Um século brilhante na pintura portuguesa

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Retábulo do Mosteiro da Trindade

É a exposição do ano do Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, e centra-se na pintura dos mestres anteriores ao Renascimento. Os Primitivos Portugueses (1450-1550) - O Século de Nuno Gonçalves abre na próxima quinta-feira com obras restauradas, retábulos reconstituídos e muitas perguntas. Por Ana Dias Cordeiro (texto) e Daniel Rocha (fotografia)

Como figura de acolhimento, a ocupar todo o espaço de uma parede do grande hall que abre a exposição Primitivos Portugueses (1450-1550) - O século de Nuno Gonçalves, centrada na pintura da época anterior ao Renascimento, no Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA), em Lisboa, o Retábulo do Mosteiro da Trindade surge em toda a sua monumentalidade.

E também como exemplo daquilo que esta exposição pretende ser: uma ocasião única para mostrar o que de melhor existe da pintura portuguesa dos séculos XV e XVI, com obras restauradas ereagrupando painéis retabulares, habitualmente dispersos. Para o comissário da exposição e director adjunto do museu, José Alberto Seabra Carvalho, trata-se de mostrar esta arte "de um modo como o público nunca a viu".

Do mestre Garcia Fernandes e com data de 1537, o Retábulo do Mosteiro da Trindade é para o comissário uma das mais importantes das 160 obras do mais rico património da pintura portuguesa mostrado nesta exposição que é inaugurada na próxima quinta-feira, 11 de Novembro.

No MNAA, Os Primitivos Portugueses... divide-se por seis núcleos e a eles associa-se um sétimo módulo, no Museu de Évora, mas a partir de 18 de Novembro (a exposição permanece em ambos os museus até 27 de Fevereiro do próximo ano).

Pela primeira vezdesde o século XVII, quando foi retirado da capela-mor do Mosteiro da Trindade, em Lisboa, o retábulo de Garcia Fernandes é mostrado com os seus oito painéis, completamente restaurados, dando a ver uma obra quase nova. Esse restauro mostra "pinturas de cores abertas, com uma alegria que não era perceptível anteriormente", diz o historiador de arte Joaquim Caetano, ex-director do Museu de Évora e co-comissário da exposição. "É uma absoluta novidade", acrescenta José Alberto Seabra Carvalho. É um dos mais monumentais retábulos conservados na íntegra em Portugal, com oito metros de altura por seis de largura.

Cem anos após Os Painéis

Inserida nas Comemorações do Centenário da República, mas sem querer basear neste aniversário a sua razão de ser, a exposição marca os 100 anos passados sobre a data em que pela primeira vez foram mostrados Os Painéis de São Vicente (c.1460-1470), de Nuno Gonçalves. Redescobertos em 1882, no Paço de São Vicente de Fora, em Lisboa, onde estavam à guarda do patriarcado, Os Painéis de São Vicente foram restaurados ainda no tempo da monarquia por José de Figueiredo, que viria depois a ser director do MNAA. São a "obra fundadora da noção de Escola Portuguesa", diz José Alberto Seabra.

"É uma obra sem antecedentes que nos permitam ver uma evolução", acrescenta. "E também sem continuidade" naquilo que é depois a pintura manuelina dominada pelos mestres flamengos e de origem flamenga, explica. O comissário refere-se a Nuno Gonçalves como "uma espécie de águia que voa acima de tudo", da fraca produção da pintura portuguesa do século XV, fosse devido aos terramotos, às depredações, às invasões francesas ou ao facto de boa parte do acervo de pintura desse século ter sido redescoberto sob a camada de pinturas mais tardias, do século XVII.

À semelhança do retábulo do mosteiro onde actualmente é a Cervejaria Trindade, em Lisboa, também o Retábulo do Convento do Paraíso, de Gregório Lopes (c.1527), em Évora, aparecerá reconstituído aos olhos do público. Para possibilitar o reagrupamento dos painéis que originalmente o formavam, vêm dois da Polónia, saídos de Portugal em 1840 depois de terem sido comprados pelo conde Atanasius Rackzinski.

Virão também obras de mestres portugueses e luso-flamengos de Itália, Bélgica e França. Do Museu do Louvre, em Paris, é aguardada uma obra que, no início do século, no entusiasmo suscitado pela exposição inaugural d"Os Painéis de São Vicente, foi atribuída no estrangeiro a este mestre português: O Homem do Copo de Vinho.

