"Como é possível um turista de luxo ficar numa maca num corredor de hospital?", diz o presidente da Câmara de Loulé

O presidente da Câmara de Loulé, Seruca Emídio, é médico de profissão e a sua mulher, colega de ofício, chefia um dos serviços do Hospital de Faro. O autarca diz que há uma coisa que o intriga: que o há muito prometido novo hospital, a construir no Parque das Cidades, em Faro, ainda não tenha saído do papel, ao mesmo tempo que os privados "entram no mercado da saúde com toda a força e pujança". Além das seis unidades já existentes, quatro delas com atendimento 24h por dia, vai abrir em Albufeira mais uma, do grupo Trofa Saúde.

"Alguma coisa está mal", declara o social-democrata. "Os hospitais privados deviam ser complementares e não substitutos dos públicos." A Seruca Emídio choca que quem manda "não se tenha apercebido ainda da importância do turismo de saúde", apesar da quantidade de estrangeiros reformados que escolhe o Algarve como pátria adoptiva. "Como é possível aceitar que um turista alojado num hotel de 500 euros por noite vá para o corredor de um hospital ou de uma enfermaria?", interroga.

"Existe um drama diário, quando o hospital quer dar alta aos doentes, as famílias não têm condições para os acolher e os lares e as unidades de cuidados continuados estão cheios", nota Francisco Amaral, presidente da Câmara de Alcoutim e voluntário nas urgências de Faro há 12 anos.

O problema do corredor não é apenas de falta de conforto. O Hospital de Faro já teve no passado graves problemas com infecções hospitalares. "Dá-se o ridículo de haver pessoas, internadas no corredor, com um placa na maca a dizer "isolamento de contacto", mas sem qualquer tipo de isolamento real", descreve o dirigente sindical dos enfermeiros Nuno Manjua. "O doente, quando vai para a urgência, vai para uma terra de ninguém, porque não tem um médico atribuído e pode ir passando por vários."

"Posso garantir que não há nenhum doente crítico que não tenha todos os cuidados de que precisa, no espaço adequado, com a equipa adequada e com os equipamentos indispensáveis", afirma a directora clínica da unidade de saúde, Helena Gomes, dando ainda como garantia de segurança a existência de uma comissão de controlo de infecções. "Há colegas nossos que já pediram análises Clostridium difficile [a bactéria suspeita de ali ter morto vários pacientes nem 2009] e veio positivo", contrapõe Nuno Manjua.

É uma situação pior que em Santa Maria ou São José, em Lisboa? Não, responde a graduada de Medicina Interna Elsa Pina, com muitos anos de urgências em cima. E até já foi pior: "Dantes ficavam 60 doentes no corredor." Hoje estão lá uns 20. "Não gosto é que me digam que está tudo bem e que não há sobrecarga de trabalho. Nós, internistas, estamos profundamente insatisfeitos. As pessoas estão a ser tratadas no corredor - não me pergunte como. É inadmissível." Mesmo assim, a médica não hesita quando se lhe pergunta se, em caso de emergência, é melhor ir ao hospital público ou ao privado: "Por muito que a hotelaria seja pior, se tiverem algum problema venham ao hospital público."

As dificuldades de gestão do espaço - ou da falta dele - não se resumem ao Verão, admite a directora clínica. Os períodos do Natal, passagem de ano e Páscoa também são críticos.

Um dos motivos da falta de médicos é a saída dos especialistas para o sector privado. David Barros Madeira, oftalmologista, também o fez, mas quando o Governo aboliu as listas de espera voltou ao hospital público para levar a cabo cirurgias às cataratas. A assistência médica no sector público, diz o especialista, "começa a ficar comprometida pela falta de formação".

"Está a dar-se uma sangria de médicos do público para o privado - está a canibalizar-se o sector público", opina, com os clínicos a serem seduzidos por honorários mais altos. "Só que é no sector público que se formam os especialistas, e não no privado", sublinha. I.R./A.H.

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