Bancos centrais prolongam medidas anticrise para evitar riscos de uma recaída da economia

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Jean-Claude Trichet deverá prolongar injecções ilimitadas de liquidez MARTIN OESER/AFP

Nos EUA, Japão e zona euro, os bancos centrais estão outra vez preocupados com a possibilidade de um regresso à crise. E estão a adiar a retirada de medidas

Na sexta-feira foi Ben Bernanke, ontem Masaaki Shirakawa e na próxima quinta-feira deverá ser a vez de Jean-Clade Trichet. Os mais importantes banqueiros centrais do Mundo estão todos a assumir que, afinal, devido às novas ameaças de recessão, ainda não chegou o tempo de retirar as medidas extraordinárias de estímulo monetário implementadas para ajudar a economia durante a crise.

O presidente da Reserva Federal norte-americana foi o primeiro. Bernanke, com os indicadores a apontarem para uma recaída da economia dos EUA, garantiu que a "Fed" estava preparada para adoptar novas medidas extraordinárias - nomeadamente a compra de mais obrigações no mercado - se a recessão voltasse a ameaçar o país.

Como seria de esperar, o Japão não tardou a responder. O yen tem estado a valorizar-se face ao dólar, ameaçando a competitividade das exportações nipónicas e, por isso, Masaaki Shirakawa decidiu ontem que a linha de crédito extraordinária a taxas fixas lançada pelo Banco Central do Japão vai passar de 20 para 30 biliões de yens (277 mil milhões de euros).

Resta o Banco Central Europeu dar um sinal no mesmo sentido. De acordo com a edição de ontem do Financial Times, isso deverá acontecer já na quinta-feira, quando o Conselho de Governadores se reunir em Frankfurt. Apesar de a zona euro - em particular a Alemanha - estar a crescer mais rápido do que o previsto, Jean-Claude Trichet deverá anunciar o prolongamento pelo menos até ao início do próximo ano das cedências de liquidez ilimitadas a taxa fixa que foram iniciadas no auge da crise.

Antes da crise, o BCE, para garantir a liquidez do sistema, realizava leilões, em que os montantes emprestados e a taxa praticada eram definidas consoante a procura dos bancos. Mas a partir de Setembro de 2008, quando a desconfiança se instalou no mercado interbancário, o BCE passou a emprestar todo o dinheiro que os bancos pedem a uma taxa fixa de um por cento. A única coisa que é exigida é a apresentação de activos minimamente seguros como garantia.

Há vários meses que os responsáveis europeus têm vindo a falar da retirada destas medidas extraordinárias. No entanto, a persistência da instabilidade nos mercados financeiros e, agora, a ameaça criada pela perspectiva de um novo abrandamento nos EUA, têm levado a consecutivos adiamentos dessa decisão.

Além disso, mais do que nunca, os principais bancos centrais do Mundo não se podem dar ao luxo de apresentar políticas que sejam muito diferentes entre si. Na prática, depois de a "Fed" ter dado a entender que pode voltar a injectar liquidez nos mercados em grandes quantidades, uma eventual retirada das medidas extraordinárias por parte do BCE resultaria inevitavelmente numa nova escalada do euro face ao dólar nos mercados cambiais e na perda de competitividade das empresas exportadoras alemãs - o motor da zona euro. No caso do Japão, com o yen já a atingir máximos, esta dependência ainda é maior.

Assim, tudo leva a crer que não será nos próximos meses que se irá ouvir, do lado dos bancos centrais, o anúncio do fim da crise.