Listas abrem brechas na "unidade" de Passos Coelho

Candidaturas ao Conselho Nacional multiplicaram-se. Contra os planos do novo líder. Nuno Morais Sarmento foi o primeiro a desafinar

Paulo Rangel prefere falar mais em coesão do que em unidade. No PSD, entenda-se. E pelo Pavilhão dos Lombos, em Carcavelos, a unidade construída com tanto afinco por Pedro Passos Coelho foi abrindo algumas brechas. Ao longo do dia, multiplicaram-se as listas ao Conselho Nacional, uma tradição no PSD, mas que deixou a entourage do novo líder algo nervosa. O próprio, ao fim do dia, e perante os cenários de balcanização, com mais de uma dezena de listas, afirmou-se contra a "fragmentação" excessiva, mas disse que não poderia apelar para que não se apresentassem mais listas, face à tradição de pluralidade no PSD.

Os sinais começaram na véspera. Nuno Morais Sarmento, ex-número dois de Durão Barroso, esperou pelo fim dos trabalhos, pediu para chamar os jornalistas e tratou de separar águas. Contra o unanimismo e falsas unidades. "A unidade das listas é simbólica e a unidade constrói-se depois disso", afirmou. Fez saber que tinha recebido um convite e que recusou. Independentemente de dizer que será leal, prometeu continuar a combater pelas ideias em que acredita, "sejam maioritárias ou minoritárias". No ar, ficou a hipótese de fazer um discurso em congresso, o que não aconteceu. Ao PÚBLICO, disse rever-se no discurso de Rangel.

Ele que chegou do almoço a dizer que concordava com Sarmento. "Só há unidade se houver pluralismo, se não houver pluralismo, não é preciso unidade para nada." Mas no discurso escrito aos delegados, o eurodeputado confrontou Pedro Passos, na primeira fila, com as suas ideias, incluindo a "tolerância zero" à corrupção, e defendeu que o PSD não pode deixar cair os casos. "Temos de ser exemplares e defender a investigação integral, doa a quem doer e afecte quem afectar, de todos os casos de suspeição, sejam o Face Oculta, o Freeport ou os submarinos".

Luís Filipe Menezes, único ex-líder a passar pelo congresso, tratou de contrariar as ideias do adversário de Passos nas directas. "O primeiro-ministro alimenta-se de ataques pessoais. Os ataques pessoais não levam ninguém ao poder." Mas o PSD, avisou, tem de estar preoparado para todos os cenários. E pediu a Passos para não ter "medo de enfrentar o PS daqui a dez horas, se for necessário fazê-lo".

Antes de Rangel subiu à tribuna Aguiar-Branco. Dirigindo-se a Pedro Passos Coelho, que tratou por tu, lembrou que não é "daqueles" que vão ao congresso para lhe exigir uma vitória. "Não és tu que tens de garantir que o PSD vença as eleições, é o PSD que tem de trabalhar para que sejas tu o próximo primeiro-ministro de Portugal", afirmou, num apelo à mobilização do partido que alguns notáveis não terão ouvido. Manuela Ferreira, Rui Rio, Pacheco Pereira ou Santana Lopes não foram ontem vistos em Carcavelos.

À hora de fecho desta edição faziam-se apostas sobre o número de listas que chegariam à votação de hoje. A mesa do congresso conferia ainda as assinaturas. Para o Conselho Nacional, que movimentou negociações ao longo de toda a tarde, no pavilhão e nas esplanadas, falava-se em mais de uma dezena. E mesmo para o Conselho de Jurisdição Nacional, onde é raro haver uma pulverização de listas, avançava-se a possibilidade de existirem cinco. Mesmo depois do acordo entre Passos e Rangel para "listas conjuntas". Com Maria José Oliveira