Suecos descobrem o "medo do outro"

Foi a vez da Suécia. A onda xenófoba que inunda a Europa, de Leste a Oeste, atingiu o país-modelo da Escandinávia, laboratório do "Estado social europeu". Nas eleições de domingo, o partido Democratas Suecos (SD) alcançou 5,7 por cento dos votos e entrou pela primeira vez no Parlamento.

Dirigido por Jimmie Akesson, de 31 anos, o SD centrou a campanha na denúncia da imigração como factor de risco para a identidade nacional e fonte de criminalidade. Depois de ter tentado dar alguma respeitabilidade ao partido, acabou a mobilizar o núcleo duro dos militantes apresentando o islão como "a maior ameaça estrangeira à Suécia desde a II Guerra Mundial". O diário sueco Dagens Nyehter desenha o retrato-robot do seu eleitor: "Jovem, masculino, trabalhador manual, residente no Sul do país, onde a pressão estrangeira é mais forte. Muita desta gente votava social-democrata até estas eleições. Hoje, descobre o medo do outro."

Síndrome de Estocolmo

Estas eleições têm um duplo significado: a irrupção xenófoba e aquilo que a Economist definiu como "a estranha morte da social-democracia sueca".

O Partido Social-Democrata, que após 1932 governou a Suécia durante 65 anos, teve a pior votação desde 1914, com 30,8 por cento dos votos. É ainda o maior partido, mas dá sinais de declínio e falta de ideias. "Os sociais-democratas deixaram de simbolizar o modelo sueco. Perderam a magia e já não sabem como escrever a história do modelo", diz à AFP o politólogo Stig-Björn Ljunggren. Quando os analistas definem estas eleições como "o fim de uma época", assinalam sobretudo o ocaso da social-democracia sueca, com evidentes reflexos na social-democracia europeia.

A coligação do centro-direita, Aliança para a Suécia, do primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, ficou nos 49 por cento, o que significará a perda da maioria absoluta. Mas, faltando contar os votos por correspondência, nenhum cenário pode ser excluído.

Reinfeldt manter-se-á no poder. Se tiver de formar um Governo minoritário, fará recair sobre a oposição o ónus da estabilidade, impondo-lhe acordos pontuais. "Com um partido xenófobo no Parlamento, é necessário ser aberto a negociações transideológicas", escreve em editorial o Dagens Nyheter.

Não se repetirá em Estocolmo o exemplo dinamarquês, em que um executivo minoritário da direita liberal é sustentado pela extrema-direita xenófoba, que passou a condicionar a agenda governamental.

Mas a perspectiva de estabilidade política não reduz o impacto da ascensão do SD, qualificada como "um terramoto". Bem pelo contrário, pois, no caso sueco, não há o álibi da crise económica. Ainda há um ano em recessão, como efeito da crise internacional, é hoje a economia que mais fortemente cresce na Europa Ocidental.

Eleito em 2006, o Governo Reinfeldt lançou uma reforma eficaz do "Estado social". Reduziu algumas prestações consideradas excessivas e impôs um maior controlo dos abusos, assegurando a sustentabilidade do modelo de protecção social, que continua a ser um dos mais generosos e eficazes do mundo. Reduziu a a pressão fiscal sobre os trabalhadores. Fez algumas privatizações. O PIB deverá crescer 4,5 por cento este ano e o desemprego, na casa dos oito por cento, começa a diminuir.

O factor imigração parece jogar em estado puro. Os estrangeiros representam hoje 14 por cento da população total, número-recorde na Europa. A imigração decorre mais do asilo do que de razões económicas. Na cidade industrial de Södertälge - a da Scania e da Astra-Zeneca - onde o SD teve uma das maiores votações, os estrangeiros representam 44 por cento dos habitantes. Houve sucessivas vagas: primeiro turcos e sírios, depois bósnios, a seguir iraquianos, afegãos ou somalis, ao sabor das crises e guerras.

No caso dos refugiados, o Estado assegura um subsídio, alojamento e protecção social. Uma parte da opinião pública acusa os imigrantes de não se integrarem e ameaçarem a prosperidade sueca.

Esta atitude não é um fenómeno novo na Suécia. Em 1991, com uma percentagem muito mais baixa de imigrantes, o fantasma do "estrangeiro" permitiu o sucesso efémero de um partido xenófobo, a Nova Democracia.

Pensando na Itália e na Europa, o politólogo italiano Maurizio Ferrera, da Universidade dei Studi, de Milão, e da área da esquerda, sublinha um fenómeno: na última década cresceu "o medo de assalto à casa e ao tesouro comum por parte de pessoas "diversas", em termos de cultura, costumes e ética cívica". É este sentimento que o SD terá cavalgado nas eleições de domingo.

Num artigo de fundo no Corriere della Sera, Ferrera lança um apelo aos Governos, partidos e políticos europeus. "Reflictam sobre os factores que produziram a síndrome de Estocolmo: fluxos imigratórios demasiado intensos e sem filtros, a integração falhada dos estrangeiros (sobretudo os de segunda geração), a formação de enormes guetos islâmicos na periferia das metrópoles, os problemas de segurança pública." Os europeus não têm um modelo de resposta ao desafio da imigração, de modo a evitar "serem submergidos pela vaga xenófoba e nacional-proteccionista".

O exemplo Sarkozy

A imigração toca o modelo de civilização e a segurança interna da Europa. O continente terá cada vez mais imigrantes e mais muçulmanos. Para manter o ratio activos/inactivos, a UE deverá acolher nas próximas duas décadas mais de cem milhões de imigrantes. O simples envelhecimento da população torna a imigração um imperativo de sobrevivência. É esta a dimensão do problema.

Os populismos xenófobos, ao contrário dos fascismos, não se apresentam como antidemocráticos. Cultivam certamente a "antipolítica", apelam ao "verdadeiro povo" contra as elites, procuram bodes expiatórios, mas jogam dentro das instituições. Serão antes "uma degenerescência da democracia representativa" (Yves Mény).

Estes populismos dão-se mal com o poder. Prometem tudo e o seu contrário e, para governar, têm de esquecer as promessas. As suas passagens pelo poder são efémeras, como no caso do Partido Liberal austríaco, do falecido Jörg Haider.

A ameaça é diferente. O mais perverso efeito é a "contaminação" dos partidos tradicionais, de direita e de esquerda, não só nos terrenos da imigração e da segurança pública, mas também no estilo e no discurso políticos.

Sarkozy ilustrou a mais recente derrapagem. Em 2007, vangloriou-se de esvaziar a reserva eleitoral da Frente Nacional, de Le Pen, assumindo alguns dos seus temas. Hoje, a pensar em 2012, apodera-se despudoradamente dos mais primários clichés a respeito dos ciganos romenos. Mais grave, escreve o jornalista Daniel Vernet: é uma manobra táctica mas também "a expressão de uma interiorização do vocabulário xenófobo". É lançar gasolina na fogueira.

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