A "mãe chinesa" que está a abalar a América

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Amy Chua publicou um livro em que demonstra por que é que as crianças asiáticas são melhores estudantes do que as ocidentais. Agora anda em digressão pela América a tentar controlar os danos à sua imagem. O P2 apanhou-a na sexta-feira em Washington, numa sessão de lançamento. Por Kathleen Gomes, em Washington

Que tipo de mãe ameaça pôr a sua filha de três anos na rua, em pleno Inverno, se ela não lhe obedecer? E impede-a de jantar, ir à casa de banho e ter festas de aniversário durante "dois, três, quatro anos" até ela conseguir tocar uma peça de piano na perfeição?

No último mês, a América tem falado ininterruptamente de Amy Chua, uma professora de Direito na Universidade de Yale que acaba de publicar um livro sobre a forma como educou as duas filhas. Filha de imigrantes chineses, Chua adoptou um modelo de educação semelhante ao que os seus pais lhe deram: disciplinador e intransigente.

Entre ser uma "mãe ocidental" ou uma "mãe chinesa", Amy Chua, que nasceu no Illinois, preferiu a segunda escolha. Os pais ocidentais são demasiado permissivos e laxistas, já os pais "chineses", com os seus métodos extremistas, criam filhos exemplares e prodígios da matemática, diz.

"A verdade é que pais chineses podem fazer coisas que seriam inimagináveis - até mesmo passíveis de acção legal - para ocidentais", escreve Chua em Battle Hymn of the Tiger Mother (qualquer coisa como: "Canto de guerra da mãe tigre"). "Mães chinesas podem dizer às suas filhas: "Ei, gorducha, vê se perdes algum peso!". Por contraste, pais ocidentais têm de contornar o assunto com falinhas mansas, colocando a questão em termos de "saúde" e sem nunca mencionar a palavra gordo, e ainda assim os seus filhos acabam a fazer terapia por terem desordens alimentares e uma auto-imagem negativa."

Chamar "lixo" ao filho

Uma vez Chua disse à sua filha mais velha que ela era "lixo". O seu próprio pai chamou-a "lixo", e ela considera que foi eficaz. No livro Chua conta que revelou isto num jantar de amigos e uma das convidadas ficou tão perturbada que começou a chorar e abandonou o jantar mais cedo. A anfitriã tentou reabilitar Chua aos olhos dos restantes convidados, sugerindo que ela tinha falado em sentido figurado. "Tu não chamaste realmente "lixo" à Sophia", perguntou a anfitriã. "Chamei, sim", admitiu Chua, sem remorsos.

O livro de Chua foi apresentado ao mundo através de uma pré-publicação no Wall Street Journal, no início do ano. Em poucos dias, o excerto, publicado com o título "Por que é que as mães chinesas são superiores", gerou mais de cinco mil comentários na página online do jornal, mais do que qualquer outro artigo jamais conseguira.

Alguns chamavam Amy Chua de "monstro". A autora diz ter recebido ameaças de morte e centenas e centenas de e-mails. Na blogosfera, outros filhos de imigrantes asiáticos nos EUA acusaram Chua de perpetuar estereótipos sobre a comunidade. "Pais como Amy Chua são a razão por que asiático-americanos como eu estão a fazer terapia", escreveu Betty Ming Liu, professora de Jornalismo na Universidade de Nova Iorque. Outra mulher relatou que a sua irmã se tornou na filha asiática perfeita que Chua espera produzir e mais tarde se suicidou porque receava admitir a alguém que sofria de depressão.

Desde então, Chua tem feito uma campanha imparável para clarificar as intenções do seu livro e melhorar a sua reputação. As suas filhas adolescentes vieram a público defendê-la, em entrevistas e cartas a jornais. "Fiquei bastante em baixo na primeira semana. Não sabia se havia de reagir e tentar controlar os danos ou enfiar-me na cama e não sair de lá", admite Amy Chua, numa livraria de Washington.

É sexta-feira à noite. Para ver a autora é preciso pormo-nos em bicos de pés. A livraria Politics &Prose, que regularmente convida escritores conhecidos para falar sobre os seus livros, está lotada como não acontecia desde Annie Leibovitz. Há camaras de televisão e repórteres do Washington Post. Estarão umas 500 pessoas, diz um vendedor. A média diária não chega a uma centena. As pessoas fazem fila, em pé, para colocar perguntas, sem que esta diminua. No fim, quando Chua autografa exemplares do livro, um grupo de pessoas, asiáticas na maioria, tira fotografias excitadamente, como se ela fosse uma estrela.

"Não tentem isto em casa"

O que Chua descobriu, quando começou a promover Battle Hymn of the Tiger Mother, foi não só que imensas filhas tinham oferecido o livro aos pais, mas também que havia pessoas que se reconheciam na sua experiência. Como a latina com cabelo à tigela que lhe fez uma pergunta na livraria de Washington.

- Este livro foi-me apresentado pela minha filha de 29 anos. Quando mo deu, disse: "Mãe, finalmente percebo por que puxaste por mim até ao limite!" Puxar pelas crianças até ao limite não é um exclusivo chinês. Nós, hispânicos... na minha família, a minha mãe foi dura, o meu pai foi duro, e depois eu fui dura, está a ver?

Risos.

- E criei cinco filhos bem-sucedidos que me deixam muito orgulhosa. Apesar de não ter chegado aos seus extremos.

Risos.

