A missão prossegue, falta a "estratégia de saída"

Quem comanda e quem define os próximos passos e os limites da operação contra a Líbia? Os membros da Aliança Atlântica não chegaram ainda a acordo. Paris, Londres e Washington anunciaram terça-feira uma base de entendimento sobre o papel da NATO na coligação, mas com versões diferentes. Em San Salvador, Barack Obama informou que o acordo prevê que a NATO terá um "papel-chave" na condução das operações. Em Paris, o chefe da diplomacia francesa, Alain Juppé, explicou que a Aliança teria um papel técnico, mas não assumiria "a pilotagem política".

Começou entretanto a operação de embargo naval à Líbia a cargo da NATO, enquanto a União Europeia anunciava a preparação de novas sanções contra Trípoli, visando designadamente a sua companhia petrolífera NOC e filiais.

A modalidade da participação da NATO é um assunto sensível que divide os países que incorporam a coligação que impôs a zona de exclusão aérea na Líbia. E mais aguda se torna quando os EUA se dispõem a concluir o mais rapidamente possível a sua participação militar directa, deixando a missão nas mãos dos europeus.

Segundo Juppé, a NATO teria um papel "de planificação" na aplicação da zona de exclusão aérea. Mas a direcção política da operação caberia a um "grupo de contacto", um comité formado pelos ministros dos países participantes, incluindo os árabes - e convidando a Liga Árabe, a União Africana e a União Europeia a associarem-se. Está agendada uma reunião para terça-feira, em Londres. Até um acordo, fica em suspenso a nomeação do chefe militar das operações.

As primeiras clivagens surgiram antes da aprovação da resolução da ONU, a 17 de Março. A Alemanha, que se declarou opor ao uso da força, absteve-se na votação. Depois de ter recusado participar na intervenção, Berlim retirou ontem os seus navios do comando da NATO. Em compensação, anunciou o reforço da sua presença aérea no Afeganistão.

A Itália - que encara Paris como rival na Líbia e na política mediterrânica - voltou a exigir o comando unificado da NATO; e a Noruega, que exige o mesmo, colocou os seus aviões sob comando americano. Roma aceitou, no entanto, o comando da força naval encarregada de fiscalizar o embargo.

A Turquia acabou por retirar as objecções à utilização da NATO, mas impondo condições sobre a duração e as metas da missão. Perante as divergências, propõe a passagem da missão para o quadro da ONU.

A grande maioria dos países europeus, incluindo o Reino Unido, defendem o comando da NATO. É também a solução que Washington tem em mente para poder passar o testemunho.

Até agora, as decisões são tomadas por Washington, Londres e Paris, sob coordenação militar americana. Os franceses têm em mente conseguir um lugar preponderante numa operação que consideram europeia e a que pretendem associar os árabes e africanos.

Até onde vai a missão?

Esta disputa encobre manifestas divergências sobre a natureza e os objectivos da missão. Qual será, por exemplo, a "estratégia de saída" ou as condições em que a missão poderá ser dada como concluída? A resolução da ONU encerra alta dose de ambiguidade, podendo ser interpretada restritiva ou latamente.

A primeira parte da operação foi a mais fácil, dada a desproporção das forças. Os cenários que se colocarão dentro de dias são extremamente incertos. A Itália propôs a via de um cessar-fogo geral, seguido de negociações sob a égide da ONU. Mas como fazer respeitar uma trégua num país onde não há uma linha de demarcação clara e em que o foco de conflito se tenderá a deslocar para as cidades? Como reagir se houver manifestações em Trípoli e Khadafi mandar disparar sobre os opositores? Ele dispõe de um imenso tesouro de guerra para resistir longamente.

Os aliados apostam numa ruptura do campo de Khadafi. E se ela não acontecer? A deposição do ditador - ou a "mudança de regime" - é ou não um dos fins da missão? Como o atingir, sendo vedada uma intervenção terrestre? E sendo frágeis as forças da oposição, como as reforçar, treinar ou armar sem violar a resolução da ONU? E, dada a estrutura social da Líbia e o vazio político, como prevenir o cenário catastrófico do "dia seguinte": uma guerra civil de "todos contra todos"? Os analistas coincidem em reconhecer que todas as respostas são problemáticas. O MNE francês, Alain Juppé, diz que a NATO deve ter um papel de "planificação" mas não a direcção política das operações