Lula versus imprensa brasileira: as contas finais

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Lula para o Carnaval: o Presidente bateu recordes de popularidade SERGIO MORAES/reuters

Nunca censurou, mas criou clima hostil, dizem uns. O clima hostil é da imprensa, dizem outros. O melhor: crescimento económico. O pior: costumes políticos

A imponência começa cá fora: o edifício do Estado de São Paulo é um imenso quarteirão, com várias entradas. O átrio reluz de brilho e tradição. Antiquíssimas máquinas impressoras atestam mais de um século de vida.

O Estadão é um símbolo daquilo a que São Paulo chama "os quatrocentões", a elite descendente dos fundadores, bandeirantes e grandes fazendeiros de café, liberal na economia e conservadora nos costumes.

A secretária do director espera-nos à saída do elevador no sexto andar, e depois são átrios e antecâmaras, até uma salinha de espera. Esta salinha comunica com a sala do secretariado, que depois dá acesso a uma sala de espera, que dará acesso ao gabinete do director. São Paulo no seu topo: cerimónia, privacidade, demarcação de hierarquias.

Nada que se afirme no Rio.

Lá fora está uma tempestade, com o trânsito todo paralisado na Marginal Tietê, uma das grandes vias rápidas da cidade. A repórter chegou dez minutos atrasada e agora vai esperar uma hora. Em todos os contactos anteriores o director Ricardo Gandour foi célere e gentil, mas também é hora de ponta no jornal.

A secretária encaminha para a segunda sala de espera, a tal entre o secretariado e o gabinete do director. Livros, troféus, uma mesa de reuniões, janelas sobre a marginal e o rio.

Ricardo Gandour aparece desculpando-se, falando da edição do dia, convidando a sentar. É director de conteúdos, o que quer dizer tudo menos os editoriais das páginas 2-3, das quais se ocupa exclusivamente outro director, seu par.

Quem hoje abra o site do Estadão vai encontrar uma bandeirinha em cima a dizer: "Há 516 dias sob censura". E todos os dias o jornal publica a mesma nota sobre o caso, desde que uma decisão judicial impediu a publicação de artigos relativos a um filho de José Sarney, ex-Presidente da República e actual presidente do Senado. É matéria sobre a qual Ricardo Gandour já falou ao PÚBLICO, a propósito de um caso em que uma colunista afastada se queixou de censura do jornal (13/10/2010).

Mas agora que o Governo Lula termina, marcado como foi por constante tensão com a imprensa dominante, que avaliação faz Gandour do comportamento deste presidente em relação à liberdade de imprensa? Contas finais: é possível associar Lula a alguma tentativa de censura?

"Não", responde sem hesitar. "O Brasil vive plena liberdade de expressão. No entanto, o discurso presidencial em relação à imprensa em vários momentos foi hostil. E o discurso presidencial é sinalizador em relação à sociedade da qual fazem parte os juízes. Então você tem decisões nesse sentido contra as publicações. Se o presidente reiterasse que a imprensa deve ser livre para publicar o que quiser, ele talvez influenciasse noutro sentido. O clima criado pelo Presidente pode influenciar."

Gandour acha que não tem de haver qualquer tipo de impedimento judicial à publicação. "Qualquer pessoa pode pedir um direito de resposta e processar. Agora, uma medida para impedir uma matéria que nem se sabe como vai ser é coerção do pensamento." Mas frisa: "Jamais houve qualquer tentativa de censura no Governo Lula. Estou apenas a falar do que é o poder sinalizador do Presidente".

A tensão Lula da Silva versus imprensa foi tão grande que no seu discurso de vitória Dilma Rousseff defendeu a liberdade de imprensa várias vezes, e desde então voltou a reforçar esse compromisso.

"Foi um discurso muito positivo, ponderado e calmo", diz Gandour. "Procurou atenuar o clima que vinha sendo construído. Acho que foi um sinal de que poderá imprimir ao seu Governo uma personalidade mais própria do que muitos imaginam." Ficou surpreendido? "Não esperava que desse