Brancos por fora, negros por dentro

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Hip-hoppers respeitáveis os Mind da Gap são fãs dos clássicos do género e das suas bases: a soul; o groove e a negritude Paulo Ricca

Não mostrem aos Mind da Gap hip-hop cheio de ruído, esquisitices "avant" ou grime. Ace, Presto e Serial preferem os clássicos, dos Wu-Tang Clan a Dr. Dre, mas também admitem algum (pouco) rock ou mesmo baile funk. Eis o retrato robô do que ouviu ontem, nos anos de formação, e do que ouve hoje o trio do Grande Porto, traçado a partir da "jukebox" do Ípsilon. O grupo tem novo disco, "A Essência". O título diz tudo.

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Não mostrem aos Mind da Gap hip-hop cheio de ruído, esquisitices "avant" ou grime. Ace, Presto e Serial preferem os clássicos, dos Wu-Tang Clan a Dr. Dre, mas também admitem algum (pouco) rock ou mesmo baile funk. Eis o retrato robô do que ouviu ontem, nos anos de formação, e do que ouve hoje o trio do Grande Porto, traçado a partir da "jukebox" do Ípsilon. O grupo tem novo disco, "A Essência". O título diz tudo.

Num canto exíguo do Breyner85, um bar da Baixa do Porto, damos início ao exercício de adivinhação com "Drifting", do primeiro disco dos Marxman, de 1993. Não identificam os autores, mas foi num concerto dos irlandeses, na primeira parte dos Depeche Mode, no Estádio das Antas, nesse mesmo ano, que Ace e Presto, dupla de MC do grupo, se conheceram. Eram dois dos "cinco gajos vestidos à rap", conta Presto.

Premimos o botão "next" e eis-nos em "A verdade", canção incluída em "Rapública" (1994), compilação chave na fundação do género em Portugal. Ace arrisca: "MC Solaar?". A influência jazz está lá, mas a gravação da voz, ainda algo amadora, denuncia a origem: "Boss AC".

Em 1993, pré-história do hip-hop nacional e ano de fundação dos Da Wreckaz (que mudariam o nome para Mind da Gap no ano seguinte), Presto foi a Lisboa com membros da outra banda de hip-hop do Grande Porto, os Reunion of Races. "Metemo-nos na camioneta ou no comboio e estivemos o dia inteiro a confraternizar e a mandar rimas no meio da rua. Conhecia o General D, mas não o resto das pessoas. Fiquei muito surpreendido por ver que havia mais bandas em Lisboa. Cá no Porto não havia praticamente nada. Tinha dois ou três amigos em Matosinhos que gostavam de rap e conheci o Ace e o Serial. E éramos só nós."

Se a resposta "Boss AC" ainda levou alguns segundos a surgir, "Expresso do submundo", dos Dealema, um clássico subterrâneo de 1996, ou "Serviço Público", de Valete, foram detectadas instantaneamente. O segundo entra no novo disco dos Mind da Gap, os primeiros foram apadrinhados por Ace, Presto e Serial durante os primeiros passos. "O Mundo [membro dos Dealema] era o gajo da rua de trás. Em frente ao meu prédio havia um corredor que juntava os dois prédios", recorda Ace. "Via-os com calças largas, andavam de skate... Paravam na praceta onde o pessoal do centro de Gaia se encontrava. Apercebia-me [de que existiam], mas não os cumprimentava. Mas depois, quando comecei a 'tagar' [pintar assinaturas] paredes, deixavam-me recadinhos por baixo dos 'tags'."

Ace chegou a ter um projecto com os Dealema, os Mafilia, "um trocadilho de 'máfia' com 'família'. "Era a altura do rap de Nova Iorque, que era o que ouvíamos mais. Andávamos todos numa de 'gambinos'", recorda Ace, a rir-se. Sendo os três fãs do hip-hop da costa Leste americana do início dos anos 1990, não se estranha que acertem logo quando apostamos em "C.R.E.A.M.", dos Wu-Tang Clan. "Se fizermos as contas, a proporção será exageradamente a pender para Nova Iorque. Mas havia coisas de Los Angeles [e da costa Oeste] de que gostávamos - já não falo de Snoop Dogg e Dr. Dre -, coisas mais obscuras". Da costa Oeste, ouviam o hip-hop alternativo dos Souls of Mischief e Pharcyde, Del tha Funkee Homosapien e vários "gajos de Oakland, fora do baralho."

Nos longínquos anos 90, os discos eram comprados a conta-gotas, em idas a terras longínquas à procura de um emigrante que "tinha voltado de França" com discos de hip-hop ou em viagens a Londres de Serial, para comprar roupa para a sua loja de "streetwear", talvez "a primeira do país". "Não teve muito sucesso. Só nós comprávamos lá roupa - e metíamos na conta. Nós e a [estilista] Maria Gambina", recorda Ace.

