"Juro pela saúde do meu filho que não fiz nada"

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Afonso Dias (a fumar) é acusado de ter raptado o menor Ricardo Castelo\NFACTOS

Afonso Dias, o único acusado no processo, só quebrou o silêncio uma vez, para alegar inocência no caso do desaparecimento de Rui Pedro. Arrisca-se a uma pena de prisão até dez anos

A mãe de Rui Pedro já depunha há quase duas horas quando Afonso Dias, o motorista de pesados acusado de ter raptado o menor, não se contém e interpela-a para dizer: "Juro pela saúde do meu filho que não fiz nada." A juíza do tribunal de Lousada cortou-lhe de imediato a palavra e esse ficou como o momento mais emotivo de um julgamento que prossegue no dia 22.

Treze anos volvidos sobre o desaparecimento da criança, então com 11 anos, Afonso Dias arrisca-se a uma pena que pode atingir os dez anos e oito meses de prisão, se ficar provada a acusação de rapto qualificado. Na sessão de ontem, em que foram ouvidos os pais da criança, a estratégia da defesa pareceu clara: sugerir que Filomena Teixeira ocultaria do marido os encontros que o filho mantinha com Afonso, porque a natureza da relação que esta manteria com o arguido seria motivo de ciúmes entre o casal.

Apesar de reconhecer que, ao contrário do marido e do avô da criança, "não via nada de mal no Afonso", Filomena Teixeira, que surgiu amparada por Margarida Sousa Uva, mulher de Durão Barroso, rebateu aquela tese. E respondeu com um categórico "não" quando Paulo Gomes, advogado do arguido, lhe perguntou se o marido não tinha ciúmes de Afonso Dias. "O Afonso, para mim, era uma criança", asseverou. Em sintonia, Manuel Mendonça negou ter tido problemas com a mulher por esse motivo. "Não via ofensa nenhuma nisso. O que se passava entre a minha mulher e o Afonso passava-me ao lado porque sabia que não era possível... O meu receio todo era com os meus filhos, por causa da tal coisa da diferença de idades."

"Fazer o luto"

A defesa não insistiu na tese e, no final, Paulo Gomes até acabou por encarar como naturais as contradições nos depoimentos do casal. "São perfeitamente compreensíveis, tendo em conta o tempo que passou e o estado em que estão a depor", desvalorizou, à saída do tribunal, quando a sessão terminou e as dezenas de curiosos que ali se aglomeraram começaram finalmente a debandar. Já antes, durante o depoimento de Filomena, o advogado escudara-se no "respeito" que disse ter pela depoente para não requerer a extracção de uma certidão das declarações que esta prestara na Polícia Judiciária por ocasião do desaparecimento e que supostamente contradizem o que disse ontem quanto ao momento em que informou o marido de que o filho teria sido aliciado por Afonso Dias para o iniciar sexualmente com uma prostituta.

O tom cordato e contido que tornou morna toda a sessão foi, aliás, denominador comum na inquirição do casal. O advogado de defesa, Ricardo Sá Fernandes, avisou nas alegações iniciais que a acusação não quer transformar Afonso Dias no "bode expiatório" deste caso. "Se, no final, sobrar uma dúvida razoável, nós abster-nos-emos de pedir a sua condenação: não queremos arranjar um culpado à força", garantiu o advogado, sem deixar, porém, de considerar que a acusação é "sólida e congruente". Mais do que encontrar o culpado, os pais de Rui Pedro dizem querer saber o que lhe aconteceu. Quanto mais não seja, e "mesmo que este tivesse morrido, para poderem fazer o luto que ainda não puderam fazer".

Paulo Gomes viu, por isso, necessidade de sublinhar que o objectivo do julgamento não é perceber o que aconteceu a Rui Pedro - "infelizmente" -, mas saber se "Afonso Dias é ou não culpado dos factos em apreço". O arguido - actualmente casado e pai de um rapaz de nove anos - viu negado o pedido para ser dispensado das sessões de julgamento, que fundamentara no facto de ser motorista de longo curso e nas dificuldades económicas decorrentes de uma ausência prolongada ao trabalho. Do mesmo modo, viu indeferido o pedido para ser sujeito a uma perícia psicológica que avaliasse a sua imputabilidade diminuída, a pretexto de supostas dificuldades cognitivas que se traduzem nalguma incapacidade de se "situar no tempo e no espaço" e num discurso "semanticamente pobre". O colectivo de juízes concordou na realização da perícia à sua personalidade - e até deu ao Instituto de Medicina Legal um prazo de dez dias para fazer chegar o respectivo relatório ao tribunal -, mas apenas para avaliar as suas características psíquicas e o seu "grau de socialização" e "perigosidade".

Dos depoimentos de Filomena Teixeira e Manuel Mendonça resultou o retrato de Afonso como alguém "infantil" que, aos 22 anos, brincava em pé de igualdade com Rui Pedro. Oriundo de uma família pobre, viveria de expedientes e dos recados que ia fazendo na zona. Foi nesse contexto, aliás, que se tornou conhecido da família, sobretudo depois de, em 1995, ter tirado a carta de condução na escola dirigida pela mãe de Rui Pedro. Esta fornecer-lhe-ia algumas roupas e começou a confiar nele para acompanhar os seus filhos (Rui Pedro tinha uma irmã, Carina Liliana, com nove anos na altura) nas suas brincadeiras e deslocações diárias.

A relação não tinha o aval do pai nem do avô materno das crianças. Por causa de vícios como os cigarros mas, sobretudo, por causa da diferença de idades. A censura ter-se-á transformado em proibição de contacto depois de Afonso ter regressado da tropa, de onde tinha desertado. "Veio mais reservado, achei que estava a amadurecer até porque tinha arranjado namorada", recordou a mãe. Sabia que ele continuava a encontrar-se com o seu filho? "Os vizinhos iam-me contando, mas eram encontros às escondidas. Eu não via nada de mal na relação deles, mas compreendia as razões do meu marido e do meu pai."

Daí em diante, os depoimentos foram todos no sentido de precisar o que aconteceu a 4 de Março de 1998. Rui Pedro almoçou "à pressa" na cozinha do restaurante da família e dirigiu-se à escola de condução da mãe, que lhe negou o pedido de autorização para ir passear com Afonso Dias. Segundo a acusação, este teria, uns dias antes, convidado Rui Pedro e um primo, João André, para irem lançar foguetes e depois a uma prostituta em Lustosa, Freamunde. O ponto de encontro foi um terreno nas imediações da escola, identificado como o "campo do senhor Lousada". Afonso confirma ter visto Rui Pedro naquele local, mas nega que este o tenha acompanhado até uma prostituta.

O próximo a ser ouvido, no dia 22, é o primo, João André. A prostituta em causa, Alcina Dias, que na fase final da investigação confirmou ter estado com Afonso e Rui Pedro nessa tarde, também está arrolada como testemunha. Quanto a Afonso Dias, aguardará "que seja feita prova" para decidir se vai ou não falar ao longo do julgamento.