Era uma vez umas sapatilhas

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nÉlson garrido

Se tem mais de 35 anos existe uma grande probabilidade de ter usado um par de Sanjo (ou de ter sonhado com isso). Uma exposição recorda algumas das histórias da mítica marca portuguesa

O que faz um par de sapatilhas velhas e rotas dentro de uma redoma de vidro, dentro de uma sala, dentro de um museu? Recordam que houve um tempo, miudagem, em que as lojas não estavam cheias de calçado de marcas estrangeiras fabricado na Ásia, uma época em que calçávamos sapatilhas feitas em Portugal, um período da história em que ser-se cool implicava, entre outras coisas, caminhar sobre um par de Sanjo, modelo K100 - e ter orgulho nisso.

Para quem ainda não o saiba, Sanjo é uma espécie de diminutivo de São João (da Madeira). É ali, no mesmo edifício onde outrora foi fabricado o calçado Sanjo (e os chapéus Joanino), agora transformado em Museu da Chapelaria, que se recordam alguns dos pormenores relacionados com a histórica marca. A exposição que foi inaugurada na semana passada e fica até 31 de Janeiro conta com exemplares dos vários modelos produzidos desde 1936, dos robustos sapatos de couro às botas altas "rapper"s", de lona e sola alta, fabricadas na década de 1990, quando a empresa já agonizava. Mas a estrela da companhia - e um dos mais icónicos objectos produzidos em Portugal durante o século XX - continua a ser a K100, a sapatilha que calçava, com igual eficácia, os adolescentes e as equipas nacionais de basquetebol, andebol ou voleibol.

Na primeira pessoa

Há exemplares novos em folha, que nunca chegaram a ser calçados, mas também Sanjo que foram usadas até ganharem buracos na borracha. E há depoimentos de quem usou Sanjo antes da recente ressurreição da marca, agora em versão made in China. Nilton, o comediante, recorda as suas Sanjo, a estilista Anabela Baldaque também. A escritora Patrícia Reis conta como obrigou a mãe a experimentar vários detergentes para que os seus ténis Sanjo estivessem "sempre impecáveis". Miguel Carvalho, o jornalista da revista Visão, lembra que herdou as Sanjo que eram do pai e Fernando Alvim, o apresentador de rádio e televisão, inclui as suas velhas sapatilhas num mundo em que a Dina Aguiar apresentava o Telejornal, a televisão era a preto-e-branco, o Chalana jogava no Benfica e o Presidente Ramalho Eanes fazia graves discursos à nação.

Depois de ter já dedicado exposições a duas outras emblemáticas marcas da cidade, os lápis Viarco e as máquinas de costura Oliva, o Museu da Chapelaria lançou uma campanha em que procurou resgatar as sapatilhas velhas que ainda pudessem estar guardadas em casa e a reacção foi "inesperadamente positiva", conta Suzana Menezes, comissária da exposição: "Houve quem tenha ouvido falar da campanha na rádio e tenha telefonado só para dizer que se lembrava das Sanjo."

A campanha vai, por isso, ser mantida, uma vez que o Museu da Chapelaria se assume como guardião do passado industrial de São João da Madeira e, por isso, a investigação feita para esta exposição vai ter continuidade, tendo em vista a futura criação de um centro interpretativo.

"Alguns dos documentos que aqui estão expostos demonstram que a fábrica nunca conseguiu, sequer, dar resposta a todas as encomendas que recebia, tão grande era a procura, e que havia comerciantes que faziam as encomendas com dois anos de antecedência e as pagavam a pronto, recebendo, depois, meia dúzia de pares de cada vez, às pinguinhas", relata Suzana Menezes. Em 1981, em pleno apogeu da marca, a Empresa Industrial de Chapelaria produzia, ainda assim, 16.166 unidades por mês e as Sanjo chegaram a ser exportadas para a Suécia, onde não se impuseram por serem demasiado baixas para o pé alto dos suecos.

Depois disso chegaram a Portugal as grandes marcas internacionais, a preços competitivos, e o inovador sistema de fabrico, em que a borracha era galvanizada, deixou de ser tão inovador assim. A marca passou por dificuldades, economizou na qualidade para tentar baixar os preços e acabou por desaparecer em 1996.

Um velho cartaz publicitário, à entrada da exposição, mostra o mapa com um chapéu sobre o Minho e Trás-os-Montes, e o Algarve dentro de um sapato. Ao lado lê-se a frase "os chapéus Joanino e o calçado Sanjo servem Portugal da cabeça aos pés". Três décadas depois, as Sanjo voltaram a poder ser calçadas, mas continuam, sobretudo, a ocupar um lugar especial na cabeça dos portugueses.