O Wisconsin vive a sua revolta popular

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Apoiantes e opositores da medida no Congresso de Madison DARREN HAUCK/REUTERS

Os protestos duram há uma semana, contra o governador Scott Walker, que quer retirar poderes aos sindicatos da função pública. Outros estados preparam-se para tomar medidas idênticas

Não têm faltado comparações entre a recente revolta popular no Egipto e os protestos da última semana no estado americano do Wisconsin. Scott Walker, o governador republicano eleito em Novembro, já foi apelidado de "Mubarak do Midwest" por querer eliminar os direitos dos funcionários públicos a negociarem os termos dos seus contratos. A sua proposta é vista como o maior ataque das últimas décadas contra o sindicalismo nos Estados Unidos.

Walker, que foi apoiado pelo Tea Party nas eleições de Novembro e fez campanha prometendo resolver o défice orçamental do Wisconsin, quer que os funcionários públicos passem a descontar mais para a Segurança Social e para os seguros de saúde, aliviando a carga do governo estadual. A medida permitiria poupar cerca de 150 milhões de dólares por ano. Os líderes sindicais dizem estar dispostos a aceitar o plano.

Mas Walker também quer rever as regras da negociação colectiva: a sua proposta de lei retiraria aos sindicatos dos trabalhadores públicos o direito de discutirem condições de trabalho, benefícios ou políticas de despedimento em futuros contratos. Polícia, bombeiros e state troopers (equivalente à GNR), cujos sindicatos apoiaram Walker nas eleições, ficariam isentos desta medida.

A proposta gerou intensos protestos diários na última semana. Os sindicatos acusam Walker de querer suprimir direitos dos trabalhadores e enfraquecer um grupo - os sindicatos de funcionários públicos - que é a maior fonte de financiamento da campanha política democrata.

"Isto é uma tentativa de silenciar pessoas que discordam dele", disse o director de uma federação de sindicatos públicos ao USA Today.

Para muitos, como o Nobel da Economia Paul Krugman, colunista do New York Times, a proposta de Walker é um sério ataque contra direitos democráticos conquistados nos últimos 50 anos. "O que está a acontecer à volta do mundo é uma corrida para a democracia", disse um senador democrata do Wisconsin, Bob Jauch. "O que está a acontecer no Wisconsin é o fim do processo democrático."

Mas as comparações com o Egipto não são um exclusivo dos democratas. Paul Ryan, congressista do Wisconsin e um dos mais poderosos elementos da nova maioria republicana no Congresso, notou: "É como se o Cairo se tivesse mudado para Madison", a capital do Wisconsin, onde os maiores protestos têm tido lugar. Outra analogia com o Egipto: no sábado houve contramanifestações, de apoiantes de Walker afectos ao Tea Party.

O que está a acontecer no Wisconsin é mais do que uma questão local, porque outros estados governados por republicanos planeiam tomar medidas semelhantes. Também é uma réplica da discussão nacional que existe actualmente sobre o orçamento federal e que divide democratas (e a Casa Branca) e republicanos.

O Presidente Barack Obama reagiu no final da semana passada, numa entrevista a uma televisão local, dizendo que a proposta de Walker "parece um ataque aos sindicatos". John Boehner, o speaker da Câmara dos Representantes, acusou o Presidente de "incitar protestos contra governadores reformistas", quando devia liderar essas reformas.