a chocolate.

Foi uma sorte, na verdade. Quando viu a casa à venda imaginou que seria muito cara, mas afinal o preço era razoável e decidiu avançar. Um dia, percebeu por que é que, afinal, esta casa não era mais cara. Foi quando um português hoje a viver na Alemanha a visitou e contou que, quando era criança, ele e os amigos nunca se aproximavam muito dela - isolada, no cimo de uma pequena colina, na estrada do cemitério, só podia estar assombrada.

Se houver fantasmas, neste momento devem estar fascinados a ver como Beatriz tempera o chocolate, como vai buscar os frutos silvestres, os frutos secos, a menta ou o gengibre para fazer os diferentes chocolates que depois corta na grelha em pequenos quadrados ou faz à mão em círculos. Para chegar aqui foi preciso praticar muito - daí a panela com que aparece na imagem da loja. Fez algumas formações e, sobretudo, fez experiências para perceber o que resulta e o que não resulta.

Temperar o chocolate é o mais complexo, diz. Tem até um desenho para explicar às crianças como é que isso se passa: é que o chocolate quando solidifica forma cristais devido à cristalização da manteiga de cacau. Esses cristais podem ser muito diferentes - Beatriz gosta de fazer a comparação entre o grafito dos lápis e o diamante, que são compostos formados pelo mesmo elemento químico mas cristalizado de duas formas diferentes. É preciso, por isso, um especial cuidado para temperar o chocolate - derretê-lo e depois levá-lo até à temperatura ideal, misturando com outra parte, sólida, do mesmo chocolate -, de forma a que ele adquira um aspecto brilhante e uma textura suave.

Já tem muitos clientes que são apreciadores de chocolate, e que "geralmente pedem no mínimo o 70%", e, quando são estrangeiros, perguntam também se o cacau é biológico e se provém do comércio justo.

Foi uma aventura abrir uma chocolataria artesanal no Alentejo, em Odemira, no meio do campo, à beira do rio, na estrada para o cemitério. Mas Beatriz está contente. Obras feitas, com frio lá fora mas o sol a entrar pela janela, o chocolate a descansar antes de ser cortado em quadrados, a casa é perfeita. A suíça (o facto de ser suíça é um acaso) que trabalha com Beatriz andou a fazer corações de chocolate que pendurou do tecto - "Love is in the air", disse. A.P.C.

Chocolates da Beatriz

Estrada do Cemitério - Odemira

Terça Feira a Sábado: 10h às 13h - 16h às 19h

Tel: 283 327205