Uma tragédia grega

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O maior projecto político europeu vê-se seriamente ameaçado pela falta de grandeza política e de líderes visionários

Apesar dos líderes europeus terem aprovado uma linha de crédito de apoio à Grécia de 134 biliões de euros, a pressão sobre os mercados e países da zona euro não abrandou. Deste modo, os receios de que a crise se arraste epidemicamente à Espanha, a Portugal, à Irlanda e, mesmo, à Inglaterra e aos EUA têm aumentado, colocando todos os agentes políticos e financeiros à beira de ataque de nervos. Desta maneira, na quinta-feira dia 6 os mercados financeiros mundiais viram-se confrontados com uma queda de 1000 pontos no índice Dow-Jones, apenas em 12 minutos, provocando assim o pânico financeiro generalizado. Verificando-se posteriormente que resultou, alegadamente, do nervosismo instalado e erro nos sistemas de trading de altíssima velocidade. Felizmente, descoberto o erro, o mercado rapidamente recuperou, fechando a sessão com uma perda "apenas" de 3,2 por cento.

A falta de liderança na UE na resolução da presente crise é gritante, pois agiu tarde e sem convicção, por razões de política doméstica, permitindo o alastramento da crise e abrindo feridas profundas de confiança política entre os parceiros europeus. "A União Monetária Europeia simplesmente não está preparada para o mau tempo", afirmou Janis A. Emmanouilidis, analista do European Policy Center em Bruxelas, acrescentando que não existem na Europa mecanismos de controlo para lidar com questões de incumprimento por parte dos seus membros. Neste sentido, a liderança em situações de crise torna-se fundamental. De acordo com o porta-voz do primeiro-ministro grego, Theodoros Pangalos, "os líderes europeus não têm estado à altura da tarefa", afirmando ainda: "Se Delors estivesse em funções na Comissão Europeia, Mitterrand na França, e Helmut Kohl na Alemanha, tudo seria muito diferente."

Herman van Rompuy, presidente da UE, esteve praticamente invisível nos esforços de coordenação dos líderes dos respectivos países. Um deputado francês do Parlamento Europeu assertivamente perguntava: "Onde está o presidente europeu?? Onde está o presidente da Comissão Europeia?? Estão à espera do colapso do euro???" Jean Monet, Robert Shuman e Konrad Adenauer estão às voltas no túmulo.

A liderança europeia falhou em toda a linha (como tinha acontecido já com as cinzas vulcânicas). E é desta maneira que o FMI aparece no meio da bruma como a última instituição de apoio inabalável à crise grega, algo que os europeus mais receavam e muito menos desejavam.

A inércia europeia motivou mesmo três telefonemas de Barack Obama à chanceler alemã, Angela Merkel, expressando a sua ansiedade, apoio e encorajamento no sentido da sua rápida intervenção, de modo a atenuar a virulência da crise. A falta de liderança e de um governo central europeu que regule o seu funcionamento e garanta o cumprimento das responsabilidades são algumas das fragilidades que enfraquecem a economia europeia e o euro. Por outro lado, não há um único governo, não há uma efectiva coordenação da política fiscal, não há mecanismos para gerir crises desta dimensão e o Banco Central Europeu não tem as competências institucionais para cumprir a sua tarefa. Por isso, os atrasos na tomada de decisões na Europa são inevitáveis, dado que qualquer grande decisão tem que ser negociada entre os estados-membros.

Os EUA têm cerca de uma dezena de estados em falên- cia técnica, nomeadamente a Califórnia, porém, o Governo Federal Americano em Washington assegura o cumprimento e responsabilidades de todos os estados norte-americanos, evitando, deste modo, que crises como esta aconteçam. Neste sentido, alguns analistas políticos argumentam que é preciso mais integração política, fiscal, económica e financeira na Europa. Perante a presente crise, não existe qualquer dúvida que ou a Europa caminha de forma decisiva e vigorosa para uma federação, com mais poderes, responsabilidades no âmbito de um novo quadro institucional ou inevitavelmente assistiremos ao fim do euro e, porventura, da UE.

De acordo com o prémio Nobel da economia, Paul Krugman, existem três soluções: a primeira, é os trabalhadores destes países redimirem-se aceitando os cortes draconianos nos seus salários. Segunda, passa pelo BCE implementar uma política económica expansionária, comprando a dívida destes países e aceitando a inflação daí resultante, e a terceira é Berlim tornar-se para a Europa o que Washington é para os EUA, isto é, um governo central europeu forte com uma política fiscal forte, de forma a auxiliar os seus vizinhos mais fracos. Porém, nada disto parece politicamente plausível. Deste modo, assistiremos a algo muito parecido com a crise da Argentina em 2001 com a desindexação da sua moeda ao dólar e a consequente corrida aos bancos. Algo tomado, então, como impossível, à semelhança do que acontece agora com a saída quase certa destes países do sistema da moeda única.

Finalmente, na sexta-feira dia 7 os 16 países da eurolândia reunidos de emergência aprovaram um mecanismo de estabilização da moeda, o qual abre caminho para a obtenção de empréstimos por parte da Comissão Europeia para apoio às economias dos membros mais fracos.

Deste modo, o maior projecto político da História Europeia, que permitiu 60 anos de paz na Europa Ocidental em 2000 de guerra, permitiu uma prosperidade sem precedentes, permitiu uma moeda única e um espaço único sem fronteiras de Portugal aos Balcãs, vê-se seriamente ameaçado pela falta de grandeza política e de líderes visionários. Os grandes momentos da História fazem os grandes líderes e, ao contrário da tragédia grega, pode ser que o desfecho desta história tenha, afinal, um final feliz. Professor e investigador, Universidade do Texas - EUA/ Universidade Nova de Lisboa