Esse retrato sobre cuja autoria permanecem muitas dúvidas vai ser exposto ao lado dos Painéis... E esse confronto directo poderá inspirar novas interpretações. Novas certezas? Mesmo que se chegue à conclusão de que O Homem do Copo de Vinho não é de Nuno Gonçalves, como pensam Joaquim Caetano e José Alberto Seabra, a associação da obra ao nome do pintor português representou "o reconhecimento do poder da pintura deste mestre", diz o ex-director do Museu de Évora.

Nesta e noutras salas há ainda a intenção de confrontar obras que nunca estiveram juntas com o objectivo de relançar o debate sobre a sua autoria. Ou colocar hipóteses novas.

Na mesma sala - Século XV - mostram-se também obras como o Tríptico de Santa Clara (do Museu Nacional de Machado de Castro), nas quais se podem vislumbrar resquícios do tratamento monumental da figura característico da obra de Nuno Gonçalves e que pode ter raízes neste mestre. Estas obras permitem voltar à questão: sendo caso isolado entre os seus contemporâneos, pode Nuno Gonçalves ter sido um ponto central que tocou e influenciou outras oficinas regionais?

As duas figuras de reformadores, no canto superior direito d"A deposição de Cristo no Túmulo, de Cristóvão de Figueiredo (c.1525-1530), que ilustrarão a capa do catálogo da exposição, lembram as figuras dos seis painéis da obra de Nuno Gonçalves, pintadas quase 50 anos antes. "Mostram-nos que há uma continuidade, uma certa lição do retrato de Nuno Gonçalves que não está esquecida", acrescenta Caetano.

O brilho da qualidade

O que de mais importante se fez nestes 100 anos entre a segunda metade do século XV e a primeira do século XVI, diz José Alberto Seabra, coincide com o que de melhor existe na arte da pintura portuguesa.

"Nesse século certinho, a pintura portuguesa atinge um brilho de qualidade artística", realça.

Em 1956, a pintura dos séculos XV e XVI foi a grande aposta da exposição de arte portuguesa em Londres - uma espécie de 1000 anos da arte portuguesa (entre 800 e 1800) - comissariada pelo historiador Reinaldo dos Santos, que em 1940 montara a grande exposição dos primitivos também no Museu de Arte Antiga, em Lisboa.

Se a noção de Escola Portuguesa foi inventada em 1910, quando pela primeira vez foram expostos Os Painéis de São Vicente, a demonstração da "existência" dessa escola "quis-se publicamente comprovada em 1940" com essa grande exposição, escreve José Alberto Seabra no catálogo.

E o que de melhor existe na arte portuguesa passa pela forte influência da pintura flamenga, com a presença em Portugal de mestres da Flandres que rapidamente se aportuguesaram, como Francisco Henriques, o preferido do rei D. Manuel I, o mestre da Lourinhã, de quem nunca se chegou a saber o nome, e Frei Carlos.

Para além de Nuno Gonçalves, da produção em Portugal neste período destacam-se artistas como Jorge Afonso, pintor régio e examinador das obras encomendadas ou pagas pelo rei - que se revela depois da morte, na peste de 1518, de Francisco Henriques e de todos os pintores que com ele trabalhavam na sua oficina -, e os discípulos de Jorge Afonso, Cristóvão de Figueiredo, Gregório Lopes, Garcia Fernandes e Gaspar Vaz, já depois de se esbater a presença dos luso-flamengos, a partir de 1520.

A nova exposição do MNAA dá agora a conhecer novos dados relativos a obras sobre as quais se sabia pouco por não estarem documentadas (na época as obras não eram geralmente assinadas), através da análise do desenho subjacente, possível com o recurso à reflectografia de infravermelhos que mostra "aquilo que o olho não vê": o desenho sob a pintura, anotações como "verde", "amarelo" ou "vermelho" a indicar as cores a serem usadas, ou as camadas finas de óleo que, sobrepostas, criam a percepção de que a luz penetra.

Embora a análise laboratorial se tenha aplicado a muitas das pinturas expostas, apenas alguns exemplos do resultado da reflectografia estarão expostos. A análise comparativa faz-se em grande parte através da colocação de obras lado a lado.

