Já que não se pode desvalorizar o escudo, há quem defenda o corte nos salários

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Paul Krugman

Para um problema grave de falta de competitividade, há quem peça medidas bem mais radicais do que a as adoptadas até agora. Nos últimos anos, uma série de economistas - estrangeiros e portugueses - tem defendido que a única forma de Portugal conseguir evitar um período de estagnação económica é com um corte abrupto e doloroso dos salários. A ideia já é ouvida em conferências e escrita em artigos de jornais desde o início da década, mas com a crise em que Portugal e os outros países periféricos da zona euro entraram nos últimos anos, voltou outra vez à ribalta.

Em 2006, Olivier Blanchard escreveu um artigo que marcou este debate. O economista francês, agora a liderar o departamento de estudos económicos do FMI, iniciava o seu texto com um diagnóstico pessimista: "A economia portuguesa está em sérias dificuldades. O crescimento da produtividade é anémico, o crescimento da economia muito baixo, o défice público elevado e o défice externo extremamente alto."

E uma das soluções apresentadas para todo este conjunto de problemas era o corte em 20 por cento do valor nominal dos salários dos portugueses. A lógica por trás desta medida radical é a de que, estando Portugal na zona euro e não havendo a possibilidade de desvalorizar a moeda, a única forma de recuperar rapidamente a competitividade perdida é diminuir os salários. De outra forma, só com moderação salarial e subidas progressivas da produtividade, continuaremos durante muito tempo a perder em termos de custos para os nossos concorrentes, ficando condenados a vários anos de desemprego acima de 10 por cento, defendia Blanchard.

Esta ideia - que em Portugal teria também um sério obstáculo de ordem constitucional na sua passagem à prática - está longe de recolher o consenso entre os economistas. São muitos os que assinalam que uma descida desta ordem dos salários nominais colocaria Portugal num processo deflacionista grave, que embora pudesse aumentar a competitividade no curto prazo, poderia colocar em causa por vários anos a força da procura interna e a capacidade de melhorar a qualificação da mão-de-obra.

Mesmo Vítor Constâncio, que no Banco de Portugal sempre tem defendido uma política de moderação salarial, é contra esta opção mais dolorosa. Para Constâncio, um corte nos salários não resolveria os problemas concorrenciais que países como a China têm vindo a colocar a Portugal, para além de poder criar problemas sérios ao sistema bancário, que veria o crédito malparado disparar e a sua estabilidade ameaçada.

Na semana passada, outro economista, Paul Krugman, regressou ao tema, concordando que os países periféricos da zona euro, como Portugal, precisariam de um corte salarial face à Alemanha de entre 20 e 30 por cento. O prémio Nobel, contudo não acredita que seja possível passar à prática uma correcção deste tipo, concluindo, por isso, que o problema está no modelo, que considera inviável, criado com o euro.

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