Ex-Miss Bolívia é a arma secreta de Evo Morales contra o tráfico de cocaína

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Evo Morales e Jessica Burton, num comício, em Janeiro REUTERS

Num país onde a folha de coca é património nacional, a luta contra o tráfico de droga pode dar umas voltas estranhas. Cartéis do subcontinente estão a tomar posição

O Presidente da Bolívia, Evo Morales, que é também cocalero (cultivador de coca), reconheceu pela primeira vez que os traficantes de cocaína estão mais bem equipados do que a polícia e as Forças Armadas do seu país e apelou à ajuda internacional. E qual a sua arma secreta para lutar contra o avanço da droga numa das províncias mais remotas desta nação andina, onde os narcos mexicanos, brasileiros e de outros países se estão a instalar? A Miss Bolívia 2006, a bela Jessica Anne Jordan Burton.

Toda a Miss tem a oportunidade de dizer o que faria para tornar o mundo melhor, mas a morena que representou a Bolívia no concurso Miss Universo de 2006 - o mesmo ano em que Evo Morales chegou ao poder - terá a oportunidade de o demonstrar. Com uma ajuda do amigo Presidente - que há duas décadas é também presidente da união dos sindicatos dos cultivadores de coca do Chaparé.

Jessica Burton é um bom trunfo para Morales, numa nação que se divide ideologicamente entre indígenas e descendentes de europeus - uma divisão incentivada pelo próprio Presidente, aliás. A ex-Miss, de forma atípica para quem vem da cidade de Santa Cruz, capital do departamento do mesmo nome, na zona mais rica e branca da Bolívia - protagonista da oposição a Morales -, até "flirtou" com o Presidente numa cerimónia pouco tempo depois de ter sido eleita, dizia o Sunday Telegraph.

A ex-Miss transformada em política tinha-se candidatado a governadora de Beni, pelo partido de Morales, mas perdeu as eleições, na Primavera. Agora o Presidente nomeou-a sua representante na província, uma espécie de "vice-rainha", com poder para lançar projectos de desenvolvimento, para lutar contra a droga.

Beni, no Nordeste do país, está em grande parte coberto por floresta tropical. Faz fronteira com o Brasil e é um dos maiores departamentos mas um dos menos povoados, onde a pobreza é grande. Agricultura e criação de gado são praticamente as únicas actividades económicas legais - as ilegais têm a ver com o tráfico de cocaína, com laboratórios de transformação da coca em droga escondidos em quintas de aspecto inocente.

Morales, o primeiro Presidente com sangue indígena, fez da folha da coca cultivada tradicionalmente pelos índios património cultural do Estado Plurinacional da Bolívia, na Constituição de 2009. Esta relação especial com a coca e os interesses que o Presidente representa têm tido um papel importante na forma como a Bolívia actua contra o narcotráfico.