O Estado-mercadoria e o fim da democracia

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Quem reina agora são os especuladores ("jazemos e possuímos"). As agências de rating são os seus oráculos

A dominação não basta. É necessária uma ideologia da dominação. A maioria não conta. O que conta é a ideologia que a submete à minoria. Todo o poder consiste no controlo de uma maioria por uma minoria. Essa é também a essência de qualquer regime democrático. A ideologia da dominação garante à minoria a eleição pela maioria.

A ideologia é uma crença. Fazer crer é aquilo em que se traduz o argumento político. Os meios de comunicação são o teatro. A estética, a ilusão perfeita. A "verdade" virtual sobrepõe-se à verdade real. Não se pode arrancar a máscara: já está colada à cara.

As televisões vendem imagens. Os seus clientes são empresas de publicidade. O mercado garante a equivalência das mercadorias. Aquilo a que chamamos "informação" é apenas uma delas. O pluralismo ideológico é uma espécie de estante de supermercado no meio do shopping global. Este é o pluralismo a que temos direito. O pluralismo do consumo, e não o da cidadania.

O mercado reduz tudo a mercadoria, incluindo a justiça, a educação, a saúde, o saber, a arte, o sexo, a religião e, é claro, a política. O mercado toma o lugar da ideologia na exacta medida em que se transforma na mais "diáfana" das ideologias: aquela que se dissimula a si própria e nos aparece sob a forma de mera "duplicação daquilo que já é".

Agora chegou a vez do Estado. A constituição política, os direitos fundamentais, os órgãos de soberania, os partidos, as eleições parecem relegados para o museu das velharias inúteis. Os verdadeiros órgãos do poder político já não estão em Portugal, nem sequer na União Europeia, muito menos respondem perante o eleitorado.

Eis o resultado da situação a que chegámos: "lixo". Os órgãos de informação são infatigáveis no diagnóstico. Parece ser agora a "mercadoria" que mais se vende. Qual é a TV, o programa, o pivot que estão a ganhar no ranking das quotas de audiência? As empresas de publicidade estão atentas. As direcções de informação também...

Lixo - verdadeiramente - é, porém, este monumental vazio de ideias e de projecto a que a Europa chegou, esta crispada imagem de sem-poder que nos transmitem as instituições políticas, este espectáculo pornográfico de usura à escala mundial (num mundo de fome e de miséria!), este clima sombrio e de muito mau presságio de fim de festa da democracia.

A política cedeu o lugar à economia, e esta, por sua vez, apropriou-se da política. Ao contrário do que se diz, a crise das dívidas soberanas e o ataque ao euro não resultam dos "mecanismos" do mercado, nem são consequência inevitável de factores económico-financeiros. Usa-se a máscara de uma agenda financeira para impor uma agenda política. Ao mesmo tempo, são silenciadas as vozes incómodas, mesmo que sejam prémios Nobel da Economia.

Quem reina agora são os especuladores ("jazemos e possuímos"). As agências de rating são os seus oráculos. Geraram um novo produto transaccionável: o Estado-mercadoria. São milhões de pessoas, Estados inteiros oferecidos em holocausto à gula do capitalismo de casino.

O descarado gáudio de alguns com a entrada do FEEF/FMI não vem somente das grandes negociatas em perspectiva com a liquidação do Estado social. Vem do sabor antecipado de triunfo sobre os próprios mecanismos democráticos. Trata-se de confrontar o eleitorado com o facto consumado das decisões "técnicas".

Nunca a ideologia de dominação foi tão sofisticada. Já não lhe basta "assegurar" o sentido do voto. Pretende também torná-lo obsoleto. Professor catedrático da FCSH (UNL)