Dário Castro Alves Brasileiro, isto é, português

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Emanuel Pimenta

De um cabeleireiro de homens na cave do centro comercial Apolo 70, em Lisboa, à embaixada de Portugal em Paris, o círculo de amigos de Dário Moreira de Castro Alves nunca foi restrito. O mais português dos diplomatas brasileiros morreu aos 82 anos. Por Kathleen Gomes

"Você quer saber como era o Dário Castro Alves?", pergunta o brasileiro Emanuel Pimenta. "Era um homem baixo, gordinho, com uma voz muito mansa." É a voz com que Emanuel Pimenta fala agora. "Falava muito devagar, como se construísse cada frase cuidadosamente. Como se cada palavra fosse estudada, mas sem afectação. E era um homem estranhamente formal." Estranhamente porquê, se era diplomata? "Porque os brasileiros não são formais - e ele era muito brasileiro."

Muito brasileiro e muito português, como se um implicasse necessariamente o outro. Não só, nem sobretudo, por ter "sangue português antigo" (era descendente dos colonizadores portugueses do estado do Ceará, onde nasceu). Portugal parecia-lhe um déjà vu do Brasil da sua juventude. No breve período em que foi cônsul-geral no Porto, em 1990, contou numa entrevista a Fernando Assis Pacheco, n"O Jornal: "Estou morando aqui há dois meses apenas, dois meses e dias, mas costumo dizer que é difícil me convencer que não passei a infância nesta cidade." Outra entrevista, de 2008: "O Brasil estava atrás de toda a vida lisboeta [no século XIX]. Raspando-se um pouco as velhas paredes de Lisboa, se dá no Brasil. Isso é um facto."

Embaixador do Brasil em Lisboa entre 1979 e 1983, o posto de cônsul-geral no Porto - o último de uma carreira diplomática de 41 anos; aposentou-se a seguir - talvez tenha sido o expediente para satisfazer o seu desejo de regressar a Portugal, como sugere o embaixador português em Paris, Francisco Seixas da Costa, que o homenageou em Dezembro de 2008, quando chefiava a representação diplomática portuguesa em Brasília. "Isso tinha muito a ver com a circunstância de ele ser muito pró-português, um lusófilo militante", diz. Reformado, Dário Castro Alves decidiu radicar-se em Lisboa, onde permaneceu até 2003.

O antigo embaixador brasileiro morreu em Fortaleza, no passado dia 6 de Junho, aos 82 anos. No dia seguinte, Mário Soares, amigo pessoal, escreveu no Diário de Notícias que o desaparecimento de Dário Castro Alves "representa uma grande perda para Portugal". "Foi o embaixador do Brasil mais amigo de Portugal", confirma Amândio Silva, que viveu 13 anos no Brasil como exilado político (fez parte do grupo antifascista liderado por Palma Inácio que em 1961 desviou um avião da TAP) e foi conselheiro da embaixada portuguesa no Rio de Janeiro entre 1984-92. "Nós, portugueses, lhe devemos demais."

Segundo Francisco Seixas da Costa, Castro Alves "fez parte de uma geração brasileira de diplomatas - mas não só - que tinha uma grande simpatia por Portugal. É uma geração que está a acabar, politicamente e culturalmente". Quando decidiu permanecer em Portugal, aos 61 anos, o embaixador brasileiro optou pela dupla nacionalidade. "Sou um cidadão das duas pátrias", disse em 1995.

O que é que Dário Castro Alves tinha? "Foi o embaixador mais importante ao nível das relações Portugal-Brasil", diz Amândio Silva. "Não houve ninguém que tenha sido tão empenhado no reforço dessa ligação." E a sua relação com Portugal não se limitou ao exercício das funções diplomáticas - aliás, prosseguiu, tão ou mais intensamente, na actividade social e cultural que desenvolveu depois de deixar o cargo. Como resume Guilherme d"Oliveira Martins, presidente do Centro Nacional de Cultura (do qual Castro Alves era sócio honorário), "entre os embaixadores do Brasil em Portugal, e houve extraordinários, ele marcou indiscutivelmente pela sua passagem no posto, mas conseguiu ser mais do que isso".

