Já se "focalizou" no português que anda a falar?


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O novo português não precisa de se concentrar - precisa de se "focalizar". Não tem de ser resistente - tem de ser "resiliente". Não imprime um texto - "printa". E não tem esperança - tem "ilusão". Por João Bonifácio

No domingo passado, quando as televisões anunciaram os resultados das sondagens, o nome que se ouviu nos vários canais abertos nacionais foi Cavaco Silva. Mas para quem assistiu aos programas de análise do processo eleitoral, o verdadeiro vencedor foi outro: a palavra "focalizar".

Toda a gente "focalizou" na noite de domingo: ministros disseram que era hora de nos "focalizarmos" nos verdadeiros problemas do país, comentadores políticos abriram as suas intervenções assinalando que iam "focalizar-se" no discurso vingativo de Cavaco, membros dos media interromperam-nos para fazer a emissão "focalizar-se" neste ou naquele hotel onde políticos de ar muito - como dizer? - "focalizado" se aprestavam a começar os seus discursos. Foi, sem dúvida, uma vitória estrondosa.

Até há uns anos, quando a pessoa A achava que a pessoa B estava desconcentrada dizia: "Tens de te concentrar." Hoje, se quiser fazer-se entender, terá de dizer: "Foca-te."

O verbo "focalizar" usado - como tem sido - no sentido de "concentrar" é um anglicismo e deriva do inglês "to focus". Por interferência fonética chega-se ao verbo "focar". A este tem sido recentemente aplicado o sufixo "izar". O resultado, "focalizar", é um neologismo semântico, uma palavra que já existia, com um sentido restrito, e que ganhou um novo sentido.

Este é apenas um dos muitos casos de deturpações que se têm infiltrado na língua portuguesa, tornando-se de uso corrente. Já tínhamos o "salvar" (no sentido de "gravar") vindo de "to save"ou "printar" (no sentido de "imprimir") vindo de "to print". Mas recentemente há toda uma nova vaga de neologismos semânticos, que vão de "realizar" (no sentido de "aperceber-se de") a "ilusão" (no sentido de "esperança").

Pergunta fatal: devemos começar a preparar as exéquias à língua portuguesa?

Para os três linguistas e um publicitário que o P2 consultou a este propósito, é mais ou menos consensual que a língua é um ser mutável, as palavras têm de vir de algum lado e tanto quanto se sabe o português ainda não está ligado à máquina.

Focalizar por aí

Mas nas bocas das gentes pairaum new portuguese que traz aos discursos bastantes - e cómicas - complicações, particularmente a quem conhece a língua.

A maior parte destas "novas" palavras é um anglicismo, como no caso de "focar" e "focalizar" no sentido de "concentrar". O que para o investigador e linguista Malaca Casteleiro "é uma barbaridade".

Outro "anglicismo claríssimo" é o verbo "realizar" usado no sentido de "aperceber-se de" e derivado de "to realize". O linguista Carlos Gouveia, embora concordando que "este "realizar" é um neologismo semântico", vê aqui um caso diferente do anterior. É que "há determinadas construções que não são tão naturais na língua portuguesa como noutras línguas", explica. "Dizer "I realized"em português implica uma paráfrase, uma estrutura mais complexa." No caso, qualquer coisa como "tomei consciência de".

A questão, para Malaca Casteleiro, é que a língua portuguesa tem dificuldade "em dizer as coisas de uma forma curta", que é "o que o inglês consegue fazer". "A nossa língua é analítica e não sintética."

Outro exemplo: há umas semanas, num noticiário, dizia-se que determinado prédio tinha "colapsado". Há dicionários que registam "colapsar" como "queda súbita".

No Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea elaborado pela Academia de Ciências de Lisboa sob direcção de Malaca Casteleiro não existe o verbo "colapsar", mas existe "colapso". Os dois primeiros significados são de ordem médica, existindo outra no sentido comercial (imaginemos: "A Bolsa colapsou"). No entanto, diz o professor, este sentido "não [o] repugna". Tanto não o repugna que do Dicionário Gramatical de Verbos Portugueses consta "colapsar" com o exemplo: "A explosão colapsou a estrutura", o que, segundo o professor, torna o exemplo relativo ao prédio "aceitável".

"Aparentemente há um anglicismo", diz Margarita Correia, linguista. Mas, ressalva, "no século XV e XVI usava-se isso: tinha-se o nome e acrescentava-se "ar"".

Mais exemplos: "terminar" é hoje usado no sentido de "destruir" ("terminate"), "submeter" no sentido de "entregar" ("to submit"), "deletar" é usado como "apagar" ("to delete") e "traçar" é usado como "rastrear" ("trace back").

