Rui Rio rejeita homenagem a Saramago por causa dos "atropelos democráticos" do escritor

Foto
Autarca justificou-se via Internet

Falta de ligação ao Porto e o passado político do Prémio Nobel explicam recusa de incluir autor na toponímia

O presidente da Câmara do Porto recusou incluir o nome de José Saramago na toponímia daquela cidade porque o escritor não tem uma ligação ao Porto e um passado político que o autarca do PSD não consegue "ultrapassar".

No essencial, estas são as razões que levaram a maioria PSD/CDS-PP que governa aquela autarquia a rejeitar a proposta do vereador Rui Sá (CDU), que propôs uma homenagem ao único autor português distinguido com um Prémio Nobel da Literatura e que morreu a 18 de Junho.

Num texto publicado no site da autarquia, Rui Rio revela uma carta enviada ao PEN Clube Português, que pediu por escrito a Rui Rio que revisse a sua decisão.

Para o autarca, este caso tem sido objecto de um "aproveitamento político imoral" e o que justifica a sua decisão é o facto de a Comissão de Toponímia ter optado, em 2002, "apenas aceitar propor nomes de cidadãos com ligação directa ao Porto para ruas da cidade". Foi este o argumento que Rui Rio terá invocado durante a reunião em que a proposta da CDU foi chumbada, recordando que, "por exemplo, figuras nacionais como Amália Rodrigues, Raul Solnado ou mesmo os Marchais (sic) Spínola e Costa Gomes também ainda não têm uma rua no Porto".

O autarca acrescenta ainda que, mesmo que esta razão não existisse, a sua "consciência teria muita dificuldade em votar favoravelmente" o nome de Saramago, recordando os "saneamentos políticos de jornalistas que o ilustre escritor promoveu no "Verão Quente de 75" enquanto director adjunto" do Diário de Notícias. "Para quem dá grande valor aos princípios democráticos, é muito difícil ultrapassar atropelos tão graves à democracia, mesmo em nome de um elevadíssimo mérito específico como é o caso do nosso Prémio Nobel da Literatura", escreveu ainda Rui Rio - um autarca que já chegou a expulsar jornalistas de conferências de imprensa e a condicionar a atribuição de subsídios à assinatura de um documento que limitava a liberdade de expressão dos responsáveis das instituições a apoiar.

Também a Assembleia Municipal do Porto votou, no final de Junho, duas resoluções que previam a atribuição do nome de José Saramago a uma rua ou edifício relevante, tendo, neste caso, sido aprovadas, sem qualquer voto contra. Ainda anteontem, o escritor Mário Cláudio entregou na Câmara do Porto uma petição com 191 assinaturas convidando Rui Rio a aprovar tal homenagem. Entre as personalidades que assinaram o documento conta-se o social-democrata Vasco Graça Moura.

Já em Espanha a cidade de Cuenca, em Castilla La Mancha, aprovou por unanimidade, no início do mês, uma proposta para dar o nome de Saramago a uma rua.