Rainha de Inglaterra aperta o cinto

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Quando os contribuintes tapam os pés, a coroa fica à mostra. A rainha Isabel II tem noção das dificuldades sentidas pelos britânicos e já fez saber que está disposta a dar o exemplo nesta nova era de austeridade orçamental

Anualmente, a rainha Isabel II recebe do governo britânico 7,9 milhões de libras (9,4 milhões de euros) por ano. A quantia foi fixada em 1990 pelo Governo do primeiro-ministro conservador John Major. De lá para cá, a quantia não aumentou. E não vai aumentar nos próximos tempos. Ao ritmo da dieta mundial forçada, a família real britânica também vai apertar o cinto.

Com esses 7,9 milhões anuais, a rainha tem, por exemplo, que pagar os ordenados a todas as pessoas que trabalham para a casa real, estimadas em cerca de 1400, incluindo um contador oficial de cisnes e um tocador de gaita-de-foles que todas as manhãs se coloca debaixo da janela da monarca, revela o The Washington Post.

Ciente que os tempos não estão para luxos, a própria monarca está disposta a dar o exemplo. Isabel II, ao contrário de outros elementos da família real, sempre foi conhecida pela frugalidade. Tornou-se recorrente a história de uma monarca a vaguear, à noite, pelos corredores de Buckingham, determinada a apagar as luzes das divisões que não estavam a ser usadas. A decisão de congelar a soma a atribuir à casa real britânica durante o próximo ano já recebeu, por isso, a sua concordância. Isabel II descende de uma linhagem que sempre insistiu em que o exemplo vem de cima.

1 contribuinte = 62 pence

A palavra de ordem parece ser "cortar, cortar, cortar". Em tudo, mesmo na segurança. As netas da rainha, as princesas Eugenie e Beatrice, filhas de André e de Sarah Ferguson, deverão, por exemplo, perder o privilégio de ter guarda-costas 24 horas por dia, que custam aos cofres britânicos mais de 830 mil euros por ano, indica ainda o The Washington Post.

Paralelamente, para não sobrecarregar os contribuintes, mas, ainda assim, fazer face às despesas, Isabel II tem vindo a retirar dinheiro de um fundo de poupanças que, a este ritmo, ameaça esgotar-se em 2012, ano em que a monarca assinala o seu 60.º ano de reinado. Desse fundo, que se encheu na década de 1990 à custa de excedentes acumulados, a monarca levantou no ano passado 7,7 milhões de euros - a maior quantia alguma vez levantada.

Neste momento, a família real custa a cada contribuinte britânico 62 pence por ano (74 cêntimos), o que representa uma descida de 7 pence em relação ao ano passado. O custo total de manutenção da monarquia pelos britânicos desceu em cerca de 3,3 milhões de libras (em relação ao período 2008-2009), para actuais 38,2 milhões de libras (45 milhões de euros), divulgou recentemente o Palácio de Buckingham.

Um porta-voz da casa real informou que esta descida representa uma quebra de 12,2 por cento nos dinheiros destinados à família real e ficou a dever-se, sobretudo, aos cortes nas viagens aéreas e à venda do helicóptero privado da rainha, refere o Daily Star.

As milhas de André

As contas públicas britânicas estão a ser passadas a pente fino. Alan Reid, o homem que tem o pomposo título de keeper of the Privy Purse mas que, em termos simplistas, é o contabilista da rainha, explicou aos media que a família real está "rigorosamente ciente do clima de dificuldades económicas" e que irá "reduzir os custos e adiar manutenções essenciais".

Alan Reid especificou ainda que a família real vai reduzir em mais de meio milhão de euros o seu orçamento destinado à manutenção das propriedades reais e que vai equacionar, caso a caso, a necessidade de substituição de cada trabalhador que saia.

Para fazer face à crise, o Palácio de Buckingham decidiu igualmente congelar os salários do seu pessoal sénior, preferindo aumentar as pessoas com salários mais baixos.

Os media britânicos relatam que, apesar de este novo executivo conservador ser mais favorável à monarquia do que o anterior Governo trabalhista liderado por Gordon Brown, ainda assim estes cortes poderão comprometer as obras de restauro e renovação de vários palácios, muitos deles em avançado estado de degradação. Não será de estranhar, por isso, que alguns elementos do staff da rainha tenham sido apanhados a usar a técnica do balde por debaixo de tectos que pingam, refere o Mail on-line.

Não obstante, estatisticamente, a maioria dos cidadãos britânicos apoiar a monarquia, a lealdade à rainha poderá vir a estar em causa numa altura em que, diariamente, se adiam ou cancelam planos de investimento público em áreas tão importantes como a saúde e a educação.

Para além disso, o facto de alguns elementos da família real não parecerem muito preocupados com o esforço de contenção compromete ainda mais um eventual apoio popular.

O príncipe André, por exemplo, não é propriamente poupado no que toca a viagens: conhecido pela alcunha de "Airmiles Andy", o duque de York custou aos contribuintes 137 mil libras (162 mil euros) em viagens durante o ano passado. Um voo para Moscovo, por exemplo, custou mais de 23 mil euros e, noutra ocasião, André chegou a gastar 13 mil euros num voo privado para a Escócia, onde se disputava um torneio de golfe.

Rainha dá lucro

Já o príncipe Carlos gastou mais de 16 mil euros numa viagem de comboio real até Lake District, um parque natural inglês, revela o Daily Star.

Por estas e por outras, o grupo britânico que defende o fim da monarquia, denominado - muito adequadamente - Republic, levou recentemente a cabo um protesto frente ao Palácio de Buckingham. Citado pela agência noticiosa Associated Press, Graham Smith, do referido grupo, sublinhou que a família real "continua a gastar muitos milhões de libras do dinheiro dos contribuintes" em "mordomos e vestidos", numa altura em que "serviços públicos de charneira estão ameaçados". "É tempo de cortar nos orçamentos, sem reservas nem sentimento", disse Smith. "Esta é a mais dispendiosa monarquia da Europa e a verdade é que nós já não a conseguimos sustentar."

Há, porém, quem defenda o oposto: a rainha é fonte de lucro e um inestimável chamariz para o turismo internacional, pelo que deve ser apoiada e defendida. "A rainha é muito mais barata do que repúblicas entediantes como a Alemanha. O impulso que ela dá ao turismo, à tradição, à herança e ao país é enorme (...). Claro que poderíamos ter uma monarquia mais barata - poderíamos livrar-nos dos desfiles, das festas nos jardins e de algumas visitas reais; até podíamos pôr a rainha numa pequena casa -, mas chegaríamos a um ponto em que nos perguntaríamos: vale a pena?", questiona o conservador Edward Leigh, antigo presidente do comité britânico das contas públicas, citado pelo Telegraph.