Jeniffer queria ser famosa, mas saltou de um 15º andar. Ou não?

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Jeniffer faria 18 anos a 13 de Maio cortesia da Just Models
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Jeniffer faria 18 anos a 13 de Maio cortesia da Just Models

O mistério da morte da manequim de 17 anos envolve traições, festas, álcool, luxo, violência e um testemunho que lançou a dúvida sobre a tese inicial de suicídio. "Era uma rapariga super-feliz que recuperava daquilo que lhe fazia o Miguel sempre com um sorriso na cara", diz uma amiga. "Pendurei-me naquela mesma janela para fugir dele", diz uma mulher não identificada

Com uma estranha serenidade, o pai relata a conversa da miúda que, há uma semana, havia de se tornar famosa depois de voar para a morte do topo de um prédio do Parque das Nações, com 17 anos de idade. "Papai, eu um dia te vou ajudar", disse ela. Na altura Jeniffer Viturino ainda não era uma radiosa modelo em ascensão. Era apenas uma menina da classe média-baixa que vivia com os pais e o irmão nas imediações da cidade brasileira de Vitória, no estado de São Paulo, e que tinha um sonho: ser uma manequim famosa e sustentar a família, como Gisele Bündchen, também fruto de uma família pouco abonada e, mais tarde, uma das super-modelos mais bem pagas do mundo.

"Com essa carinha, ainda vais ser modelo", diziam a Jeniffer desde os sete anos. E ela acreditou que um dia havia de chegar lá. Só que os sacrifícios pareciam não ter fim e não havia maneira de a vida melhorar. Solange, a mãe, deixou a oficina de montagem e reparação de persianas onde ajudava o marido para vir tentar a sorte em Portugal. Ajudados a criar por uma tia, a menina e o irmão, dois anos mais velho, acabaram por se juntar à mãe algum tempo depois, tinha Jeniffer de 13 para 14 anos. "Eu tinha dentro de mim que os meus filhos haviam de ter os estudos de que eu não tive oportunidade", diz o pai, Girley, que ficou à espera de vir, mais tarde, a juntar-se à família.

Em Portugal a vida continuava a ser dura para a família Viturino, feita de casas partilhadas com conterrâneos para aliviar o peso da renda. No caso dos dois adolescentes, houve também o choque com um sistema de ensino diferente e no 7º ano, o primeiro que frequentou em Portugal, Jeniffer chumbou. No armazém de criação de aves ornamentais do Lumiar onde ainda hoje trabalha, Solange vendia todas as férias para pagar o sonho da sua menina. Foram cinco anos sem descansar: "Vendi sempre as minhas férias p"ra dar o melhor p"ra ela."

Eram precisos cursos de passerelle, sessões fotográficas, ter a moça sempre bem apresentada, pagar as deslocações necessárias para este ou aquele concurso de beleza... Mas, à medida que a menina se torna mulher os esforços redobrados começam a dar frutos. As fotos do momento em que ganha o título de Miss Póvoa de Santo Adrião 2009 não mascaram os apenas 16 anos que tinha na altura, mas desse Verão em diante as aparições profissionais de Jeniffer mostram já uma mulher feita, aparentando muito mais idade. A mãe incentiva-a: "Tudo o que era importante p"ra ela eu permitia."

Lá longe, do outro lado do oceano, o pai assiste ao desfile em directo pela Internet, orgulhoso do sucesso da sua menina.

É no Verão de 2009 que, depois de ter entrado no concurso Belas e Perigosas, do extinto diário 24 Horas, ruma ao Algarve. Em Lisboa, a mãe continua a sua labuta para que não falte nada a ela nem ao irmão. Quando se cruzam com Solange na rua, há amigas que a acham cada vez mais triste, completamente diferente da mulher alegre que desembarcou em Portugal. Diz-lhes que não é nada, só cansaço.

São 365 dias por ano a caminhar para o armazém, ou perto disso, já que aos sábados, domingos e feriados os bichos também comem. "Estar com as aves dá-me uma calma tão grande...", comenta. Entretanto, consegue mudar com os filhos para uma casa maior. O marido é que já não há-de lá vir a morar, como tinham planeado: a distância mata muitas coisas, e Solange já conheceu aquele que se há-de tornar, mesmo sem papel assinado, no padrasto de Jeniffer e do seu irmão Jonathan.

Numa das discotecas algarvias mais badaladas de sempre, o Sasha, Jeniffer conhece o empresário do ramo aeronáutico Miguel Alves da Silva. O herdeiro abastado tem quase o dobro da sua idade, 29 anos, mas isso não choca a mãe quando, meses mais tarde, a filha lhe apresenta o novo namorado. "Fiquei com boa impressão, era - e continua a ser - uma pessoa super-educada. Se não era demasiado velho? Isso é preconceito, o gostar não tem idade", declara ainda hoje, depois do sucedido.

85 euros de cada vez

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