O experimentador

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luís vasconcelos/arquivo
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Levava a teoria da música tão a sério que a conduziu à prática em diversos projectos, como os Telectu. Jorge Lima Barreto, o homem que nunca parou de experimentar, com a escrita e com a música, morreu no sábado.

Experimentar, sempre. Enquanto músico, teórico da música ou pioneiro das diversas vanguardas em Portugal, foi sempre esse o princípio que norteou a actividade de Jorge Lima Barreto, que morreu no sábado, aos 61 anos, com uma pneumonia.

Como músico e compositor, a solo, em duo (Kits com Carlos Zíngaro ou Zul Zelub com Jonas Runa) ou com formações que ajudou a criar, como os Telectu e Anar Band, norteou sempre a sua actividade pela procura de novas soluções interpretativas e composicionais.

Na qualidade de teórico, a partir do final dos anos 60, foi dos primeiros em Portugal a escrever na imprensa e a publicar ensaios em livro sobre as práticas vanguardistas do jazz e outras músicas, apresentado das mesmas uma perspectiva musicológica.

Até na forma como escrevia existia singularidade, uma forte marca autoral, um ritmo e uma estrutura muito próprias, como se constata consultando a quase vintena de livros que escreveu como Revolução do Jazz (1972), Jazz-Off (1973), Rock Trip (1974), Rock & Droga (1982), Música Minimal Repetitiva (1990), JazzArte (1994), Música e Mass Media (1996), Musa Lusa (1997) ou B-Boy (1998). O jornalista e produtor musical António Duarte leu, aos 17 anos, Revolução do Jazz e não o percebeu, mas à terceira vez "os conceitos que o Jorge desenvolvia começaram a entrar-me. Era tudo novo para mim".

Hoje não tem dúvidas em dizer que "esse livro, que tanto me custou ler, é o mais iluminado que existe em Portugal sobre o que é o jazz - o jazz no seu significado sociológico e no seu significado revolucionário. E o que é mais curioso é que o Jorge começou a escrever esse livro aos 18 ou 19 anos. Tinha uma capacidade intelectual e uma abrangência histórica muito raras".

Mas a sua acção de divulgador não se confinou à escrita, realizando o programa de rádio Musonautas durante 14 anos, votando-se à docência ou fazendo conferências em vários países.

Em paralelo licenciou-se em História de Arte (1973) e doutorou-se em Musicologia e Teoria da Comunicação Social na Universidade Nova de Lisboa (1995).

Ao longo dos anos, por vezes, diz-se incompreendido em Portugal, mas nunca desistiu da liberdade de experimentar. Estudioso e praticante das músicas mais exploratórias, experimentais ou improvisadas, era também alguém aberto a outras artes, daí as suas associações com o artista visual António Palolo, com o performer Manoel Barbosa ou com a artista plástica Joana Vasconcelos, de quem era muito próximo.

"O Jorge é uma referência pessoal e artística", testemunha Joana Vasconcelos. "Para além de uma pessoa extraordinária contribuiu para a minha carreira artística em várias ocasiões, escrevendo textos e compondo. Íamos, aliás, agora a Vila Nova de Cerveira com um concerto, porque tenho um peça (Piano dentelle), com a qual o Jorge actuou várias vezes. O seu conhecimento extravasava a música, realizando cruzamentos com outras áreas, tendo aliás escrito um dos melhores textos sobre a minha obra."

Sempre à frente, sempre

O músico Carlos Zíngaro conheceu-o em 1973, tendo-se aí "iniciado uma empatia de ideias e de projectos que passou pela formação da Associação do Conceptual Jazz", que englobava um grupo de Lima Barreto, a Anar Band, da qual chegou a fazer parte o cantor dos GNR, Rui Reininho, e o Plexus de Carlos Zíngaro.

"Era uma pessoa única", diz Carlos Zíngaro, "foi por isso muito natural a aproximação ao Jorge, porque precisamente era alguém singular, substancialmente polémico, mas com uma perspicácia nestas áreas musicais que era e vai continuar a ser incontornável. Foi fundamental para uma camada mais jovem de músicos e de pensadores dentro destas áreas da música-arte."

Mas foi a partir de 1982, com os Telectu, que fundou com o músico Vítor Rua (ex-GNR), que viria a desenvolver um percurso relevante. Rapidamente, a dupla transformou-se na grande referência da música experimental feita em Portugal, combinando princípios do jazz mais livre, das electrónicas, da música concreta ou da escola minimalista.

"O Jorge sempre esteve à frente", refere António Duarte, evocando que se conheceram através de Rui Reininho, então seu colega de liceu. "Um dia o Reininho levou-me a casa dele e isso também foi marcante. Era uma casa rodeada de livros, de discos, de história. O Porto nos anos 70 era uma cidade cinzenta e o Jorge sobressaía. Recordo-me de ter ido assistir a uma aula dele, na Faculdade de Letras. Estava o anfiteatro cheio e, quando olho, na cátedra, vejo o Jorge a falar de casaco de peles e de cabelo comprido. Até nisso foi diferente."

Mais tarde, nos anos 80, quando se tornam amigos, "revela-se uma pessoa de grande sentido de humor, de resposta rápida, atento a tudo o que se passava. Era humano e interventivo", diz António Duarte.

Com os Telectu construiu um percurso de trinta anos, editando uma volumosa discografia de mais de vinte títulos - álbuns de estúdio ou registados ao vivo -, tendo a dupla colaborado com inúmeros músicos de excepção, da música improvisada ou experimental, como Elliot Sharp, Chris Cutler, Sunny Murray ou Jac Berrocal, tendo também, em simultâneo, composto para teatro, vídeo-arte ou performances multimédia.

Quem tem também um percurso internacional consolidado é Rafael Toral, músico de uma geração mais nova do que Barreto, que reconhece neste uma grande relevância. "No ainda miserável panorama cultural dos anos pós-25 de Abril teve o mérito de aglutinar várias dimensões relevantes das vanguardas internacionais dos anos 60 e 70 e introduzi-las no tecido artístico português com os Telectu, a sua manifestação mais actuante de sempre", refere. "A influência e inspiração das muitas inovações que protagonizou são de uma riqueza incalculável e permanecem vivas. Qualquer sinal de valor na criação musical de pesquisa deste tempo e deste país deve muito ao seu pioneirismo."

Agora vão ficar os seus livros e discos que, segundo António Duarte, "estavam tão à frente no tempo que podem ser lidos e ouvidos como se fosse hoje. Ele esteve sempre à frente. Sempre."