Sudão do Sul escolhe secessão com 99 por cento dos votos

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Sudanês festeja os resultados com um chapéu feito da bandeira do Sul PHIL MOORE/ AFP

Milhares de estudantes manifestaram-se em Cartum, exigindo mudanças no regime de Bashir. O Presidente vai respeitar resultado do referendo

A polícia antimotim que vigiava a marcha do "dia nacional de protesto antigoverno" em Cartum, a capital do Sudão, carregou sobre milhares de estudantes que se manifestavam contra o Presidente, Omar al-Bashir, no mesmo dia em que a comissão eleitoral do referendo para a auto-determinação do Sudão do Sul anunciava que 99 por cento dos eleitores daquela região votaram pela secessão do Norte e a autonomia do seu território num novo país.

"Os votos pela separação alcançaram 99,57 por cento", anunciou ontem Chan Reek Madut, um dos dirigentes da comissão do referendo do Sudão do Sul, realizado entre 9 e 15 de Janeiro. Perante uma multidão que aguardava pela confirmação oficial dos resultados em Juba, a capital do Sul, o mesmo responsável disse que 99 por cento dos 3,7 milhões de eleitores tinha exercido o seu direito de voto, colocando a taxa de participação bastante acima dos 60 por cento necessários para validar o resultado.

A adesão ao referendo foi significativamente menor no Norte, onde residem cerca de 2 milhões de sudaneses do Sul. De acordo com o mesmo responsável eleitoral, só 70 mil pessoas foram às urnas, e 58 por cento manifestaram-se a favor da secessão. Só na região sul do Darfur é que a maioria dos votos foi pela união, com 63 por cento dos eleitores a considerar que o maior país africano deve permanecer intacto.

Estes são ainda resultados preliminares, e a votação só será oficialmente certificada no próximo mês. Mas os números não deixam qualquer margem para dúvidas quanto à partição do país e a autodeterminação do Sudão do Sul, que se transformará num novo país independente já no próximo mês de Julho.

"Foi para isto que votámos, para que pudéssemos ser livres no nosso próprio país. Só posso dizer obrigado, um milhão de vezes obrigado", exclamou Salva Kiir, o líder do Sudão do Sul e vice-presidente do país.

O processo põe um ponto final no conflito entre Norte e Sul que se prolongou por décadas, numa sangrenta guerra civil que matou quase dois milhões de pessoas. O referendo para a autodeterminação do Sudão do Sul foi negociado nos acordos de paz de 2005, sob mediação da ONU.

Futuro incerto

A secessão do Sul representa mais um desafio para o regime islamista de Bashir, que se confronta com uma séria crise de autoridade. O Presidente disse repetidamente que respeitará o resultado do referendo.

A perspectiva da divisão do país originou vários protestos no Norte, mas a manifestação de ontem em Cartum teve outra génese. Inspirados pela revolta popular no vizinho Egipto, os estudantes sudaneses saíram à rua num movimento inesperado de contestação ao Presidente Bashir. "Queremos mudar. Estamos fartos da alta dos preços", gritaram à porta do palácio presidencial.

"O que se está a passar no Egipto inspirou a juventude", explicou à AFP Mubarak al-Fadl, um militante do partido Umma que garantiu que "todos os grupos de oposição apoiam a iniciativa dos estudantes". "Todos nós queremos mostrar a nossa cólera pela gestão do Sudão, tendo em conta o cenário de partição do país que torna muito incerto o futuro do Norte", referiu.