Já se "focalizou" no português que anda a falar?

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daniel rocha

O novo português não precisa de se concentrar - precisa de se "focalizar". Não tem de ser resistente - tem de ser "resiliente". Não imprime um texto - "printa". E não tem esperança - tem "ilusão". Por João Bonifácio

No domingo passado, quando as televisões anunciaram os resultados das sondagens, o nome que se ouviu nos vários canais abertos nacionais foi Cavaco Silva. Mas para quem assistiu aos programas de análise do processo eleitoral, o verdadeiro vencedor foi outro: a palavra "focalizar".

Toda a gente "focalizou" na noite de domingo: ministros disseram que era hora de nos "focalizarmos" nos verdadeiros problemas do país, comentadores políticos abriram as suas intervenções assinalando que iam "focalizar-se" no discurso vingativo de Cavaco, membros dos media interromperam-nos para fazer a emissão "focalizar-se" neste ou naquele hotel onde políticos de ar muito - como dizer? - "focalizado" se aprestavam a começar os seus discursos. Foi, sem dúvida, uma vitória estrondosa.

Até há uns anos, quando a pessoa A achava que a pessoa B estava desconcentrada dizia: "Tens de te concentrar." Hoje, se quiser fazer-se entender, terá de dizer: "Foca-te."

O verbo "focalizar" usado - como tem sido - no sentido de "concentrar" é um anglicismo e deriva do inglês "to focus". Por interferência fonética chega-se ao verbo "focar". A este tem sido recentemente aplicado o sufixo "izar". O resultado, "focalizar", é um neologismo semântico, uma palavra que já existia, com um sentido restrito, e que ganhou um novo sentido.

Este é apenas um dos muitos casos de deturpações que se têm infiltrado na língua portuguesa, tornando-se de uso corrente. Já tínhamos o "salvar" (no sentido de "gravar") vindo de "to save"ou "printar" (no sentido de "imprimir") vindo de "to print". Mas recentemente há toda uma nova vaga de neologismos semânticos, que vão de "realizar" (no sentido de "aperceber-se de") a "ilusão" (no sentido de "esperança").

Pergunta fatal: devemos começar a preparar as exéquias à língua portuguesa?

Para os três linguistas e um publicitário que o P2 consultou a este propósito, é mais ou menos consensual que a língua é um ser mutável, as palavras têm de vir de algum lado e tanto quanto se sabe o português ainda não está ligado à máquina.

Focalizar por aí

Mas nas bocas das gentes pairaum new portuguese que traz aos discursos bastantes - e cómicas - complicações, particularmente a quem conhece a língua.

A maior parte destas "novas" palavras é um anglicismo, como no caso de "focar" e "focalizar" no sentido de "concentrar". O que para o investigador e linguista Malaca Casteleiro "é uma barbaridade".

Outro "anglicismo claríssimo" é o verbo "realizar" usado no sentido de "aperceber-se de" e derivado de "to realize". O linguista Carlos Gouveia, embora concordando que "este "realizar" é um neologismo semântico", vê aqui um caso diferente do anterior. É que "há determinadas construções que não são tão naturais na língua portuguesa como noutras línguas", explica. "Dizer "I realized"em português implica uma paráfrase, uma estrutura mais complexa." No caso, qualquer coisa como "tomei consciência de".

A questão, para Malaca Casteleiro, é que a língua portuguesa tem dificuldade "em dizer as coisas de uma forma curta", que é "o que o inglês consegue fazer". "A nossa língua é analítica e não sintética."

Outro exemplo: há umas semanas, num noticiário, dizia-se que determinado prédio tinha "colapsado". Há dicionários que registam "colapsar" como "queda súbita".

No Dicionário da Língua Portug