Elas gritaram yé-yé e a França nunca mais foi a mesma

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O yéyé foi o reflexo francês do rock"n"roll e da pop anglo-saxónica. Manipulação capitalista da juventude, argumentaram os detractores, voz de uma geração que se emancipava, defenderam os admiradores. A ambiguidade entre uma coisa e outra, disse Edgar Morin. A colectânea "C"est Chic!" conta toda a história. No feminino. Mário Lopes

A inocência da adolescência numa canção: "Tous les garçons et les filles de mon âge / se promènent dans la rue deux par deux / Tous les garçons et les filles de mon âge / Savent bien ce que c"est d"être heureux". Françoise Hardy no início da década de 1960. Foi com canções assim e com rostos assim, o de Hardy, o de Sylvie Vartan ou de France Gall, no feminino, o de Jacques Dutronc, de Johnny Halliday ou de Claude François, no masculino, que os franceses e, em passo rápido, o resto da Europa Continental, viveram a erupção de uma cultura juvenil, soprada desde a Inglaterra e os EUA, que ganhava direito a ser algo mais do que compasso de espera entre a despreocupação da infância e a seriedade da vida adulta.

"C"est Chic! - French Girl Singers of the 1960s", compilação editada originalmente em 2010 e agora distribuída em Portugal, oferece um caleidoscópio em 24 canções desse microcosmos pop, visto pela "inteligentsia" de então como descartável e nunca levado a sério pelos mais velhos.

O que ouvimos em "C"est Chic!" permite-nos discordar da "inteligentsia" e dos adultos do passado. France Gall cantava as dores das férias em St Tropez com o namorado da escola tão longe, as Les Gam"s davam esperança a quem as ouvia - "L"Été reviendra" - e o amor estava por todo o lado, muito pueril. Acontece que esta música a que chamavam yéyé tinha mais. Citemos Serge Gainsbourg, falando sobre "Poupée de cire, poupée de son", que deu a France Gall a vitória no Festival Eurovisão de 1965: "As canções que os jovens procuram em busca de ajuda nas suas primeiras tentativas de perceber o que é a vida e o amor são cantadas por pessoas demasiado novas e inexperientes para servirem de grande auxílio".

Gainsbourg, que cantara "Chez les yéyé" de faca na mão em directo televisivo, foi dos primeiros a abraçar a nova vaga, injectando doses consideráveis de perversidade e ambiguidade na puerilidade desta música. Não estava sozinho e é isso que torna impossíveis juízos definitivos. Yéyé: reflexo francês da rock"n"roll e da pop anglo-saxónica. Palco de manipulação capitalista da juventude, argumentavam os detractores, voz de uma geração que se emancipava, defendiam os admiradores.

Em 1962, Daniel Filipacchi, director da revista "Salut Les Copains", foi chamado ao Ministério da Justiça francês. Razão para a ameaçadora convocatória? A capa do segundo número da revista, que mostrava Elvis Presley brandindo uma faca, imagem considerada violenta e certamente corruptora da juventude que comprava a revista para acompanhar as estrelas juvenis do rock"n"roll. Filipacchi escapou à interdição da revista ao provar que a foto provinha de um filme não-interdito a menores de 18. A "Salut Les Copains", verdadeira instituição francesa que muita nostalgia traz aos "babyboomers" saudosos da sua juventude - e aos que, fora de França, compravam as suas edições estrangeiras -, continuou.

No ano seguinte, música e geração ganharam existência oficial. Foram baptizadas. À francesa. Rock"n"roll é nome de origem incerta, especulando-se que foi adaptado do calão da comunidade negra americana por DJ no Sul dos EUA. A expressão yéyé, por sua vez, foi cunhada pelo sociólogo Edgar Morin no "Le Monde", num artigo que reflectia sobre a inesperada aparição de 200 mil miúdos em Paris, Junho de 1963, para celebrar o primeiro aniversário da "Salut Les Copains". Morin defendia nesse artigo que a "geração yéyé" escondia uma ambivalência. Representava uma "preparação catártica para uma vida de consumismo dócil", mas também "uma recusa visceral dessa vida". "C"Est Chic" é uma óptima representação dessa ambivalência. Porque o yéyé foi, na realidade, uma gigantesca Motown. Uma linha de montagem de "singles" e uma fábrica de talentos que se alargou bem para além da ética pudica inicial. A Motown tinha como slogan "o som da nova América". O yéyé representou o mesmo em França.

