1926-2010 Alberto AzevedoO padre de espírito livre que até no funeral provocou polémica

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alfredo cunha/arquivo

Esperava que Braga não fosse a sacristia da Europa. Dizia que preferia ser padre toda a vida a ter o título de cónego. Alberto Azevedo deixou marcas profundas em gerações de estudantes

Espírito livre, homem próximo e generoso, recordado por muitos como educador de sucessivas gerações de jovens, a dimensão polémica do padre Alberto Azevedo fez-se notar mesmo no seu funeral.

Alberto Augusto da Costa Azevedo morreu a 18 de Agosto, em Braga, com 83 anos, na sequência de complicações de saúde que já o tinham deixado acamado havia meses. Nascido a 11 de Novembro de 1926, em Ribeirão (Famalicão), padre desde 15 de Agosto de 1950, destacou-se como professor de Educação Moral e Religiosa Católica, na Escola Sá de Miranda, ao longo de mais de 40 anos.

Enquanto padre, começou por trabalhar um ano no Diário do Minho, o jornal da diocese, e no Seminário Conciliar. Nos cinco anos seguintes, esteve no Paço dos Arcebispos, com funções na secretaria e no tribunal eclesiástico.

Em 1956, a sua vida mudou - com ela, também a de muitas centenas de pessoas que, nos 40 anos seguintes, passariam pelas suas aulas e actividades. Em Janeiro de 1996, por ocasião de uma homenagem de amigos e colegas, o padre Azevedo confessava ao PÚBLICO que lhe custara adaptar-se "à linguagem dos mais novos".

Apesar disso, os alunos rapidamente perceberam que aquele era um "padre diferente, mesmo pela maneira como falava". Os alunos e os militantes da JEC (Juventude Escolar Católica) e do MCE (Movimento Católico de Estudantes), movimentos dos quais Alberto Azevedo se tornaria assistente eclesiástico.

Foi num encontro da JEC, na década de 60, perante o então arcebispo Francisco Maria da Silva, que Alberto Azevedo fez uma conferência sobre democracia. O padre afirmou: "Não podemos ser livres enquanto outros não são e a liberdade religiosa não existe quando não se respeitam as outras liberdades." O arcebispo não gostou. No final, disse que respeitava a pessoa, mas que eram "asneiras" algumas das coisas que o padre dissera... Alberto Azevedo retorquiu, perguntando se o Concílio Vaticano II servira apenas para "lavar a cara da Igreja, como os gatos".

A PIDE, polícia política do Estado Novo, também o molestava. Ele corria com os agentes: "Por que porta entrou? É por ali que deve sair."

Aulas que marcavam

Pelos anos fora, continuaria frontal. Intervenção política à esquerda (foi apoiante público de Jorge Sampaio, por exemplo) mas com amigos em todos os partidos, crítico do carreirismo eclesiástico e da cumplicidade entre responsáveis da Igreja e poderes públicos, Azevedo descia à praça sempre que havia princípios basilares em causa e quando assumia discordâncias em relação à doutrina oficial católica em questões como o aborto.

Em 1985, por exemplo, o cónego Eduardo Melo, que morreu em 2008, criticara Maria de Lourdes Pintasilgo. O padre Azevedo, que não escondia as divergências com o seu colega padre, publicou um pequeno livro defendendo que Pintasilgo era uma católica autêntica e que Eduardo Melo "há muito deveria ter sido dispensado de algumas funções eclesiais".

Depois de aposentado - o que ele não desejava -, continuou a apoiar actividades da escola. Não por acaso, os colegas quiseram ler um texto no funeral de Alberto Azevedo - o que não seria permitido pelo bispo D. Manuel Linda, que presidiu à cerimónia, mas já lá iremos.

No texto, os professores da Sá de Miranda, em Braga, evocavam a "enorme quantidade de jovens que saíram da escola marcados" pelas aulas do padre Azevedo, pelos livros que ele oferecia ou ainda "pelas suas interrogações, raiando frequentemente a provocação, mas fonte de inesquecíveis reflexões".

Inveterado sonhador, inconformado com a aposentação forçada, alguém que desconhecia a palavra "desistir" - são outros qualificativos que os colegas lhe atribuíam. Guilherme d"Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas, recordou no PÚBLICO, há dias, o seu "empenhamento numa educação audaciosa, que significasse o despertar das consciências para a liberdade e a responsabilidade".

Foi Oliveira Martins que, enquanto secretário de Estado da Educação, inaugurou, na Sá de Miranda, a Sala Alceu Amoroso Lima, com o nome do escritor, crítico e pensador católico brasileiro (que viveu entre 1893 e 1983) de quem Alberto Azevedo se tornara amigo e com quem se corresponderia durante anos. Uma iniciativa que pugnava por uma escola que fosse, antes de mais, espaço de tertúlia e crescimento intelectual. A par de Alceu, o padre de Braga assumia-se herdeiro da tradição humanista e personalista de Emmanuel Mounier e Jacques Maritain.

Nas cartas aos amigos, escritas à mão, uma epígrafe de Alceu avisava contra o que ele mais receava: "O perigo mais grave, talvez, que temos de enfrentar na vida é o dia-a-dia. É a rotina que esfria o coração. (...) É a repetição que seca a inspiração."

No seu funeral, vários amigos não gostaram da homilia do bispo Manuel Linda, que há poucos meses foi para auxiliar do arcebispo de Braga. O funeral deveria ter sido "o momento para um reconhecimento" da hierarquia católica "relativamente a um dos seus padres que, noutros momentos, diversos sectores da sociedade já tinham reconhecido e homenageado". Desgraçadamente, escrevia o grupo, onde se incluem ex-colegas da Sá de Miranda e professores universitários, num artigo publicado no Diário do Minho, o que se ouviu foi quase o oposto: "Palavras sem grandeza, sem justiça e quase a pedirem desculpa pela irreverência e incómodo que foi a vida do sacerdote que ia a sepultar."

D. Manuel Linda está no estrangeiro, mas o arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga, de férias na altura do funeral, disse ao P2 que considera a reacção exagerada. "O funeral não é um elogio fúnebre, D. Manuel informou-se sobre a vida do padre Azevedo e fez referências normais. Não vejo razões para aquele texto", acrescenta, admitindo que recebeu várias cartas de protesto.

Em 1996, o padre Azevedo dizia ao PÚBLICO: "Nunca se esqueçam de dizer isto no jornal: que a política é das coisas mais belas, mais nobres da vida, este pôr em questão, este quebrar os muros de silêncio entre as pessoas, a vida cívica, o participar."