Souto Moura conquista segundo Pritzker para Portugal

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"Praticamente só trabalho lá fora", lamentou Souto de Moura MIGUEL MANSO

"Um país com dez milhões de habitantes e dois prémios Pritzker não é muito comum", disse ontem o arquitecto do estádio de Braga

Foi no meio da alguma confusão que chegou a notícia de que o Prémio Pritzker, a máxima distinção no mundo da arquitectura, tinha sido atribuído ao português Eduardo Souto de Moura. A Hyatt Foundation, promotora do prémio, só tinha planeado anunciá-lo a 11 de Abril, mas uma fuga de informação inesperada, através de um site de arquitectura espanhol, veio baralhar os planos.

O nome revelado pelo site era o de Souto de Moura. Ultrapassada pelos acontecimentos, a organização, baseada em Los Angeles, acabaria por, algumas horas depois, confirmar a notícia: pela segunda vez na história do prémio, o distinguido era um arquitecto português. Dezanove anos depois de Álvaro Siza, o Pritzker é atribuído a um arquitecto que começou a carreira como seu discípulo mas que rapidamente se autonomizou e conquistou um percurso próprio - e único.

À noite, numa conferência de imprensa improvisada em Lisboa, Souto de Moura contou que "há uns tempos" recebeu um telefonema em que lhe disseram que lhe tinha sido atribuído o prémio. "Pensei que era brincadeira". Asseguraram-lhe que era verdade mas pediram-lhe sigilo. Ontem ficou "muito admirado". Tinha verificado no site oficial e "estava em último, com 700 votos". Ficou na expectativa "até que hoje o New York Times diz que quer fazer umas perguntas, o que é sinal de que é verdade", brincou.

Mas, embora Álvaro Siza acreditasse que era uma questão de tempo até ele receber o Pritzker, Souto de Moura não sentia o mesmo - e cita o próprio Siza, que sempre lhe disse que "a primeira condição para ganhar prémios é não se pensar neles". Souto de Moura confessa: "Nunca pensei ganhar o Prémio Pritzker. Tive uma leve suspeita, para dizer a verdade, de ganhar o Prémio Europeu de Arquitectura Mies van der Rohe com o Estádio de Braga. Perdi por um voto segundo me disseram".

Desta vez ganhou mesmo. O que "é muito bom" porque "estava muito preocupado" com a sua actividade de arquitecto: "Praticamente só trabalho lá fora. Estou a ficar cansado e não é razoável. Em Portugal não há emprego está tudo a emigrar. Temos bons arquitectos e a chamada geração à rasca está mesmo à rasca. E não há para onde ir. O único sítio para onde os arquitectos portugueses estão a ir é para a Suíça e para o Brasil." O que é pena, porque "um país com dez milhões de habitantes ter dois prémios Pritzker não é muito comum."

"Inteligência e seriedade"

Um "trabalho do nosso tempo mas com ecos das tradições arquitectónicas", edifícios que "na sua aparente simplicidade formal" tecem "complexas referências às características da região, da paisagem, do local e da mais vasta história da arquitectura" - é assim que o júri do Prémio Pritzker descreve a arquitectura de Souto de Moura e justifica a atribuição ao arquitecto português do prémio (no valor de 100 mil dólares, ou 71 mil euros) que já distinguiu nomes como Rem Koolhaas, Norman Foster, Renzo Piano, Rafael Moneo, Tandao Ando, Zaha Hadid, Jean Nouvel.

Souto de Moura é "fascinado pela beleza e autenticidade dos materiais" e tem a confiança para "usar pedra com mil anos ou deixar-se inspirar por um detalhe moderno de Mies van der Rohe". O resultado é uma arquitectura "que não é óbvia, frívola ou pitoresca". É antes "imbuída de inteligência e seriedade".

Nuno Brandão Costa, arquitecto do Porto, Prémio Secil 2008, fala também em "inteligência nata", associada a um "imenso talento", e a "um saber e uma cultura de irrepetível sensibilidade". A obra de Souto de Moura é a de "um homem de uma ética e estética superior".

Uma ética que, disse o próprio Souto de Moura numa entrevista ao PÚBLICO em 1998, foi influenciada pelo tempo que trabalhou com Álvaro Siza, depois de ter saído da Escola de Arquitectura do Porto, onde fora aluno de outra referência da arquitectura portuguesa, Fernando Távora. Siza confessou em tempos num texto que foi "com pérfido desgosto e maior alegria" que rapidamente compreendeu que não teria colaborador por muito tempo. Em 1981 Souto de Moura concorreu ao concurso para a Casa das Artes e venceu. Foi o início de uma carreira autónoma, e o projecto que lhe daria, quando finalmente terminado, o Prémio Secil em 1992.

O que distingue a forma de trabalhar de Souto de Moura é, explica o arquitecto e crítico Manuel Graça Dias, "um grande pragmatismo face aos problemas" associado a "um enorme rigor, quase obsessivo, com os detalhes e a escolha dos materiais perenes, para criar uma arquitectura sólida, que resista ao tempo". E ainda "um certo sentido de humor, uma boa disposição, que o leva a conjugar esses elementos de maneiras surpreendentes."

"Estímulo" para Portugal

Os arquitectos portugueses sentiram o prémio como um reconhecimento não apenas da obra de Souto de Moura, mas, de uma forma mais ampla, da arquitectura portuguesa. "É uma notícia extraordinária, uma honra e um estímulo para a arquitectura portuguesa", disse ao PÚBLICO o presidente da Ordem dos Arquitectos, João Rodeia. "Não há nenhuma área em Portugal, da ciência ou da cultura, em que tenhamos tido tão amplo reconhecimento internacional como a arquitectura. E este reconhecimento deve-se tão-só ao mérito dos arquitectos, porque nunca houve grandes apoios ou uma estratégia concertada do Estado para promover a arquitectura portuguesa".

A partir do Brasil, outro Pritzker, Paulo Mendes da Rocha (que recebeu o prémio em 2006) manifestava a sua "grande alegria" com a escolha de Souto de Moura: "É uma afirmação, para todos nós, da força do discurso da nossa querida língua portuguesa, da nossa arquitectura como discurso sobre a nossa existência nos espaços do mundo e sobre a construção da nossa cidade."

"É um grande dia para a arquitectura portuguesa. Foi premiado um dos seus grandes arquitectos", concorda o arquitecto Nuno Grande, autor de uma monografia sobre Souto de Moura para a revista espanhola El Croquis. "A sua obra é de uma coerência inegável. Souto de Moura tem-se pautado por não se inscrever nas linhas mais mediáticas da arquitectura, não segue o star system. Tem um filão muito próprio, distinguindo-se do seu mestre Siza." Mas o prémio é também, reforça Nuno Grande, "é um sinal de que a arquitectura portuguesa está viva e que se reinventa de geração para geração." É uma arquitectura que "não fica presa a nomes." Por isso, espera que este Pritzker que não foi o primeiro não seja também o último. "Eventualmente, vamos receber mais, porque a arquitectura portuguesa tem este dom de se reinventar. É um orgulho." com Sérgio C. Andrade e Cláudia Carvalho