Bancos limitam crédito devido a dificuldades de financiamento

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Famílias mais retraídas na procura de crédito para comprar casa PAULO RICCA

A crise da dívida soberana trouxe mais restrições à concessão de empréstimos mas o cenário de aperto não deve ficar por aqui

a As famílias e as empresas têm cada vez mais dificuldades em aceder ao financiamento bancário em Portugal. No segundo trimestre do ano, um período que coincidiu com o auge da crise da dívida soberana nos países periférios do euro, os bancos depararam-se com crescentes perturbações no acesso aos mercados de financiamento. A factura acabou por ser paga pelos clientes, que viram a banca aumentar as restrições à concessão de crédito, invertendo a tendência de desagravamento que vinha a sentir-se e pondo assim mais entraves à recuperação da economia.

Estas são as principais conclusões do inquérito aos bancos sobre o mercado de crédito, conduzido pelo Banco Central Europeu (BCE) em 120 instituições financeiras da Europa. No caso português, o Banco de Portugal questionou cinco grupos bancários, que reconheceram estar a passar para os clientes o impacto da deterioração no acesso aos mercados e o aumento do custo de capital. O aumento dos spreads aplicados e a exigência de outras condições contratuais são a face mais visível disso.

No resto da Europa, o cenário é o mesmo, mas com uma diferença: enquanto em Portugal aumentam as restrições tanto para as famílias como para as empresas, os bancos europeus só reforçaram as exigências para com o mundo dos negócios. Segundo o BCE, o número de instituições a apertar as condições de concessão de crédito às empresas disparou para 11 por cento, face aos três por cento do primeiro trimestre.

Do lado oposto, o grau de reforço das restrições ao financiamento das famílias, ao nível do crédito à habitação, permaneceu inalterado nos dez por cento, bastante distante da previsão de dois por cento que os bancos tinham esboçado no anterior inquérito. Paralelamente, o nível de restrição na concessão de crédito ao consumo manteve-se nos 12 por cento, embora se esperasse bastante menos.

Todo este reforço das restrições ao financiamento ocorreu num período de turbulência na Europa, sobretudo devido à desconfiança dos mercados quanto à dívida pública de vários países, como a Grécia, Portugal e Espanha. Para o trimestre em curso (Julho a Setembro), o BCE e o Banco de Portugal prevêem que os bancos continuem a ter dificuldade em aceder ao financiamento nos mercados, admitindo assim um novo agravamento das restrições ao crédito.

Contudo, a ansiada estabilização dos mercados financeiros, na sequência da publicação dos resultados dos testes de stress à banca europeia, poderá estimular os bancos a emprestar mais e assim acelerar a recuperação económica.

Famílias diminuem procura

O inquérito do BCE à banca mostra também que a procura de financiamento por parte das empresas e das famílias aumentou no segundo trimestre. No primeiro caso, a percentagem de bancos a falar de uma subida passou de menos 13 por cento no primeiro trimestre para menos 2 por cento. Ao nível dos particulares, o aumento foi bastante maior, passando de menos 2 para 24 por cento. A melhoria do mercado imobiliário é a razão atribuída a esta subida.

Em Portugal, o cenário é outro. Embora a procura de empréstimos ou linhas de crédito por parte de empresas se tenha mantido nos mesmos níveis do início do ano, os bancos dizem que as famílias diminuíram a sua procura por financiamento, quer para fins habitacionais quer de consumo, entre Abril e Junho. Esta tendência deverá prolongar-se no terceiro trimestre e, segundo o Banco de Portugal, é justificada com uma "diminuição da confiança dos consumidores" e com perspectivas desfavoráveis de evolução do mercado imobiliário.

Dados divulgados anteontem pelo BCE mostram que os bancos da zona euro concederam empréstimos à habitação em Junho ao ritmo mais rápido desde Setembro de 2008. Do lado oposto está o mundo empresarial, onde a concessão de crédito está a tardar mais em recuperar.

Em Portugal, os dados existentes (até Maio) mostram uma evolução positiva, com os bancos a emprestarem mais 1034 milhões de euros nesse mês, dos quais 586 milhões foram para empresas e 448 para as famílias. O crédito malparado continua, no entanto, a representar um encargo significativo para a banca. Em Maio, o peso dos empréstimos de cobrança duvidosa às famílias chegou mesmo aos 2,85 por cento do total do crédito concedido, o valor mais alto desde Agosto de 1998.