O candidato Godinho Lopes e o exemplo do Dortmund

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PEDRO CUNHA

Godinho Lopes desdobrou-se em entrevistas depois de confirmar a sua candidatura à presidência do Sporting e saltou à vista a sua vontade de passar um conjunto de ideias que, em boa parte, contrariam a tese de que a sua lista é mais de continuidade do que de rotura com o actual estado de coisas em Alvalade. Não se negou sequer a falar de milhões e das depauperadas contas do clube, e fê-lo com notória clareza e de forma desempoeirada - no que não terá sido despiciendo o suporte da agência de comunicação (Cunha Vaz & Associados) que ajuda a promover a sua candidatura.

A 22 dias das eleições, salta à vista que deverá ser ele o sucessor de José Eduardo Bettencourt, até porque o elevado número de candidatos (seis, embora alguns possam ainda desistir e outros surgir...) joga claramente favor de uma proposta que reúne muitas das várias sensibilidades leoninas.

Dias Ferreira já deve ter ganho consciência de que a sua aposta em Paulo Futre irá servir mais para dividir do que para lhe garantir apoios, ele que já não devia ter muitos. Pedro Baltazar funciona mais como uma reserva para o futuro, mas pode acrescentar algo de interessante à campanha. A aposta em Zico para treinador nem é despropositada de todo. Mas tenho algumas dúvidas de que se venha a sair bem quando tiver de explicar a razão e o processo que lhe permitiram livrar-se recentemente (e a bom preço) das suas acções da SAD leonina, onde era o maior accionista individual. Bruno de Carvalho arrancou cedo de mais (e sem grande suporte), enquanto Sérgio Abrantes arrancou tarde e a más horas (e ainda com menor poder de atracção). E a Zeferino Boal, que parece um verdadeiro outsider, não deverá bastar a promessa de que se vai sentar no banco de suplentes durante os jogos...

Godinho Lopes assevera que a sua equipa "não é o saco de gatos que as pessoas dizem" e que só inclui uma pessoa (José Felipe Nobre Guedes) da anterior administração. Mas que - como não podia deixar de ser e se depreende da presença de outras figuras - não terá deixado de merecer a aquiescência das entidades bancárias que dão suporte a boa parte de um passivo cada vez mais próximo dos 300 milhões de euros. Godinho Lopes tem conseguido passar a imagem de alguém com grande sentido de liderança e convicções fortes, o que pode trazer algum conforto a quem viu o Sporting, ultimamente, navegar à bolina dos mais diversos ventos. Mas não são aconselháveis conclusões apressadas, porque Bettencourt também começou por dar a mesma ideia e, depois, resultou no que se sabe.

Para já, indesmentível é o conhecimento que o candidato demonstra dos mais diversos dossiers. O que acaba por ser natural em quem confirma as conversas regulares ("às segundas-feiras") que, desde há três anos, vinha mantendo com Bettencourt. E também em quem, nos últimos meses, perdeu "dias e dias a olhar para os números" a vermelho. Porque, percebe-se, queria mesmo muito ser presidente do Sporting, o que é mais do que legítimo. Foi equilibrado na promessa de que o Sporting irá ser campeão durante os três anos de mandato e não deixará também de retirar alguma popularidade da afirmação de que não irá ser remunerado (tema que iniciou o depois galopante desgaste a que foi sujeito Bettencourt).

As apostas em Luís Duque e em Carlos Freitas também lhe vão granjear muitos dividendos nas urnas, mesmo que não seja garantido que aquilo que constituiu uma solução no início do século volte a sê-lo hoje em dia. Mas foi interessante deixar claro, desde já, como irá funcionar a hierarquia dirigente, mesmo em termos de exposição mediática. Até porque é também uma demonstração de sentido de liderança. A raiar quase o populismo foi a vontade de retirar dividendos do facto de, em oito anos, ter feito "parte de quatro épocas ganhadoras". Mas isso até acaba por ser admissível num período eleitoral em que também irá continuar a reclamar os méritos da construção do estádio e do centro de estágio em Alcochete. Valha a verdade que, no que diz respeito ao primeiro, basta olhar para ele, ou frequentá-lo, para se perceber que nem tudo terá corrido bem... Por outro lado, é interessante ouvi-lo falar na necessidade de o clube recuperar o orgulho e os valores perdidos, bem como a intenção de para isso investir na chancela de uma formação que criou jogadores como Figo, Cristiano Ronaldo, Quaresma e tantos outros. O pavilhão, a equipa B e o eclectismo eram, por outro lado, promessas obrigatórias num clube com a auto-estima muito ferida.