-Peço-lhe que me responda sim ou não. Numa perspectiva clínica, alguma vez considerou procurar ajuda?

Gargalhadas e aplausos.

- Não, diz Amy Chua, acrescentando que podia ter-se retratado de uma forma mais agradável, se quisesse. "A sério. Todos os dias digo às minhas filhas que as amo, podia ter incluído coisas desse género." Os leitores só têm acesso a uma parte da história, diz. E "é suposto ser um pouco cómico, uma autoparódia".

Este tem sido o principal argumento de defesa da autora. Isso e afirmar o seu desapontamento pela forma como o Wall Street Journal enquadrou a pré-publicação do livro. O seu objectivo nunca foi dizer que as mães chinesas são superiores, diz. Na verdade, no fim do livro, durante uma das enésimas revoltas da sua filha mais nova, Chua percebe que o seu método não é infalível, ao contrário do que julgava.

Chua lamenta que o livro tenha sido interpretado como um guia parental. É o oposto, diz. "É um guia de "não tentem isto em casa"."

O público ri muito enquanto Chua lê três excertos do seu livro, todos eles envolvendo discussões e confrontos com a sua filha mais nova e mais rebelde, Lulu. Ela própria ri enquanto lê. Mais do que ler, ela dramatiza o texto, como um actor faria, colocando ênfase em todos os sítios certos e humor nos diálogos. "Eu sou uma personagem no livro", dissera Chua antes de começar a ler, com generosa auto-ironia.

No início do livro, Chua descreve uma lista de coisas que proibiu as filhas de fazerem, como ter notas inferiores a 5 (numa escala de 1 a 5), não serem as melhores alunas da sua turma a todas as disciplinas excepto Educação Física e Artes Dramáticas, ver televisão e jogar videojogos, passar a noite em casa das amigas, escolherem as suas próprias actividades extracurriculares e tocar um instrumento que não fosse o piano ou o violino.

Uma vez, no dia do seu aniversário, as filhas fizeram cartões de parabéns que a mãe não aceitou por não serem suficientemente bons. "Mereço melhor do que isto. Portanto, eu rejeito isto", disse-lhes.

Ela escreve que tem amigos ocidentais que se consideram pais rígidos por obrigarem os filhos a praticar música meia hora por dia - uma hora, no máximo. "Para uma mãe chinesa, a primeira hora é a parte fácil. Depois de duas horas ou três é que se torna duro."

O método resultou com a filha mais velha, a obediente Sophia, aluna brilhante e pianista talentosa. Mas Lulu resistiu sempre, desafiando a autoridade materna. Aos três anos, quando a mãe ameaçou pô-la na rua, ao frio, se ela não parasse de gritar, Lulu fez isso mesmo: saiu para a rua.

No livro, apesar de o marido e a mãe a avisarem que as duas crianças têm personalidades diferentes, Amy Chua não quer ouvir. Até que um dia, num restaurante na Praça Vermelha em Moscovo, tenta obrigar Lulu a comer caviar. Depois de acusações mútuas, Lulu, que tem 13 anos, declara: "Odeio-te. Odeio esta família", e atira um copo ao chão. Esse episódio fez Chua rever as suas certezas sobre a educação chinesa. E deixou que Lulu abandonasse o violino e começasse a praticar ténis, como desejava. Quando a família voltou a casa, Chua começou a escrever o livro.

Orgulho nas filhas

"Se eu tivesse de passar por tudo outra vez, faria exactamente a mesma coisa com alguns ajustes", diz na livraria de Washington. "O livro é sobre uma série de erros, mas tenho muito orgulho nas meninas que criei, e na relação que tenho com elas. O que eu mudava tem a ver com escolha e prestar atenção às personalidades individuais das minhas filhas. Podia ter poupado imenso mal-estar à minha família, a mim própria, às minhas filhas, se não tivesse sido tão teimosa. Mas devo dizer que estou satisfeita por ter restringido as suas escolhas quando elas eram pequenas. Acho que as crianças por si só não conseguem tomar as decisões certas. Se deixar uma criança de seis anos entregue a si própria, ela vai passar o dia a ver televisão e a comer doces."

Uma mulher jovem e loira dirige-se a Chua: "Vim aqui esta noite com vontade de não gostar de si e de não rir. Mas devo dizer que gostei de si e ri-me, e quero agradecer-lhe pelos seus comentários". Divorciada e com dois filhos, a mulher diz que acha que o livro deixou muitos pais americanos com sentimentos de culpa e inveja.

Battle Hymn of the Tiger Mother também tem sido analisado à luz da crescente rivalidade dos EUA com a China. O país é visto como uma ameaça. "Diz lamentar que os críticos não tenham percebido que o seu livro é uma autobiografia, mas toda a gente está a lê-lo como um guia parental e como um símbolo do declínio nacional", diz um jovem, interpelando Chua. "Temos receio de sermos dominados pelos chineses da mesma maneira que fomos ameaçados pelos japoneses na década de 1980, e é por isso que está tanta gente aqui esta noite. As pessoas não estão interessadas em si como um novo David Sedaris [humorista, autor de bestsellers] mas sim nas ramificações culturais disto." É uma pergunta provocadora, a única da noite.

"Bem, eu acho que isso é óptimo", responde Chua. O público aplaude, como se tivesse escolhido ficar do seu lado no duelo. "Acho óptimo que exista uma conversa nacional sobre isso. Parece uma conversa que precisava de acontecer. Sinto que [o livro] ganhou vida própria."