Uma feira (de arte) portuguesa, com certeza

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Esculturas hiper-realistas (fotografia à esquerda) e futebol para aproximar o povo da arte contemporânea fotos: miguel manso

Mais pequena, com menos galerias importantes, assombrada por ausências velhas e antigas, a Arte Lisboa celebra o seu 10.º aniversário como a única feira de arte contemporânea em Portugal. É a que temos, apetece dizer. E a que gostaríamos de ver crescer, apetece pensar

Uma mulher bonita olha para uma obra de arte e, por instantes, essa é a imagem mais memorável da 10.ª Feira de Arte Contemporânea de Lisboa. Por instantes. Metros à frente ou atrás, no mezanino, nas paredes dos stands, descobrem-se outras imagens memoráveis. Nas obras de arte, sós.

É uma impressão gratificante. Há um ano sobraram galerias medíocres, em particular do contingente espanhol, e a secção dos Project Rooms foi um equívoco. Agora, com menos espaços comerciais e um condigno projecto paralelo, a feira ganhou (digamos assim) uma outra leveza. Descomprimiu, o que parece um paradoxo atendendo à sua nova e temporária casa: o Pavilhão do Rio/Centro de Congressos de Lisboa, menor do que o Pavilhão 4 da FIL, na Expo de onde foi forçada a sair pela Cimeira da NATO. Sumiram-se (alguns) metros quadrados, ganhou-se disponibilidade e respiração para olhar.

Agradeça-se a Terraço, projecto comissariado por Filipa Oliveira que ocupa uma boa parte do mezanino do pavilhão (assinada pelo arquitecto Keil do Amaral) com trabalhos de dois tipos de artistas: os emergentes e os que, por motivos diversos, perderam visibilidade mediática. São todos nacionais e representados por galerias da feira e no grupo dos "invisíveis" saúde-se o reencontro com as obras de Silvestre Pestana, Cristina Mateus, Marta Wengorovius e, especialmente, José Luís Neto.

Prémio BES Photo em 2005, com um percurso, nos últimos anos, mais revelado no estrangeiro (inaugurou em Março o novo Museu de Essen, na colectiva Photography and Individuality Portrait Concepts), José Luís Neto reafirma com as fotografias da série PMC/P.M.I, passport #7, a capacidade de interpelar a visão e o pensamento do espectador. E o mesmo se pode dizer das esculturas em néon de Silvestre Pestana (reluzem no terraço) ou dos desenhos com palavras de Marta Wengorovius. Quanto aos emergentes, destacam-se Julieta do Vale (Monumental), Bruno Cidra (Baginski) e Isabel Brison (Carlos Carvalho), bem como um nome que já emergiu: Sandra Rocha (Fonseca Macedo). E Terraço não fica por aqui. À exposição das obras junta-se a apresentação de projectos como a Kameraphoto (habitualmente associada ao fotojornalismo), The Mews (sediada em Londres, onde organiza exposições de artistas portugueses), a Inc. (que comercializa livros de arte) ou a Plataforma Ma, com a exibição dos encontros videográficos, dedicados a vários artistas nacionais, que se realizaram entre Janeiro e Novembro no Instituto Franco-Português.

Fantasmas na feira

Assim, em passo discreto e lesto, introduzem-se na feira outras realidades (e outros artistas). Abre-se um outro panorama a partir do mezanino sobre o bulir dos stands no rés-do-chão. Por tudo isto, ou se a Arte Lisboa fosse apenas isto, então poderíamos dizer que tudo está (relativamente) bem quando acaba (relativamente) bem. Mas não está. Há fantasmas e ouvem-se as grilhetas no Pavilhão do Rio: a crise, a ausência de galerias importantes nacionais (voltou a Pedro Cera e a Fernando Santos, mas saíram outras cinco relevantes) e internacionais (sem novidades), presença residual ou nula de grandes coleccionadores privados, o desinteresse das instituições do Estado.

Pedro Cera, cuja galeria representa Pedro Barateiro (um dos candidatos ao Prémio União Latina 2010), tem um ar pensativo ou, dir-se-ia, preocupado. Lá vai dizendo que o pavilhão "é um espaço aceitável" e que "o tamanho da feira apelou à selecção", mas quando interrogado sobre as razões do seu regresso (não participou na edição de 2009), desabafa: "Nenhuma razão especial motivou a minha presença aqui. Esta é uma situação natural para uma galeria portuguesa. Há momentos em que é preciso estar, outros em que é preciso não estar. Não espero nada de extraordinário. Não tenho grande nem pequeno entusiasmo. Tenho q.b."