O jornalismo deve ajudar as pessoas a serem felizes?

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Tailandês flutua durante as últimas cheias, o mês passado, em Banguecoque DAMIR SAGOLJ/REUTERS

Pode (e deve) o jornalismo contribuir para a felicidade através da publicação de "boas notícias"? Especialistas em felicidade - sim, a felicidade já chegou às universidades - defendem que sim. O truque está em encontrar o equilíbrio.

Mortes, acidentes, guerras, terramotos, fome, crise, crise, crise... Que papel desempenha a comunicação social no meio de tudo isto? Os especialistas em felicidade defendem que é preciso encontrar um equilíbrio entre notícias positivas e negativas. O jornalismo pode contribuir para a felicidade dos leitores, acreditam responsáveis de alguns órgãos de comunicação social que pugnam pelas boas notícias. Mas ser "bonzinho" não vende, admitem.

"A percentagem de tempo ocupado nos telejornais com notícias de crime não corresponde ao peso dos crimes na realidade da sociedade", o que cria uma "distorção" na percepção da realidade e causa uma sensação de insegurança, avalia Gabriel Leite Mota, o primeiro português com um doutoramento em Economia da Felicidade.

Helena Marujo, investigadora que introduziu a psicologia do optimismo em Portugal, lamenta que algumas pessoas "receiem que a apresentação de temáticas positivas mascare as questões da injustiça ou da violência que, infelizmente, estão presentes". No entanto, alerta: "As pessoas estão cansadas do massacre das notícias que lhes tiram a esperança e não promovem a acção."

"A questão não é negarmos o negativo, é preciso é lembrarmo-nos de que é preciso activar recursos para dar a volta", acrescenta, por sua vez, Catarina Rivero, psicóloga clínica, que, com Helena Marujo, escreveu Positiva-mente: Viva o Seu Dia-a-Dia com Equilíbrio, Bem-Estar e Optimismo, editado pela Esfera dos Livros. Rivero refere que os media podem ter um efeito mobilizador forte, ao "passar exemplos de referência, positivos, por exemplo, de instituições que dão a volta, de grupos que servem de exemplo na comunidade ou de empresas de sucesso que existem no país".

Helena Marujo salienta ainda que seria interessante "o jornalismo passar a ter alguma preocupação em ajudar as pessoas a florescer".

"Nós sabemos, de acordo com a ciência, que os sistemas humanos só florescem, as pessoas só estão no seu melhor, nomeadamente para enfrentar situações de crise, quando sobrecompensam o negativo", explica Helena Marujo, e cita o estudo da investigadora Barbara Fredrickson, que conclui que a experiência de três emoções positivas por cada negativa é o rácio que leva as pessoas a ser mais resilientes face à adversidade e capazes de atingir os seus objectivos.

Adaptar o modelo desse rácio ao jornalismo poderia ser um "exercício interessante" para os jornalistas, considera Catarina Rivero, que lança ainda outro desafio: "Porque não começar e acabar o noticiário com notícias positivas?"

Gabriel Leite Mota distingue uma forma indirecta e uma directa em que o jornalismo pode contribuir para a felicidade e o bem-estar de uma sociedade. A primeira está relacionada com "a qualidade de uma democracia". Ao informar, os media podem "munir as pessoas de instrumentos para tomar decisões mais informadas", e refere que "os países que têm democracias mais desenvolvidas e em que a participação é maior têm mais bem-estar subjectivo".

De forma directa, os meios de comunicação social podem influenciar de forma negativa através de "sensacionalismo", ou procurar o "equilíbrio", ao "tentar todos os dias trazer à luz coisas que acontecem e que são positivas", defende.

"Ser bonzinho não vende"

No dia 5 de Janeiro de 2004, o jornal diário alemão Berliner Morgenpost decidiu criar uma edição "fora do vulgar", composta praticamente só de notícias positivas. "Concentrámo-nos simplesmente em tudo aquilo que, tantas vezes, fica submerso no fluxo das notícias negativas", escrevia, na altura, o chefe de redacção.