Os despojos de Deauville

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Habituámo-nos a escolher entre o mau e o péssimo. Não foi sempre assim.

Em Outubro do ano passado encontraram-se Merkel e Sarkozy na estância balnear francesa de Deauville - e enterraram a ideia que poderia ter estancado a crise da dívida, salvado o euro e dado a volta por cima à economia europeia. Uma ideia simples, mas poderosa: tomar a economia da zona euro como um todo e dotá-lo da capacidade de emitir dívida para este apetecível mercado de 400 milhões de pessoas com invejáveis indicadores - quando tomados no seu conjunto. Isto seria feito através dos chamados eurobonds - títulos da dívida europeia.

No encontro de Deauville, Merkel e Sarkozy prometeram fazer tudo para salvar o euro - menos, precisamente, aquilo que poderia salvar o euro. Os eurobonds, que eram então discutidos seriamente, foram liminarmente recusados.

Dois indivíduos decidiram por todos os outros.

Meses depois, ninguém lhes pede explicações. Não temos tempo para isso: estamos ocupados a ter de decidir entre cortar nos salários ou subir os impostos (e vamos fazer ambos), entre renegociar a dívida agora ou daqui a uns tempos, após o que sofreremos vigorosas pressões para sair do euro. Dilacerados entre o mau e o péssimo, como acreditar que em tempos a escolha era entre o bom e o mau - e que foi escolhido o mau?

Ainda assim, é extraordinário que não haja em todo o continente europeu uma voz que diga: vocês escandalosamente arredaram da mesa uma ideia que tinha todas as razões para estar lá. E, desde que o fizeram, dois países morderam o pó.

A crise alastrou como uma peste combatida apenas pelo fetiche da "austeridade" em termos absolutamente irrealistas. A queda da Irlanda e de Portugal, nestes termos, era apenas uma questão de tempo. Tal como será a renegociação grega, a pressão sobre a Espanha e a fragmentação da moeda única.

Um dia olharemos com espanto para esta época como aquela em que Europa, estreitada entre os curtos interesses e os míopes preconceitos de dois dos seus líderes, resolveu brincar com o desastre em vez de optar pela reconstrução contra a crise.

E quando os historiadores quiserem identificar o momento em que a bifurcação nos apareceu à frente e tomámos o caminho errado, acho que o candidato mais forte a essa escolha será aquele dia de há sete meses, em Deauville.

Nós somos os despojos de Deauville. E gostaria de ouvir nesta campanha um candidato a primeiro-ministro explicar o que vai, no seu primeiro Conselho Europeu, dizer a Merkel e a Sarkozy. Historiador. Deputado independente ao Parlamento Europeu pelo BE (http://twitter.com/ruitavares); a pedido do autor, este artigo respeita as normas do Acordo Ortográfico