Claro que os neologismos semânticos não são uma novidade e Carlos Gouveia dá mesmo um curioso exemplo do caso: "Os suportes dos carris, que eram barras, tinham como nome inglês "sleepers" (de "to sleep", dormir). O nome popular em português passou a ser xulipa. Mas a partir da expressão original criou-se o nome "dormentes", que é outro neologismo semântico."

A novidade aqui será a quantidade de termos que entraram em pouco tempo no nosso léxico e o facto de algumas destas palavras virem de uma revolução tecnológica - que aliás já nos tinham dado verbos como "printar" e "salvar", que à primeira vista parecem fazer já parte da linguagem corrente.

Carlos Gouveia não concorda. "Este género de fenómenos, como "printar"e "salvar", ainda não estão fixos na língua portuguesa", afirma. "As pessoas podem-nas dizer assim, mas não as escrevem." Para o linguista "há uma consciência do que se pode escrever e da diferença face à oralidade".

Já verbos como "mailar" e "googlar" são "casos diferentes dos outros", que "não vão ficar". São "muletas de que as pessoas se servem neste momento particular" e das quais "as pessoas têm consciência, ao contrário do "focalizar", em que provavelmente não há consciência do erro".

Malaca Casteleiro concorda com Gouveia, porque estes verbos "dizem respeito a actividades novas". Na sua opinião podia-se "grafar "googlar" com "u" [ficando "guglar"], mesmo sendo um decalque fonético".

O hoodie da moda

Nem sempre a inovação tecnológica faz criar anglicismos ou neologismos semânticos. Por vezes a língua usa as próprias palavras de origem, mesmo quando temos substitutos à altura.

Uma dessas palavras é "site", cujo uso, para Malaca Casteleiro, "é um disparate", porque "temos uma palavra portuguesa que se aplica perfeitamente ao caso": "sítio".

O professor também não vê razões para não usar "anexo" ("attachment") ou "ligação" ("link"). Mais: "input" pode ser "entrada" e "output" pode ser "saída". "O que se faz nestes exemplos", explica, "é dar maior significado semântico a palavras que já existem."

Mas há outras palavras que entraram no léxico português sem que se perceba bem porquê. "Hoodie" é uma delas. Um "hoodie" é uma sweat-shirt com "hood", isto é, com capuz. Os adolescentes argumentam que não há tradução directa para português. Mas a palavra portuguesa "capuz" significa "peça de vestuário de forma cónica". Ou seja: "hoodie".

Malaca Casteleiro assinala que não haveria, para a indumentária em questão, problema algum em usar "capucho" ou "capuz" como tradução: "Estaríamos quando muito a dar maior significado semântico à palavra portuguesa que já existia." "Não o fazer", acrescenta, "é sinal de tacanhez."

Talvez não haja aqui tanta tacanhez como lógica grupal. Analise-se a palavra "phones", isto é, "auscultadores".

"O uso desta expressão", avança Carlos Gouveia, "está associado à pertença a um grupo, é um código de exclusão de quem não domina os termos." E o mesmo quanto a"hoodie": "Tem a ver com questões de moda. Daqui a um ano a moda muda e a palavra deixa de ser usada", conclui o linguista, deixando no entanto a porta aberta aos "phones": "Essa é uma palavra que me parece que pode vir a ficar."

João Taveira, publicitário da McCann, concorda com Carlos Gouveia: "Se os amigos de um miúdo dizem "phones" ele não vai dizer "auscultadores", sob pena de passar por "geek", que em português é totó."

Habituado a lidar com fenómenos de lógica grupal, Taveira não tem dúvidas de que "algumas destas expressões nascem da necessidade de integração social". O publicitário, que afirma que expressões como estas "são constantemente usadas pelos [publicitários] mais novos nos textos", assinala um fenómeno curioso: "Há pouco tempo estava à conversa com um colega brasileiro que se queixava de que os mais novos têm talento para as assinaturas [slogans] mas são incapazes de fazer textos."

Ou seja: as crianças são óptimas "a trabalhar com uma imagem e uma frase-chave", mas quando se chega aos folhetos "os erros notam-se mais". Isso tem a ver, diz, com a lógica comunicacional de hoje: "Os miúdos andam muito na Net, vêem muitos vídeos estrangeiros e isso passa para a linguagem corrente."

"A velocidade de comunicação é tal que a preocupação reside em fazer passar a mensagem" e não em pensá-la, afiança, por seu lado, Carlos Gouveia, ressalvando que "é preciso perceber que a maior parte das pessoas não são profissionais da língua, são utentes".