Abundavam as versões vertidas para francês dos maiores sucessos ingleses e americanos, mas não é esse o seu maior legado. Interessa no yéyé o cruzamento entre o rock"n"roll e a pop com uma sensibilidade francesa apurada há décadas - porque eram muitas vezes "veteranos" como Gainsbourg ou Robert Gall, pai de France, autor de letras para Aznavour ou Piaf, que davam música às jovens estrelas, aplicando o seu saber da música francesa anterior à entusiasmante nova vaga. E interessa também, no caso específico da panorâmica feminina oferecido por "C"est Chic", esta frase que adaptamos da autobiografia de Françoise Hardy, "Le Desespoir des Singes... Et Autres Bagatelles": "Espero simplesmente ter sido impudica... com pudor". Algo que Gainsbourg, sempre ele, sabotou logo que abraçou o yéyé - caso mais famoso e extremo, "Les Sucettes", canção em que France Gall cantou a doçura de um chupa-chupa de anis sem perceber o subtexto: era de sexo oral que falava o "enfant térrible" da música francesa.

A nova França

Com Françoise Hardy, o yéyé procurava, com arranjos de metais e orquestração opulenta, ser frágil mas emocionalmente arrebatador. Com Sheila, a grande "starlet" da época, procurava ser lúdico e inofensivo, qual versão sonora da "Anita". Com Jacqueline Taïeb, tunisina cedo imigrada para Paris e autora das suas próprias canções, estava directamente ligado à "swinging London", no limite de um psicadelismo mais sensual do que opiáceo. Com Anna Karina, buscava o lado negro e garage do rock"n"roll, com guitarras afogadas em fuzz, anglicismos e referências da cultura popular usadas como arte pop. Todo o yéyé que interessa no feminino, como em Brigitte Bardot, revela uma sabedoria na construção da canção que serve a personalidade de quem canta - "Ne me laisse pas l"aimer", com o órgão fervilhante e o ritmo insinuante, é perfeito para a voz sussurrada de BB, símbolo da emancipação feminina da década.

Não foi por acaso que deixámos para o fim Anna Karina e Brigitte Bardot. A sua presença representa a forma como a vaga yéyé se tornou transversal, conquistando actrizes ocasionalmente cantoras, como Karina e Bardot, e fascinando estilistas como Yves Saint-Laurent e Paco Rabanne, que escolheram Françoise Hardy como modelo de uma nova sociedade numa nova França. Até Jean-Luc Godard usou o yéyé como referência identitária na Madeleine de "Masculino Feminino" - interpretada pela cantora (yéyé) Chantal Goya.

Depois, quando tudo se tornou mais sério, declaradamente político, a inocência (real ou dissimulada) do yéyé perdeu o seu lugar na cultura francesa - não era possível aquela fantasia nas barricadas do Maio de 68, mesmo com a passagem do "Tous les garçons et les filles", de Françoise Hardy, para o "Les filles c"est fait pour faire l"amour", de Charlotte Leslie. Os músicos e os fãs tinham crescido. Ficou esta música. Que serve todos os que vieram depois. Que o digam April March, a americana que fundou no yéyé toda a sua carreira, os Blur que convocaram Françoise Hardy para uma versão bilingue de "To the end", os Belle & Sebastian, que carregam em si a ambiguidade central do yéyé, ou bandas recentes como os Tennis, que desejam insuflar a sua música da mesma sonhadora luminosidade.

Jacqueline Taïeb e Françoise Hardy, as canções de Bardot e de Anna Karina e as composições yéyé de Serge Gainsbourg não precisam de contexto.

Ver crítica de discos pág. 36 e segs.