A menina bonita do boxe português chora no cinema

Juliana Rocha é tricampeã nacional de boxe. Faz teatro amador, está no primeiro ano de Criminologia, quer entrar para a Polícia Judiciária. Hoje chega ao Campeonato Europeu de Juniores, em França, com tranças no cabelo e vontade de chegar aos Jogos Olímpicos. Esta miúda não é uma maria-rapaz. Por Sara Dias Oliveira (texto) e Paulo Pimenta (fotografia)

Usa saias e vestidos, maquilha-se levemente de vez em quando. "Não sou a maria-rapaz do boxe", esclarece quase no final da conversa. Não era preciso dizê-lo: a beleza e graciosidade saltam à vista. Acorda todos os dias às 6h30 para correr uma hora, toma banho para ir para as aulas, treina intensamente ao final da tarde para conseguir o passaporte para os Jogos Olímpicos de 2012.

Juliana Rocha, olhos claros, sorriso constante, está hoje no Campeonato da Europa de Juniores, em França, para atingir os mínimos para Londres. Hoje é dia de apresentação dos atletas, amanhã começa o trabalho no ringue. Passou a tarde de sexta-feira no cabeleireiro para lhe fazerem tranças. Uma espécie de superstição. "Ia de tranças quando participei no torneio pré-olímpico em Espanha e ganhei a medalha de prata. Pode ser que agora dê sorte", diz ao P2. E foi nessa competição, em Abril do ano passado, que surgiu a sua alcunha: "Píton". A serpente sem veneno, mas com presas bem afiadas. O vice-presidente da Federação Portuguesa de Boxe reparou que cobras de estimação do dono do ginásio espanhol, onde os concorrentes treinavam, não eram indiferentes a Juliana. "Tenho horror a esse tipo de animais e havia lá uma píton. O senhor da federação disse-me que iria ser como ela: que não era venenosa, mas que ia estrangular", recorda. O baptismo ficou.

"Sou uma menina"

Juliana Rocha tem 18 anos, vive em Fiães, Santa Maria da Feira. Chora no cinema - "sou sentimental, sou uma menina", confessa - e já viu Million Dollar Baby, a história de uma campeã de boxe, dirigida por Clint Eastwood, muitas e muitas vezes. "Todas as vezes que o revejo, é uma situação complicada. Depende dos filmes, mas há muitos que me põem a chorar." Cinderella Man, outra história vivida num ringue, também está na lista dos favoritos. É actriz no grupo de Teatro Amador da Associação dos Amigos da Cultura e Ambiente de Fiães (Amicaf), com o pai e a irmã de 11 anos. Já fez de avozinha e de má da fita e prepara-se para encarnar a pele de uma jovem que tem um namorado e a quem as senhoras de há 100 anos torcem o nariz. A peça chama-se As Mulheres da República e estreará no próximo ano. Namorado só na ficção, só mesmo em cima do palco. Juliana está proibida de namorar antes dos 21 anos para não haver distracções de amores, desconcentrações, desvios, recuos. Regra de treinador, regra de pai, que leva a peito. "Tem de ser, que remédio", diz.

É a menina mais nova dos Jovens Sem Fronteiras de Fiães, movimento missionário. É católica praticante e gosta de ajudar o próximo. Participa em quermesses para angariar bens para quem precisa, ajuda a organizar jantares com meninos sem família da Obra do Frei Gil, faz as malas para se juntar ao grupo em retiros espirituais. Todas as ocupações, garante, ajudam-na a encontrar o seu equilíbrio.

"Boxista" é o seu nome de praxe na universidade. Os "doutores" já descobriram quem era e não raras vezes é chamada para brincar com os colegas, transformando-os em sacos de boxe. Entrou este ano para o curso de Criminologia da Faculdade de Direito da Universidade do Porto com uma média de 16,5 valores. Aluna aplicada, deixou-se fascinar pelos meandros da Psicologia e Sociologia no secundário. E não só. Os filmes que desde cedo começou a ver relacionados com a investigação criminal aguçaram-lhe o apetite. Quer frequentar os quatro anos do curso, fazer o mestrado e tentar entrar na Polícia Judiciária. "Criminologia é uma ciência que tem muitas subciências. Lá em casa sempre vimos esses filmes sobre polícia de investigação." O boxe não ficará de lado. "Vou continuar, vou tentar conciliar tudo."

