Só as de Tânger

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Estão muito boas as tangerinas deste ano, embora haja poucas. Entre as tângeras que lá vão mantendo o sainete e as malditas clementinas, que não têm sabor que não o açúcar, nem cor que não seja falsamente cor de laranja, nem forma que não seja a que roubaram às verdadeiras tangerinas, as tangerinas estão cada vez mais apertadas e são cada vez mais raras, como se houvesse una conspiração lucrativa para lhes cancelar a identidade.

Tânger é de honrar. Seja na tângera ou na tangerina. Também a laranja, a que os gregos, turcos, albanianos e turcos, com razão, chamam o nome que eles têm para Portugal. Tal como as laranjas que Leonard Cohen cantou em Suzanne, também as tangerinas come all the way from China. Da Cochinchina, mais concretamente. Têm milhares de anos. Já a clementina é uma aberração argelina do século XIX. É não só kitsch como ersatz: é uma pseudotangerina, sem acidez nem sementes, cujo nome deve vir de clemência ("peço desculpa pelo citrino que vos apresento").

As tangerinas, quando entramos nelas para as descascarmos, emitem, para se defenderem da intrusão, um gás que, a um metro de distância, dá a impressão de nos cegar. Fazem doer os olhos. Picam na língua. Chamam-nos a atenção para a nossa sorte.

As clementinas não dão luta, para nos enganarem melhor. São, como as encore, uma fruta-barrete, que faz contra-informação e quer eliminar a tangerina, acidulada e efémera, nos nossos corações.

É preciso salvá-la, comendo-a.

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