Carlos Gouveia não tem dúvidas de que "a presença da cultura norte-americana no nosso quotidiano é muito forte". Não vai ao ponto de dizer que é uma colonização, mas "a globalização é uma americanização".

Ilusão

O professor Malaca Casteleiro gosta de contar uma graçola: "No século XVIII usava-se um termo para designar os falantes afrancesados: eram os "galiciparlas". Hoje temos "angliciparlas" por todo o lado."

Mas nem todas as mudanças no português vêm dos EUA. Algumas vêm de Espanha. Do país vizinho dizia-se que "Nem bom vento nem bom casamento". Hoje podemos dizer que "Nem bom campeonato nem bom português". Porque é graças aos espanhóis que a portuguesa "esperança" passou a ser uma estranha "ilusão".

"O "ilusão" em vez de "esperança" vem da tradução à letra de um discurso do Quique Flores", lembra João Taveira. Foi um momento inolvidável na nossa cultura popular: Quique chegou, disse que tinha muita "ilusión" em ser "campeón" e no dia seguinte os jornais escreveram que Quique tinha a "ilusão" de ser "campeão". A palavra pegou e hoje já falta pouco para que uma grávida esteja "de ilusões" em vez "de esperanças".

"Custa-me a entender este exemplo", diz Carlos Gouveia, que acredita que "talvez seja uma coisa passageira". Vagamente estupefacto, o professor esclarece que esse uso de "ilusão" é um erro "porque pressupõe o contrário do que quem o usa queria que acontecesse".

Há mais palavras que dizem o oposto do que é suposto o seu emissor estar a enunciar. Uma em particular é muito usada por políticos que querem realçar as vantagens de uma lei: "virtualidades".

É mais ou menos assim: "Esta lei tem a virtualidade de tornar mais fácil ao cidadão (etc.)."

"O que querem dizer é "virtudes", como é óbvio", explica Malaca Casteleiro. "Está-se a falar das vantagens que algo tem. O "virtual" é algo possível mas não real, pelo que ao usar "virtualidades" está-se a dizer o contrário do que se quer dizer."

Outra palavra que causa confusão é "eventualmente", que parece ser um anglicismo de "eventually". "Eventually"significa "e por fim" ou aparentados. Nos dicionários Inglês-Português da Porto Editora é traduzido por "eventualmente". Mas nos dicionários de Português "eventualmente" é definido por "casualmente" e "eventual" significa "casual, fortuito, contingente", o que está longe do significado de "eventually" - onde há "eventually" não há contingência, há um acontecimento final.

"Muito possivelmente as equipas que fizeram os dicionário não são as mesmas", diz a professora Margarita Correia acrescentando que "o mais certo é a palavra ter entrado na fala". "Os dicionários não são só normativos, servem para registar o uso corrente que as pessoas fazem das palavras." E se a palavra está assim registada "é porque há evidência" que o uso que se faz dela já incorpora o significado de "eventually", o que pode - eventualmente - constituir um exemplo de como a língua absorveu uma palavra estrangeira.

No entanto, para o professor Malaca Castaleiro, este novo sentido de "eventualmente" não tem sentido porque "não há uma ideia de finalidade" em "eventual".

Onde anda o português?

No meio destas confusões o português anda perdido ao ponto de não saber onde anda. Em compensação, o "onde" anda por todo o lado. De repente deixou-se de dizer "em que" para se dizer "onde". Diz-se que 1974 foi o ano "onde" os portugueses se libertaram de uma ditadura, etc. Fará isto sentido?

"O "em que" é mais geral porque tanto localiza no espaço como no tempo", explica Malaca Casteleiro. "O "onde" é locativo, localiza no espaço." Pelo que "há um alargamento semântico da palavra" que ao professor parece "um pouco extemporâneo" ou mesmo "pouco razoável". No entanto, "é possível que ["onde"] acabe por se fixar com os dois sentidos".

Em jeito de conclusão renomeiem-se as causas desta pequena mutação na língua: sobreexposição a uma cultura, permeabilidade, moda, integração social, excesso de informação não filtrada. Mas também "um novo-riquismo linguístico", como diz Malaca Casteleiro, patente - exemplos nossos - na necessidade de reinventar a roda e que é notória no uso de expressões como "deslocalizar" (que é "deslocar") ou "inverdade" (que é uma coisa antiga, que já não existe, chamada "mentira"). "Estas expressões tornam-se bordões linguísticos e sociais", avança o investigador, que deixa um pedido: "Devia haver nos meios de comunicação um provedor da língua portuguesa que passasse em revista a escrita e desse sugestões, porque trata-se de defender um bem que é nosso." Ou dito de outra forma: no que toca ao português, sejamos "resilientes". Isto é, "resistentes".

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