Economia portuguesa entra em 2011 sem crescer e com consumo privado estagnado

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Acentuam-se sinais de nova recessão na economia portuguesa NUNO FERREIRA SANTOS

Actividade económica e consumo privado tiveram crescimento nulo em Janeiro, agravando os receios de uma recessão ainda no primeiro trimestre

Numa altura em que a pressão sobre a dívida pública nacional atinge níveis históricos, Portugal enfrenta outra frente de batalha: o crescente receio de que a economia entre em recessão já no primeiro trimestre. Os dados ontem divulgados pelo Banco de Portugal (BdP) vieram deitar mais lenha na fogueira, mostrando que a actividade económica e o consumo privado estagnaram em Janeiro e estão em ritmo de queda face aos últimos meses de 2010.

Os indicadores do BdP mostram que a actividade económica teve um crescimento nulo em Janeiro, face a igual período do ano passado. Este crescimento zero é mesmo a pior prestação desde Novembro de 2009, altura em que a economia portuguesa estava em recessão. O consumo privado, que deverá ressentir-se fortemente este ano com as duras medidas de austeridade implementadas pelo Governo, também estagnou em Janeiro, naquela que é a sua pior performance desde Agosto de 2009.

O banco central veio ontem rever em alta os indicadores relativos a Dezembro, apontando agora para crescimentos de 0,2 por cento tanto da actividade económica como do consumo privado, enquanto as previsões iniciais apontavam para uma contracção de 0,1 e 0,5 por cento, respectivamente. Apesar da revisão em alta, os números de Janeiro mostram que a taxa homóloga da actividade económica e do consumo diminuíram face ao último mês de 2010.

Isto significa que a economia terá continuado a perder terreno no início deste ano, acentuando a desaceleração que tem vindo a registar desde Junho de 2010. Os dados provisórios apresentados esta semana pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que a economia já recuou 0,3 por cento em cadeia no último trimestre do ano passado. Se voltar a cair entre Janeiro e Março, entra oficialmente em recessão técnica.

Esta semana, o próprio governador do BdP, Carlos Costa, alertou em entrevista ao Diário Económico que o país já estava em recessão. Esta afirmação motivou reacções de vários membros do Governo e do presidente do Tribunal de Contas, avisando que, para se declarar recessão técnica são precisos dois trimestres consecutivos de crescimento negativo em cadeia, o que ainda não se verificou.

No entanto, a maioria dos economistas e organizações internacionais prevêem que Portugal venha, de facto, a entrar em recessão este ano, devido ao impacto das medidas de ajustamento orçamental, como o corte salarial na função pública e o aumento do IVA. É o caso do próprio Banco de Portugal (que estima um recuo do PIB de 1,3 por cento), da Comissão Europeia (-1 por cento) ou do FMI (-1,4). Só o Governo mantém o optimismo, apostando num crescimento tímido de 0,2 por cento, à custa do bom desempenho das exportações e de uma quebra não tão acentuada no consumo privado.

Confrontadas com a redução salarial no sector público, com o aumento do IVA e com os cortes nas prestações sociais, as famílias portuguesas vão ver o seu rendimento real disponível diminuir.

A isso junta-se a elevada taxa de desemprego (de 11,1 por cento), o aumento dos preços e das taxas de juro, um cenário que deverá levar à retracção do consumo privado.