Doente por Eça

Foi, todos o lembram, um amante, estudioso e divulgador da obra de Eça de Queirós, sobre a qual escreveu cinco livros, entre eles a trilogia Era Lisboa e Chovia (1984), revisitação da Lisboa queirosiana, Era Tormes e Amanhecia (1992), um dicionário das referências gastronómicas presentes na obra de Eça, em dois volumes e com mil páginas, e Era Porto e Entardecia (1994), um A a Z de todos os vinhos e bebidas alcoólicas, "do absinto à zurrapa", mencionados nos romances do escritor. Um levantamento pioneiro, no seu género. "Notava eu que muitos e muitos brasileiros que passavam por Lisboa, onde eu servia como embaixador, sabendo que eu tinha interesses em Eça de Queirós, me vinham perguntar onde se deram tais e tais cenas, presentes nos grandes romances de Eça", explicou numa entrevista de 2008. "Dinah [a primeira mulher] então me assinalou que seria um tema interessante, considerando que Eça era uma personalidade viva na sensibilidade brasileira."

No prefácio de Era Tormes e Amanhecia, o escritor Jorge Amado escreve: "Dário sabe Eça de cor e salteado e ninguém sabe mais de Lisboa do que esse ex-embaixador que fez da diplomacia uma escola de convivência, de verdadeiro intercâmbio cultural: letras e artes, vinhos e comidas. O que deviam fazer todos os embaixadores e em geral não fazem."

Eça, reconheceu na entrevista a Assis Pacheco, era para ele "uma doença". "E ela atacou os brasileiros da minha geração e da geração anterior." A paixão vinha-lhe dos tempos de liceu. "Praticamente todos os meus professores eram queirosianos." Em 1995 disse: "Acredito que, de tanto estudar a literatura portuguesa, quando eu era aluno de colégio (ou liceu, como se diz em Portugal), de tanto ler a literatura clássica portuguesa, me ficou, talvez inconscientemente, um grande amor, uma acendrada admiração pelas coisas portuguesas, que aliás se projectou ao longo da minha vida."

"Ele tinha dois apartamentos - um para viver, outro só para os livros", diz Emanuel Pimenta. "Na casa dele tinha um gabinete onde passava horas e horas todos os dias. A vida inteira dele era ler, analisar, traduzir." Era "um homem muito voltado para as questões literárias", recorda Francisco Seixas da Costa. "Foi casado com uma grande escritora brasileira, Dinah Silveira de Queiroz, que o suplantava em termos de visibilidade como figura da cultura brasileira."

Numa entrevista em 2008, Castro Alves conta: "Dinah insistia muito para que eu me convertesse num escritor, ao que eu reagia dizendo ser, antes de tudo e sobretudo, um funcionário diplomático."

No entanto, segundo Seixas da Costa, ele tentou várias vezes ser membro da prestigiada Academia Brasileira de Letras, mas nunca entrou - ao contrário de Dinah, que foi a segunda mulher a ser admitida. Em Portugal, associou-se a cerca de duas dezenas de instituições e clubes ligados aos meios literários e culturais - além do CNC, era membro da Academia das Ciências de Lisboa, do restrito Círculo Eça de Queirós, da Sociedade de Geografia de Lisboa, do Grémio Literário, da Academia Portuguesa de Gastronomia, e da Confraria do Vinho do Porto, entre outros.

Adriano Rodrigues, motorista de Castro Alves entre 1995 e 1999, lembra: semanalmente, às quartas-feiras conduzia-o à Academia Portuguesa de História e ao Círculo Eça de Queirós, às quintas-feiras à Academia das Ciências... O ex-embaixador falava-lhe da floração dos jacarandás de Lisboa duas vezes por ano - "uma vez na Primavera, motivada pelo clima, e no Outono, porque têm uma memória biológica" da chegada da Primavera no Brasil, de onde são provenientes - e das Memórias de Brás Cubas, de Machado de Assis.