Neste domínio, mais do que um ponto de chegada, com conclusões definitivas sobre a autoria de certas obras, esta exposição abre um campo de possibilidades e, com ele, ambiciona relançar o interesse e o estudo da pintura portuguesa. O novo material técnico tem tornado possível analisar as obras a uma escala totalmente nova. "Existem dúvidas concretas que se põem mas que nos levam a abrir linhas de pesquisa. Em relação, por exemplo, à autoria e aos processos de fabrico", diz Caetano, que crê que esta exposição será capaz de atrair historiadores de arte estrangeiros e relançar o estudo da pintura portuguesa. "Raramente existe a oportunidade de ter um número de obras que podem ser comparadas num mesmo espaço", diz. "Talvez uma em cada geração."

Caso exemplar nesta busca de descobertas é a confrontação inédita na sala que tem por tema Tempos de Mudança. Nela se comparam pinturas de três grandes retábulos feitos no virar do século XV para o XVI. Documentação existente como cartas dos bispos de Évora e de Viseu a encomendar as pinturas de altares permite saber, com exactidão, que Francisco Henriques pintou o retábulo para a Igreja de São Francisco de Évora e que Vasco Fernandes (Grão Vasco) fez o retábulo para a capela-mor da Sé de Lamego. Mas existem dúvidas quanto à autoria do retábulo da Sé de Viseu, atribuída a Francisco Henriques.

Um maior conhecimento

Subjacente a esta exposição, está também a ideia de que "o conhecimento se vai aperfeiçoando", a par das novas técnicas utilizadas, e de que as conclusões são muitas vezes apenas provisórias. Não é por acaso que a última obra da última sala da exposição de Lisboa será Ecce Homo, que durante muito tempo foi erradamente considerada um ícone da pintura portuguesa do século XV e que na exposição de 1940 estava junto a Os Painéis de São Vicente. Novos dados científicos relativos às madeiras permitiram há cerca de dois anos acertar datas: a madeira não é tão antiga como se pensava e a obra é afinal do fim do século XVI e não do final do século XV. E, também ao contrário do que se pensava, o Ecce Homo que está no Museu de Arte Antiga em Lisboa não será o original mas uma réplica. Está fora do s? culo (1450-1550) mas está exposto porque, em relação directa com as questões que o museu pretende levantar com Primitivos Portugueses (1450-1550) - O século de Nuno Gonçalves, reflecte as dúvidas quase perpétuas dos historiadores sempre que não há documentação. "Expor este Ecce Homo aqui é também dizer que o conhecimento está sempre a mudar", diz Caetano.

O Retábulo do Mosteiro da Trindade é também a última obra a ver-se, antes de se voltar a passar pelo hall, no fim do percurso expositivo.

Com os seus painéis centrais - A Santíssima Trindade e A Transfiguração -, o conjunto é também um primeiro exemplo de uma pintura de mestres que, a partir dos anos 1530, começam a libertar-se em resposta aos novos ideais humanistas que passam a dominar, já depois do fim do reinado de D. Manuel I, em 1521, e da ascensão ao trono de D. João III.

Nessa resposta para ir ao encontro da noção de clássico, a pintura passa a ter uma nova expressividade, afastando-se do universo da pintura flamenga que marcou essa nova idade da pintura portuguesa e dominou a criação artística a partir da viragem do século XV para o XVI e durante o reinado de D. Manuel I (1495-1521).

Essa tendência corresponde a um aggiornamento, uma "actualização bastante rápida em torno desses novos ideais estético-filosóficos que se reflecte muito" na pintura, "não só nos modelos de fundos arquitectónicos, como também nos próprios meios expressivos, no tipo de composições em que as coisas deixam de ter aquela serenidade litúrgica da pintura flamenga", explica José Alberto Seabra.

"N"A Transfiguração (do retábulo), há a noção de figuras com essa dignidade, e uma questão de escala, de ritmo, e com uma imponência que já joga com outro tipo de valores", salienta Joaquim Caetano. "Na pintura, há uma vontade desse clássico. Há quase como um esforço de resposta dos mestres, que tentam ir ao encontro de um novo gosto e de uma abertura cultural que se dá em Portugal", conclui o historiador de arte, para quem essa capacidade de resposta também é sinal da qualidade da arte portuguesa deste século brilhante.