O xiquitsi da irmã Olinda tocou no momento da beatificação de Madre Maria Clara

Foto
Cerimónia contou com cerca de 10 mil pessoas NUNO FERREIRA SANTOS

Portuguesa que se dedicou a apoiar os mais pobres do país, no século XIX, foi ontem proclamada beata em Lisboa perante cerca de 10 mil pessoas

Há dois momentos principais em que a irmã Olinda Leopoldo, de 46 anos, moçambicana, toca o seu xiquitsi, pequeno instrumento de palha, como se fosse um pequeno adufe com sementes secas dentro. É quando Madre Maria Clara é proclamada como beata e quando a missa termina.

A irmã Olinda está feliz. A fundadora das Irmãs Hospitaleiras da Imaculada Conceição, congregação a que pertence, foi ontem proclamada beata, em Lisboa, pela sua dedicação aos mais pobres de Portugal, no século XIX. "As obras que fundou são expressão do seu modo de estar, atenta à realidade, de quem manifestava uma experiência de ternura, de ir ao encontro da humanidade", diz ao PÚBLICO enquanto se canta, no final da missa, o hino da beatificação.

Se Maria Clara vivesse hoje, diz Olinda Leopoldo, continuaria a procurar respostas "sem olhar a fronteiras", diz, convicta. Responsável pela formação por quatro anos e superiora da congregação em Moçambique durante outros seis, a irmã Olinda trabalha agora na sede da congregação, em Linda-a-Pastora (Oeiras). No seu país, Olinda esteve também envolvida no "acolhimento e educação de meninas de rua". E explica: "Percebemos que pela educação da mulher passa muito do que Moçambique precisa para a reconstrução do tecido social." Por isso, se as irmãs não podem acorrer a tudo, é preciso definir prioridades, diz.

Na homilia da missa, celebrada no Estádio do Restelo, o patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, destacou a nova beata portuguesa da Igreja Católica como alguém capaz de uma "ousadia notável" por ter criado uma congregação religiosa em Portugal, no século XIX, quando isso não era permitido pelas leis liberais. E destacou que as crises sociais e as epidemias da peste indicaram a Maria Clara "os pobres como destinatários do seu amor".

Perante uma multidão de perto de dez mil pessoas, que lotava metade da capacidade do Estádio do Restelo, o cardeal referiu-se a Libânia do Carmo, o seu nome de baptismo, como tendo nascido "num tempo singular". Maria Clara do Menino Jesus, o nome que adoptou na vida religiosa, "sentiu os desafios de ser cristã e de ser Igreja, numa sociedade cultural e politicamente a afastar-se do ideal cristão", acrescentou o cardeal.

O patriarca sublinhou ainda o facto de Maria Clara não ter copiado nenhuma das congregações já existentes, "pois queria responder ao momento que então se vivia". E o ter percebido "que a mulher que quer ser santa é chamada a ser uma explosão do amor de Deus, aquele amor que transforma o mundo".