E se a pobreza não fosse uma fatalidade?

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A pobreza não se resolve com pacotes de medidas governamentais, leis ou retórica. Há que inovar face a modelos esgotados

Em 2006, o Nobel da Paz foi entregue a um banqueiro, Muhammad Yunus: foi o reconhecimento universal de que o combate à pobreza é o combate pela paz. Num dos países mais pobres do mundo, o Bangladesh, Yunnus criou o "banco dos pobres" e tirou mais de seis milhões de famílias da miséria. A sua convicção, que demonstrou ser certa, é a de que todos os seres humanos têm as mesmas capacidades se lhes forem facultadas as mesmas oportunidades.

Em Portugal, um estudo feito pelo ISEG que analisou um grupo de famílias pobres num período de seis anos revelou que, face a novas oportunidades, metade dessas famílias conseguiu ter sucesso e sair da pobreza, ganhando competências que lhes permitiram autonomizar-se.

A pobreza não é uma fatalidade mas uma indignidade. Perceber isso é altamente perturbador num país como o nosso, com dois milhões de pobres e uma abordagem da pobreza que assenta, ainda e principalmente, em "assalariar" a pobreza através de subsídios em vez de microcrédito, em ver num pobre um assistido em vez de um cidadão que precisa de uma oportunidade, um problema em vez de parte da solução.

A pobreza é um fenómeno complexo, radica em causas muito diversas e não se compadece com abordagens simplistas, metodologias rígidas ou procedimentos uniformes que constituem um álibi para o fracasso dos resultados. Um mau ambiente é gerador de pobreza, como o é um mau urbanismo; a falta de habitação ou um sistema de saúde pouco equitativo; o abandono e o insucesso escolar, a doença ou o desemprego. Sabemos que é muito mais difícil olhar um pobre como alguém que tem direito à sua oportunidade do que introduzi-lo no sistema informático para receber uns euros. É muito mais desgastante trabalhar com uma família pobre para construir com ela as alternativas possíveis do que lançá-la nos meandros da burocracia social. Mas é este esforço e este empenhamento que se exige num combate tão desigual, que convoca o Estado e a sociedade em geral e nos interpela a cada um de nós, pessoalmente, todos os dias.

A pobreza não se resolve com pacotes de medidas governamentais, com leis ou retórica. Há que inovar face a modelos esgotados, promover abordagens interdisciplinares, construir redes de proximidade às pessoas, aos problemas e às suas causas. É preciso estabelecer parcerias transparentes com o Terceiro Sector que assegurem a continuidade e a sustentabilidade das intervenções. E ter uma visão prospectiva face a novos fenómenos igualmente exigentes: as novas doenças, a demografia, os movimentos migratórios, a info-exclusão e tantos outros.

Precisamos de muita inquietação e pouco conformismo. Porque a pobreza não é uma fatalidade mas a nossa vergonha colectiva. Deputada. Artigo publicado no âmbito das iniciativas da Cáritas Portuguesa no Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e Exclusão Social