O que não ficou claro foi o futuro que estará reservado a José Couceiro, que não continuará como treinador, mas também não tem garantido o regresso à condição de director-geral. A declaração de que será respeitado o seu contrato de três anos pareceu surgir mais por obrigação do que outra coisa, o que, a confirmar-se, resultará no desaproveitamento de alguém que podia funcionar como uma evidente mais-valia numa organização em que elas não abundam.

Na sequência daquilo que já tinha sido afirmado por José Maria Ricciardi - "Nunca se gastou tanto como agora. Gastou-se foi mal. (...) Bettencourt investiu, nas duas últimas épocas, 40 milhões de euros por ano" -, Godinho Lopes tentou desmistificar a ideia de que o Sporting só está em crise porque gasta claramente menos do que os seus principais rivais. Garantiu ter as soluções necessárias para resolver as necessidades de curto prazo (cem milhões de euros, 13 dos quais já para esta época) e que, em boa parte, resultam da antecipação de 30 milhões de receitas. Mas bem mais importante acabou por ser a intenção de recuperar os 40 mil sócios com quotas em atraso e a garantia de que os gastos irão ser racionalizados, não fazendo sentido continuar a gastar 3,9 milhões de euros com jogadores cedidos a outros clubes.

De facto, gastar bem é, muitas das vezes, mais importante do que ter muito dinheiro para gastar. Nesse âmbito, o Sporting pode ter muito a aprender se olhar para o exemplo recente do Borrussia Dortmund. Nos processos e na política seguida.

Em 2005, o Dortmund tinha praticamente entrado na bancarrota e as suas acções na bolsa perderam 80 por cento do valor, obrigando a uma redução dos ordenados em 20 por cento. Dois anos depois, correu mesmo sérios riscos de descer de divisão. Hoje, segue à vontade na liderança da Bundesliga, com 12 pontos de vantagem sobre o Bayer Leverkusen, depois de ter ido ao Allianz Arena bater o Bayern de Munique. Está a conseguir um conjunto de resultados fantásticos com um orçamento de apenas 34 milhões de euros, verba ridícula quando comparada com alguns dos seus mais directos competidores. Ou com o que o próprio Dortmund gastava quando construiu a equipa fantástica (incluindo o português Paulo Sousa) que ganhou o título europeu, frente à Juventus, em 1997.

A solução mágica foi encontrada por Hans Joachim Watzke, um director-geral que depressa percebeu ser a aposta na formação e em jovens de outros clubes a única via possível de um clube tentar sair de uma profunda crise financeira. Boa parte dos jogadores fez parte da selecção alemã que, há duas épocas, conquistou o Europeu de Sub-21, onde também jogava Ozil, agora no Real Madrid. Um exemplo dessa aposta: há três anos, o clube gastou dez milhões de euros na contratação de dois jovens centrais de 19 anos (Hummels, do Bayern, e Subotic, do Mainz). Hoje, eles são a melhor dupla do campeonato alemão. Uma boa rede de observadores também é fundamental: o médio Kagawa foi descoberto na época passada na segunda divisão japonesa, a exemplo do investimento do FC Porto em Hulk. Hoje, o Dortmund tem a equipa mais jovem (média de 22,3) dos seus 102 anos de história.

Para complementar esta estratégia, o Dortmund contratou Jurger Klopp, um treinador também jovem (43 anos), que tinha ganho mais popularidade a apresentar um programa televisivo de desporto do que a treinar o Mainz. A verdade é que a sua forma paternalista e bem-disposta de liderar o balneário tem funcionado na perfeição. Klopp dá privilégio a jogadores inteligentes, que entendam as subtilezas tácticas e a necessidade de praticar um futebol atraente. E tem-no conseguido, como o prova a afluência média no Signal Iduna Park, que ultrapassa os 79 mil espectadores por jogo, a mais alta da Europa, a par do Barcelona, com quem o Dortmund gosta de ser comparado.

Godinho Lopes não perdia nada em enviar, durante uma semana, um observador a Dortmund...

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