De A a Z

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Eu estava em Espanha, de férias com a minha irmã e a minha sobrinha. Elas foram para uma loja, eu entrei numa livraria. Estava folheando traduções de livros portugueses, quando uma mulher de cabelos negros, falando num sotaque andaluz cerrado, me interpelou. Eu fiquei atrapalhado, pedi desculpa e voltei a inserir o volume que segurava na prateleira. Ela disse-me: "¿Eres portugués?", e prosseguiu numa algaraviada de que só entendi a palavra "saramago". Perguntei: "Há mais livros do Saramago aqui, é isso?" Ela desapareceu por detrás da estante e voltou com o escritor José Saramago pela mão.

Falámos durante três minutos, não mais. Eu tinha acabado de ler, nessa mesma tarde, O Ano da Morte de Ricardo Reis - e por isso buscara a tradução espanhola. Ele estava feliz; eu não me lembro do que ele disse. Ele brincava com Pilar del Rio - a mulher de cabelo negro -, inventava piadas, coisas para a fazer sorrir. Eles estavam apaixonados, eu tinha talvez 15 anos; inventei uma desculpa e fui embora. Eu não tinha palavras para conversar com Saramago e não tinha à-vontade para ficar ali boquiaberto a ouvi-lo.

Uma das melhores passagens de Saramago encontrei-a por acaso num livro que li na faculdade, O Tempo das Catedrais, do historiador francês Georges Duby. É na abertura do livro; uma descrição panorâmica tão bem vertida em português que eu tive de ir à ficha técnica e descobrir: "Mas quem foi o tradutor?" E lá dizia: tradução, José Saramago.

Sem o Saramago que perdeu o emprego de jornalista e viveu de traduções, quando levava já quase meio século de vida, não teria havido o Saramago milagroso das décadas seguintes. Um escritor aprende muito traduzindo, ou até copiando à mão; aprende a cristalizar aquilo que observou. O solitário revisor de História do Cerco de Lisboa é pelo menos parcialmente a memória deste Saramago tradutor. Um escritor aprende muito lendo todo o género de coisas. Saramago gostava de literatura menor, gazetas antigas, sermões de Vieira ou ficção científica. Existe um livro de ficção científica chamado O Dia dos Trífidos que talvez Saramago tenha lido e no qual toda a gente acorda cega, menos um protagonista. Mas Saramago levou tão longe uma ideia semelhante que ao lê-lo nós sentíamos a "cegueira branca" e a angústia de tê-la. Ele foi dos melhores escritores de sempre em pegar numa pequena ideia inicial, inverosímil, e desdobrá-la em palavras até construir um edifício à volta do leitor.

Um escritor aprende também muito nascendo e vivendo num país onde as elites são medíocres e mesquinhas, e cujas imaginações não aceitam que pode ter nascido um génio na Azinhaga, Ribatejo.

Esta é uma história de que Alberto Caeiro gostaria. O Saramago da Azinhaga cresceu e a sua imaginação acabou por abarcar tudo de todas as maneiras. Padres barrocos e voadores, blimundas e baltasares, uma península que se desprende mar adentro, uma palavra mudada num livro, um poeta pela cidade em busca do poeta que o inventou, a cidade onde todos ficam cegos, um funcionário opaco numa conservatória do registo civil, um messias relutante e revoltado, um elefante em viagem, tudo. E mais polémicas, e indignações, e ideais, e o planeta e a humanidade e tudo. E depois ele mesmo, e um amor encontrado que nem na imaginação dele caberia, e uma mudança para uma ilha estranha, vulcânica. Nessa ilha construiu a sua casa, que com orgulho dizia ter sido feita apenas com as suas histórias, as suas ideias, as suas palavras. O Saramago da Azinhaga e o mundo que ele fez com vinte e poucas letras do alfabeto. Historiador. Deputado independente ao Parlamento Europeu pelo BE (http://twitter.com/ruitavares)