Emanuel Pimenta (que é o autor do retrato de Castro Alves que publicamos nestas páginas) lembra que no começo dos anos 90 almoçavam todas as semanas, só os dois. "E descobríamos tascas nos lugares mais inesperados. Ele amava descobrir os segredos da culinária portuguesa, o que havia de mais autêntico. Era um grande especialista em vinhos. De cada vez que a gente saía, era uma aula."

Diplomacia rendilhada

Nascido em Fortaleza, no Nordeste brasileiro, em Dezembro de 1927, Dário Castro Alves formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais em 1949 e, nesse mesmo ano, ingressou no serviço diplomático. O seu primeiro posto no exterior foi em Buenos Aires (1955-58), a que se seguiram as Nações Unidas, em Nova Iorque, Moscovo (1962-65), Roma e Lisboa. Além de ter desempenhado cargos de chefia no Ministério dos Negócios Estrangeiros brasileiro, foi embaixador do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington (1983-9), e presidente do conselho permanente da OEA (1984).

O seu papel como "embaixador cultural" costuma sobrepor-se a tudo o resto, mas isso, segundo Guilherme d"Oliveira Martins, "é esquecer a sua experiência no plano das relações multilaterais na OEA", que lhe permitiu ser "um auxiliar precioso" no lançamento das bases da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Para Oliveira Martins, Castro Alves faz parte do "triângulo fundamental" para a criação da CPLP, juntamente com o embaixador José Aparecido de Oliveira, considerado o "pai" da CPLP, e o ex-Presidente brasileiro José Sarney. Também Amândio Silva sublinha que o contributo de Castro Alves para a aproximação entre Portugal e o Brasil transpôs o plano cultural, "que é a face mais visível". E defende que a cooperação entre a Embraer (Empresa Brasileira de Aeronáutica) e a OGMA (de que a Embraer é a principal accionista) deve alguma coisa ao ex-embaixador brasileiro.

"Era um diplomata muito experimentado, com uma grande sensibilidade e muito determinado", diz Oliveira Martins. Praticava "uma diplomacia rendilhada", descreve Amândio Silva. "Era uma pessoa que jamais cometeria uma gaffe do ponto de vista diplomático." Foi um dos fundadores da Fundação Luso-Brasileira para o Desenvolvimento do Mundo de Língua Portuguesa, criada em 1993, cuja missão, explica Amândio Silva, que também fez parte dos seus dinamizadores, "era articular acções entre Portugal e Brasil, de forma directa e bilateral, com uma extensão, sempre que possível, aos restantes países de expressão portuguesa".

Também era "um defensor racional" do Acordo Ortográfico, nota Oliveira Martins. Via o português como "uma língua do mundo e não apenas da Europa - uma língua universal", e entendia que a uniformização ortográfica podia facilitar a actividade editorial, evitar a criação de guetos linguísticos "que só seriam empobrecedores", e proporcionaria uma maior projecção internacional da língua.

Tinha uma erudição fecunda, lembra Adriano Rodrigues. "Ele funcionava como uma autêntica Internet: a gente perguntava, e ele respondia imediatamente." Era uma figura prolífica, diz Francisco Seixas da Costa: "O Dário escrevia sobre tudo." E em todo o lado, da imprensa nacional aos jornais de província. Seixas da Costa lembra-se de lê-lo na Voz de Trás-os-Montes. "Nunca percebi como é que ele foi parar a Trás-os-Montes...", ri-se.

Além de queirosiano ("Os brasileiros não dizem "queirosiano", dizem "eciano"", esclarece-nos Adriano Rodrigues), Castro Alves era "pushkiniano". Em 2008 publicou no Brasil a primeira tradução do russo para português do romance em verso Eugénio Onegin, de Pushkin, um trabalho que o ocupou durante nove anos. "Não posso dizer que todos maciçamente dedicados a Pushkin", disse em 2008, "mas era uma preocupação constante, um quase pesadelo. Para os travesseiros levava sempre notinhas, para fechar as rimas que faltavam." Emanuel Pimenta, músico e artista multimédia, lembra-se desses papelinhos de "quatro ou cinco linhas". Por vezes, o ex-embaixador tinha-os consigo quando almoçavam. E dizia: "O meu ritmo é traduzir três versos a cada três dias."

