O actor que deu sangue ao cinema

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O actor morreu aos 49 anos em Lisboa DR

A Sétima Arte foi a parte maior duma carreira de duas décadas e meia, que ficou aquém das capacidades do actor. Entrou em três dezenas de filmes, e também experimentou o teatro

Ainda vamos voltar a vê-lo, quando estrear Em Segunda Mão, de Catarina Ruivo, o filme que inesperada e irremediavelmente lhe ficou para trás. Pedro Hestnes (1962-2011), o actor de O Sangue (1989), Xavier (1992), Agosto (1988) e outras três dezenas de títulos que inscreveram o seu rosto no cinema português das duas últimas décadas e meia morreu ontem em Lisboa, aos 49 anos. Foi vitimado por um cancro, que há dois meses o levou ao hospital, quando terminava a rodagem do filme de Catarina Ruivo.

Com ele desaparece uma das presenças mais intensas do nosso cinema. "Ele foi o primeiro actor realmente juvenil, depois do Rui Gomes em Os Verdes Anos [Paulo Rocha, 1963]", diz Jorge Silva Melo, que o dirigiu em Agosto e Coitado do Jorge (1993). E acrescenta que ele era "o nosso Jean-Pierre Léaud", não tão urbano como o actor da Nouvelle Vague, mas "o jovem herói romântico" que vivia num lugar indefinido.

Pedro Hestnes fez também carreira no teatro, tendo trabalhado na primeira metade da década de 80 com Mário Barradas, no Centro Cultural de Évora. Mas foi no cinema que depois fixou a sua carreira. Inês de Medeiros fez com ele o par protagonista da primeira obra de Pedro Costa. "O início d"O Sangue é um dos mais belos planos do cinema português, e isso deve-se à força e à intensidade da presença do Pedro", diz a actriz e realizadora que falou também da "profunda tristeza" por ter perdido um amigo que vinha da infância vivida em Lisboa.

Margarida Gil, que o dirigiu em O Anjo da Guarda, recorda "a enorme timidez e fragilidade" que estavam marcados no seu rosto, mas também "a ética de rigor e a entrega profissional" que colocava no trabalho, o que, paradoxalmente, pode ter justificado "o desperdício do seu talento".

Pedro Hestnes nasceu em Lisboa em 1962, filho do arquitecto Raul Hestnes Ferreira e neto do poeta José Gomes Ferreira. Viveu entre a capital, o Porto, Paris e Évora, onde estudou Teatro, Arquitectura e Artes, antes de se virar para o cinema. A sua primeira longa-metragem fê-la com João Canijo, Três Menos Eu (1988). Os Cornos de Cronos (1991), de José Fonseca e Costa, Combat d"Amour en Songe (2000), de Raul Ruiz; e Lobos (2007), de José Nascimento, são outros filmes da sua carreira.

O funeral realiza-se hoje, às 15h, no Cemitério de Camarate, em Loures, onde o corpo será cremado.