Entra no ringue com um sorriso nos lábios para mostrar à adversária que está confiante, mesmo que o nervosismo a ataque antes de cada combate, e talvez por isso consiga sempre destacar-se nos campeonatos onde participa, dentro e fora do ringue. No Campeonato da Europa de Seniores na Hungria, em Agosto passado, Juliana perdeu o combate com uma atleta da casa, a húngara que viria a vencer a competição. "Quem vai à luta, dá e leva", afirma. Não trouxe o ouro, mas ganhou o prémio de atleta mais bonita entre as 136 candidatas. Como foi? Juliana ri-se. "Foi engraçado." O troféu da beauty queen juntou-se às medalhas que tem no quarto que chegou a estar decorado com muitos posters das competições onde participou e que a mãe retirou quando mandou pintar o compartimento da casa. Saíram os papéis, ficaram os símbolos das conquistas. "Gosto de olhar para as medalhas, dão-me força." Juliana é determinada. Traça uma meta e faz tudo para a alcançar. Há, no entanto, alturas mais complicadas. Treinos intensivos, que exigem disciplina e concentração, regras para cumprir à risca. Antes do campeonato na Hungria, teve de emagrecer sete quilos numa semana. Foi duro, mas Juliana nunca teve sangue no rosto dentro do ringue. O único acidente de percurso foi num treino há pouco mais de duas semanas. Abriu a cabeça. "Nada de grave", garante. "É preciso desmistificar a ideia de que para ir para o boxe é preciso partir a cana do nariz."

O sonho dos Olímpicos

Garante que é uma "rapariga normal", mas a sua história começa muito cedo. "Aos cinco anos entrei num mundo completamente diferente e com outra mentalidade." No meio do desporto, dos filmes ligados a artes marciais, das transmissões dos Jogos Olímpicos, do karaté, do kickboxing e depois do boxe. "Olhava para a televisão e vibrava com os Jogos Olímpicos, sonhava em lá estar", lembra.

Brincou com bonecas, dizia que sim quando a mãe lhe perguntava se queria ser médica, mas a entrada no karaté, ainda antes da escola primária, moldou-lhe os passos. Chorou quando o pai, "fanático por artes marciais", a inscreveu. As lágrimas secaram em pouco tempo. Aos dez anos, o bichinho mordeu com muita força, inscreveu-se no kickboxing, numa altura em que se lutava para que fosse modalidade olímpica. Aos 13 anos, foi ao Campeonato Europeu na Grécia e trouxe duas medalhas de ouro em karaté e kickboxing com a Académica de Espinho ao peito. Regressou a Portugal e o seu treinador, Fernando Torres, voou para outras paragens. "Quis procurar um sítio onde pudesse continuar a treinar", recorda. O avô informou-se na colectividade onde era primeiro-escriturário, no Centro Luso-Venezolano, em Nogueira da Regedoura, Feira, e o boxe apareceu na lista. Quis experimentar e o treinador Pinto Lopes não mais a largou. "Agarrou-me para o boxe." Ainda hoje lhe dá todas as orientações. No 25 de Abril de 2005, com 13 anos, fez o primeiro combate com a camisola do Boavista Futebol Clube, onde ainda se mantém. Ganhou e nunca mais parou.

Os ingredientes são mais do que conhecidos: "Muita concentração, ter um bom ouvido para o treinador, uma adrenalina muito grande que é preciso controlar, e um pai como o meu que, em qualquer momento, me transmite segurança e confiança."

Coragem e inteligência

Pinto Lopes é o treinador de Juliana Rocha. No primeiro dia, percebeu imediatamente que tinha à sua frente uma vencedora. "No primeiro treino, disse-lhe que contava com ela para os Jogos Olímpicos de 2012." O que viu? "Muita coragem, muita inteligência, muita determinação. Qualidades essenciais no boxe". Não se enganou. Pinto Lopes, que já treinou mais de 100 atletas, entre eles António Quicanga, Nuno Cruz e Ricardo Maganinho, sabia que aquela menina bonita tinha muitas potencialidades. Havia que trabalhá-las. "Estou e estarei sempre ao lado dela."

Amanhã será a primeira vez que competirá com gente da sua idade. "Sempre lutou com seniores." E porquê? "Ninguém quer jogar com ela porque sabem que é derrota certa. Em todos os torneios tem dado nas vistas." Pinto Lopes acredita que os Jogos Olímpicos não são uma miragem para uma atleta de nível internacional. "E é para nos batermos por uma medalha para Portugal", garante. Os conselhos também são importantes. "Digo-lhe que triunfe em tudo o que se meta, que seja uma vencedora, principalmente nos estudos." E as horas não esticam. "É uma aluna muito aplicada, o boxe requer muito esforço e o dia só tem 24 horas."

Álvaro Rocha, o pai, é o grande pilar de Juliana. "É uma menina normal. Treina, estuda, ao sábado tem teatro e ao domingo descansa um bocadinho e volta a estudar." Acompanha-a para todo o lado e as palavras que trocam antes do combate são importantíssimas. O que lhe diz? "Entra sempre nervosa no ringue. Digo-lhe para ela ir lá acima e derreter tudo." A mãe ainda treme quando a sua menina entra no ringue. "Nos combates, está sempre com o coração nas mãos, mas ela só quer que eu seja feliz", diz a atleta. E é esse o objectivo de Juliana, a menina bonita do boxe português. O pai e o treinador são figuras fundamentais na vida de Juliana Rocha, que todos os dias se levanta às 6h30 para treinar