O jornalista e director do Jornal de Letras, José Carlos Vasconcelos, conta: "Uma vez que fomos ao Brasil juntos, ele estava do outro lado do avião, era o único com a luzinha acesa e eu via-o a mexer os dedos. Disse-me que estava a contar as sílabas porque andava a traduzir o Pushkin." Nos últimos anos, também estava a reler a ficção de Camilo para fazer o mesmo que fizera com Eça: verter para dicionário todas as referências à gastronomia e enologia na obra do escritor.

O barbeiro do Apolo 70

Regressou para Fortaleza em 2003, depois de a segunda mulher, Rina Bonadies de Castro Alves (que fora sua secretária, e com quem casou após a morte de Dinah), morrer, em 2002. José Carlos Vasconcelos acredita que Castro Alves "só saiu de Portugal por força da necessidade". Nos últimos anos, o seu estado de saúde foi-se deteriorando e em Fortaleza tinha apoio familiar. "Mesmo em Fortaleza", diz Oliveira Martins, "foi mantendo o contacto com os amigos." Quase todos os que o P2 ouviu falam nas suas cartas.

"Sempre que nos encontrávamos, pedia-me para transmitir um abraço ao sr. Pinto", diz Francisco Seixas da Costa. O sr. Joaquim Pinto tem um salão de cabeleireiro de homem na cave do Apolo 70, em Lisboa, e a porta está aberta quando praticamente todas as lojas do centro comercial já encerraram, perto das nove da noite. À entrada, junto da caixa registadora, há um recorte na parede da revista Focus, intitulado "Os barbeiros do poder", e lá está o sr. Pinto, com a sua equipa, e a citação: "O nosso papel é responder, não é perguntar." Credenciais: "Fui o último que cortei o cabelo ao Sá Carneiro antes de ele morrer." E: "Fui cabeleireiro de três primeiros-ministros." Resumindo: passam-lhe pelas mãos as cabeças "da alta sociedade". Mas declara-se "um modesto cabeleireiro".

Há uma fotografia do sr. Pinto a cortar o cabelo a Dário Castro Alves que está na casa do ex-embaixador em Fortaleza. "Ele dizia que esta era a segunda casa dele", lembra o cabeleireiro. Também sabe que quando Castro Alves foi homenageado em Brasília, em 2008, o seu nome foi referido. "Ele estava no Porto e vinha sempre cortar o cabelinho aqui." O cabelo penteado em ondas, sobre a testa. "Mal ele faleceu, passado cinco minutos recebi a notícia."

Joaquim Pinto tira um livro de um armário envidraçado a que chama "a biblioteca", onde guarda os volumes que os seus clientes lhe oferecem. Abre o Roteiro de "Os Maias" de Eça de Queiroz e de Todas as Comidas e Bebidas e expõe a dedicatória, em letra miudinha: "Ao caro e ilustre Fígaro - Mestre Joaquim Pinto -, quisera ser um Rossini para louvar-lhe as glórias! Saudações amigas de Dário Castro Alves." O sr. Pinto emociona-se. "Havia uma particularidade no Eça de Queirós de que eu falava com ele [Castro Alves]: a casa dele é em Baião, frente a Resende. Eu sou de Resende. A casa dele fica na margem direita do Douro, eu sou da margem esquerda."

Quando Dário Castro Alves morreu, Emanuel Pimenta escreveu um pequeno texto, uma evocação sentimental do seu amigo, e enviou-o a todos os seus contactos no e-mail. Terminava assim: "Dário de Castro Alves, tão amado em tantos lugares, era uma daquelas pessoas que nunca deveriam morrer."

Por iniciativa do actual embaixador do Brasil em Portugal, Celso Marcos Vieira de Souza, realiza-se hoje a missa de 7.º dia em memória de Dário Castro Alves, às 18h10, na Basílica dos Mártires, ao Chiado, em Lisboa.