Na ementa da lula-vampiro

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"A primeira coisa que precisam de saber sobre o banco Goldman Sachs é que ele está em todo o lado. É uma gigantesca lula-vampiro enrolada na cara da humanidade, com o seu tubo de sucção alimentar incansavelmente fossando em busca de tudo o que lhe cheire a dinheiro."

Um dos meus pequenos orgulhos enquanto leitor é ter descoberto o autor (e ex-basquetebolista) Matt Taibbi há cinco anos, bem antes de ele ser famoso por algumas das metáforas mais invulgares e memoráveis que a imprensa escrita já viu.

Nos últimos dias vi ser utilizada várias vezes a sua descrição do banco Goldman Sachs, que reproduzo acima, para descrever as últimas descobertas sobre as práticas predatórias (e possivelmente fraudulentas) deste banco. Segundo agora se sabe, o banco escondia o risco de investimento em alguns dos seus produtos financeiros (os CDO) por detrás de uma estrutura propositadamente confusa. Este obscurecimento é aquilo a que o economista Erik Gerding chamou de "complexidade intratável", e é comum a vários dos produtos financeiros da crise. A hipótese de fraude é que o Goldman Sachs talvez utilizasse o mesmo esquema para esconder o favorecimento de certos clientes.

O banco tem dado duas respostas a estas acusações. A primeira: toda a gente fazia o mesmo! A segunda: mas nós éramos transparentes!

A réplica à primeira resposta poderia ser: o problema é isso mesmo. Não só o Goldman Sachs, mas todos os atores em cena, eram lulas-vampiro gigantes. Todos enganavam por dinheiro. À segunda resposta pode dizer-se que eles se enganam a si mesmos.

Tecnicamente, é verdade que os produtos eram "transparentes". Mas a transparência não é o antídoto para a complexidade. O antídoto para a complexidade é, simplesmente, a simplicidade. Se os produtos eram tão intratáveis que se tornaram num risco e provocaram uma crise, não deveriam ter sido vendidos. Os recursos humanos e financeiros que foram gastos neles deveriam ter ido para algo de útil. Para resolver algum problema realmente complexo, e não para criar complexidade artificial que servia principalmente para criar uma vantagem competitiva para uma minoria.

Tenho más notícias: a próxima refeição da lula-vampiro gigante é um pequeno país chamado Portugal.

Os sinais estão todos aí. A imprensa financeira interessou-se agora pelos nossos problemazinhos, às vezes com boas intenções, outras vezes com más, e agora vêem em nós o próximo causador de problemas euroglobais. Somos uma espécie de vulcão Eyjafjallajokull para economistas.

Não vale a pena negá-lo; não vale a pena, como fez o ministro Teixeira dos Santos, chamar ignorantes aos bem-intencionados ou mal-intencionados economistas estrangeiros. Negar, com razão ou sem ela, provavelmente só servirá para aumentar o perigo.

Por outro lado, isto não se vai resolver com um PEC tão esperto ou tão estúpido como os outros - e acima de tudo lento. Isto só vai lá com uma batalha em Bruxelas: explicar aos nossos parceiros que assim podemos acabar com o euro e amputar definitivamente a União.

Porque o problema é político e a Europa ainda não o resolveu. Após muita hesitação, lá prometeu dinheiro a sério para salvar a Grécia (30 mil milhões de euros), mas não foi capaz de garantir à partida algo que lhe saía de graça: coesão política.

Vendo que os países europeus não são solidários entre si, a lula-gigante passou à próxima vítima.

Preparem-se.

Historiador. Deputado independente ao Parlamento Europeu

pelo BE (http://twitter.com/ruitavares)