Custo da dívida pública portuguesa ultrapassa a Irlanda pela primeira vez desde o início da crise

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A crise grega está a ter efeitos em toda a zona euro AFP PHOTO/ LOUISA GOULIAMAKI

Os mercados continuam a colar Portugal à Grécia, apesar de o país ter números menos desfavoráveis do que a Irlanda nas suas finanças públicas

Apesar de estar a prever um défice público mais baixo para este ano e de ter menos problemas no seu sistema bancário, Portugal voltou ontem, pela primeira vez desde o início da crise financeira internacional, a ter de pagar taxas de juro mais elevadas do que a Irlanda, um sinal da desconfiança que os mercados estão a ter relativamente à situação das finanças públicas nacionais.

O dia de ontem intensificou a pressão que se faz sentir há várias semanas sobre a Grécia e Portugal nos mercados obrigacionistas internacionais. O principal indicador dessa pressão tem sido o alargamento do diferencial de taxas de juro dos títulos de dívida a dez anos destes dois países face à Alemanha, o país que na zona euro menos juros tem de pagar no financiamento que solicita aos mercados.

E, ontem, o diferencial de Portugal passou de 139 para 153 pontos base (1,53 pontos percentuais). Esta subida de 14 pontos foi o suficiente para que Portugal ultrapassasse a Irlanda, que sofreu ontem um agravamento do spread de apenas 4 pontos, passando para os 151 pontos.

No início da crise financeira, a Irlanda foi, na zona euro, o país que, a par da Grécia, mais suspeitas gerou relativamente à suas finanças públicas. A economia irlandesa tinha entrado em autêntico colapso devido ao rebentamento da bolha especulativa no sector imobiliário e o sector bancário enfrentava problemas de tal forma graves que o Estado decidiu garantir todos os seus compromissos.

A dívida pública irlandesa disparou de 25,1 por cento do PIB em 2007 para 65,8 por cento no ano passado, podendo chegar perto dos 100 por cento em 2011. Para este ano, o défice público previsto é de 14,7 por cento.

Perante estes números, o Governo irlandês colocou em prática um plano de contenção orçamental bastante agressivo, que inclui cortes nos salários dos funcionários públicos. E, talvez por isso, conquistou rapidamente a simpatia das agências de ratings e, aos poucos, dos mercados.

Depois de uma fase inicial a acompanhar a Grécia como os dois países da zona euro com taxas de juro mais altas nas suas emissões de obrigações, tem vindo, desde o início deste ano, a descolar de Atenas.

Portugal, pelo contrário, não está a conseguir fugir à colagem à Grécia que lhe está a ser feita nos mercados. E tudo fica pior num cenário em que Atenas continua a não conseguir resolver os seus problemas.

Ontem, o simples adiamento por dois dias da chegada das equipas do FMI e da Comissão Europeia à Grécia para discutir o plano de ajuda financeira - por causa dos problemas na circulação aérea na Europa - foi o suficiente para que as taxas de juro se agravassem. Como explicava ontem um analista à agência Bloomberg, "o mercado não vai acreditar [na resolução do problema] enquanto o acordo de ajuda não se concretizar".

Para além disso, da Alemanha, continuam a vir sinais de desconfiança em relação à ajuda que é preciso prestar. Foi noticiado ontem que o governador do banco central germânico comentou, numa reunião com deputados, que a Grécia vai precisar de muito mais do que os 45 mil milhões de euros previstos para este ano no plano de ajuda europeu.