Jovens aprendizes, liam a revista "Source", para muitos a bíblia do hip-hop, e viam vídeos no "Yo! MTV Raps", enquanto a maioria dos amigos se dedicava ao rock. Fazemos o teste com um hino grunge de 1992 - guitarras a meio gás, uma voz talhada para festivais rock. "Pearl Jam?", perguntam a medo. Errado: "Plush", dos Stone Temple Pilots. Presto: "Lembro-me de, no liceu, toda a gente adorar Nirvana. Eu era o 'rapper'. Tinha uma t-shirt, que adorava levar para o liceu, que tinha o Kurt Cobain com uma pistola apontada à cabeça. Depois de ele morrer, levava a t-shirt e o pessoal passava-se. Andava com ela para os irritar."

Dêem-lhes "groove"

Eis um trio que pouca atenção prestava ao rock que se fazia no estrangeiro, mas também na cidade (não acertaram em "Punk Moda Funk", do primeiro álbum dos conterrâneos Ornatos Violeta, de 1997). "Mesmo dos Radiohead, que têm muita experimentação e não são tão fininhos, não consigo ouvir mais de três músicas - falta-me grave. Ouvia Public Enemy e Faith No More, até porque o gajo cantava no registo rap. Mas faltava ali uma frequência baixa. Ainda hoje me faz confusão nos ouvidos. Estou habituado ao 'kick' e ao grave, ao meu corpo vibrar com a música de uma maneira específica", explica Ace. O amor ao baixo até o leva a reconhecer algumas virtudes ao baile funk, "uma espécie de gangsta rap à brasileira."

Hip-hoppers respeitáveis, os Mind da Gap são fãs dos clássicos do género e das suas bases. "Mothership Connection (Star Child)", maravilhosa "funkalhada" dos Parliament de 1976, põe Serial, o produtor, a falar de onde vai buscar as bases dos seus instrumentais. "Tenho um amigo, o Pedro Tenreiro [dono da discoteca Pitch e DJ n'Os 7 Magníficos], que tem montes de discos. Exploro muito os discos que ele tem e os meus discos. Não ando à procura [de 'samples']... Ouço de tudo - nas coisas menos prováveis, às vezes, encontras coisas. A base é música negra, mas não abdico de ouvir outras cenas. Por exemplo, jazz espiritual - gosto muito. São coisas muito difíceis de 'samplar', não têm um tempo fixo, tens de estar muito concentrado para perceber que aquilo dá um 'loop'."

"A Essência" é um disco que vive mais dos "samples" e menos dos sintetizadores de Serial. "O 'Edição Ilimitada' [o disco anterior, de 2006] foi a primeira vez que comecei a usar sintetizadores. O disco foi para Nova Iorque para ser misturado pelo Troy Hightower sem referências de níveis. O Troy interpretou mal o que foi enviado e muitos sons que deviam ficar quase como cama ganharam um destaque que não deviam ter", explica Serial. "Não quer dizer que este novo disco não tenha arranjos de sintetizadores..."

Aproveitamos a deixa e mostramos-lhes "I'm A Slave 4 U", de Britney Spears. Torcem o nariz à primeira, mas acabam por ficar a apreciar o instrumental de cetim dos Neptunes. A pop e o R&B modernos interessam-lhes? "Em termos de produção interessam-me. Estes gajos - os Neptunes, o Timbaland - têm qualidade, fazem cenas muito bem feitas. Todo o processo de produção é incrível", reconhece Serial, que os ouve "mais como profissional" do que como fã. "Às vezes, dá-me para ligar a MTV para perceber o que é que se anda a fazer."

Também no domínio dos "multiplatinados", como lhes chama Ace, voltam a preferir o hip-hop - as cabeças a abanar ao som de "Outta Control", de 50 Cent, confirmam-no. "Nunca julgámos as coisas por serem comerciais", sublinha Serial. "Não há essa fronteira. Hoje em dia a diferença é entre o plástico e o não plástico. Plástico é tudo soar ao mesmo, parecer que as coisas foram todas feitas por um computador - e foram."

Todos os indícios indicavam que os Mind da Gap não são muito dados a aventuras. Um tema dos Dälek, hip-hop experimental sem ponta de oxigénio, mergulhado em ruído, confirma as suspeitas e desperta a língua viperina de Ace. "O rap de que gostamos tem muita soul, muita alma. Estes gajos são muito intelectuais", atira. "O jazz de fusão, o jazz rock e o free jazz chegam a ser cerebrais, mas disso gosto porque encontro ali um resto de 'groove', no fundo, de negritude. Apesar de sermos os três brancos por fora, somos negros por dentro. A música de que gostamos tem toda origem na música negra".

Nem gente como o londrino Dizzee Rascal, artista grime, cruzamento de hip-hop com géneros como o UK Garage, lhes interessa (Serial quis ouvir um pouco mais de "Jus' a Rascal" para perceber o que é afinal isso do grime), apesar de Ace conceder que o primeiro disco de The Streets, apesar do "som merdoso", é "engraçado". Entre os artistas contemporâneos, elegem os Sa-Ra Creative Partners, Cool Kids e Black Spade. Tudo "gajos que derivaram do hip-hop, mas apanharam a nave. Um pouco como o George Clinton, dos Parliament e dos Funkadelic.