Mulher que acusou Strauss-Kahn de violação defende a honra em entrevistas

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Nafissatou Diallo quebrou o silêncio para "contar a verdade" FRANCOIS GUILLOT/AFP

A defesa do antigo director do FMI censura "campanha mediática". Nafissatou Diallo diz que não quer dinheiro, só quer justiça: "Chamam-me prostituta por causa dele", lamenta

Dois meses depois do alegado ataque sexual no quarto de hotel ocupado pelo antigo director do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, em Nova Iorque, a funcionária de limpeza que acusou o político francês de violação resolveu quebrar o silêncio e o anonimato e limpar a sua reputação. "Não queria aparecer em público, mas não tenho outra alternativa. Chamam-me prostituta por causa dele. Tenho de contar a verdade", justificou Nafissatou Diallo, que concedeu entrevistas à revista Newsweek e ao programa Good Morning America da cadeia ABC.

Com a sua versão dos acontecimentos posta em causa pela defesa de Dominique Strauss-Kahn (DSK) e a sua credibilidade como testemunha arrasada ainda antes do julgamento, ao ponto de o procurador de Nova Iorque ter considerado abandonar o caso, Nafissatou Diallo garantiu que o seu relato é fiel e negou estar a explorar o caso para obter benefícios financeiros. "Não penso em dinheiro", declarou. "Quero justiça, quero que ele vá para a cadeia. Quero que ele saiba que, quando se faz uma coisa destas, o seu dinheiro e o seu poder não servem de nada", sublinhou.

Os advogados de Strauss-Kahn, que se declarou inocente de todas as acusações, escusaram-se a comentar as entrevistas de Diallo à imprensa norte-americana, mas não deixaram de censurar a estratégia mediática da alegada vítima "para persuadir a Procuradoria a manter as acusações". Em comunicado, os advogados William Taylor e Benjamin Brafman denunciaram a "campanha mediática e de relações públicas sem precedentes", que reputaram como "pouco profissional".

Pelo seu lado, a Procuradoria emitiu uma nota a explicar que não vai reagir às suas declarações. "Estamos perante um processo criminal. Para proteger a integridade do sistema, os direitos da vítima e do arguido, não discutimos os factos ou as provas de uma investigação em curso", esclareceu a porta-voz Erin Duggan.

A entrevista com dois jornalistas da Newsweek aconteceu no escritório do seu advogado, Kenneth Thompson, na 5.ª Avenida de Nova Iorque. A sua reportagem descreve a funcionária do Sofitel, de 32 anos, como uma mulher "muito pouco glamourosa", com a cara marcada por cicatrizes de acne, o cabelo pintado com henna, uma expressão melancólica. A sua figura, com 1,80 metros de altura, é "estatuesca", dizem.

Por várias vezes, durante a entrevista (que durou três horas), Nafissatou Diallo chorou, e em mais do que uma ocasião, os dois repórteres consideraram as suas lágrimas "fingidas". Também mais do que uma vez as suas respostas foram vagas: "Em quase todas as perguntas que fizemos sobre o seu passado em África", escreveram. Uma das razões porque a credibilidade de Diallo foi questionada prende-se precisamente com a forma como saiu da Guiné-Conacri e procurou asilo político nos Estados Unidos.

No entanto, a sua descrição do "incidente" de 14 de Maio, na suite 2806 do Sofitel, foi "vívida e convincente", ainda que pontuada por algumas "inconsistências" com anteriores relatos feitos à polícia e ao tribunal. Segundo contou Diallo, Strauss-Kahn não respondeu quando ela entrou no quarto anunciando "limpeza". Até que, de repente, se materializou à sua frente, completamente nu. A funcionária desculpou-se e voltou-se para abandonar o quarto. "Não são precisas desculpas", terá respondido Strauss-Kahn.

Tudo o que aconteceu a seguir desenrolou-se de forma muito rápida - segundo a cronologia apresentada pela Newsweek, passaram nove minutos entre o momento em que a funcionária entrou no quarto e um telefonema feito por DSK à filha, a confirmar um almoço às 12h15. Os registos do hotel demonstram que o antigo director do FMI deixou o hotel às 12h26.

Diallo diz que DSK se lançou para ela "como um louco", agarrando-se aos seus seios e dizendo: "És muito bonita". Nafissatou garante que reagiu à investida: "Por favor, pare com isso. Não quero perder o meu emprego", suplicou. Os jornalistas escrevem como Nafissatou Diallo gesticulou para demonstrar o que teria acontecido (o mesmo aconteceu na entrevista à ABC). O seu domínio do inglês é rudimentar e não sabe ler nem escrever em nenhuma língua.

Diallo diz que não recorreu à violência para combater DSK por "medo de perder o emprego", o seu único meio de subsistência. "Não o queria magoar", disse. Da cama, diz que foi empurrada para o quarto de banho, onde terá ocorrido a violação. No final, a empregada diz que "correu para o corredor, sem olhar para trás. Estava muito nervosa, estava cheia de medo". Nafissatou diz que se escondeu numa esquina do corredor e que viu DSK deixar o quarto pouco depois. "Não sei como ele se vestiu tão depressa. Olhou para mim, inclinou a cabeça e saiu sem dizer nada", recordou.

Nafissatou Diallo garante que só no dia seguinte, ao ver as notícias na televisão, se apercebeu que Strauss-Kahn era "um dos homens mais poderosos do mundo". "Quando disseram que ele ia ser o próximo Presidente da França, eu pensei: "Agora vão-me matar"", contou à ABC.