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Obama na Viers Mill Elementary School, em Silver Spring - uma das que conseguiram que os seus alunos melhorassem os resultados JASON REED/REUTERS

Não há um currículo único e cada um dos 50 estados tem projectos próprios. Na Carolina do Norte as "escolas-íman" podem estar a fazer a diferença. E servem de inspiração a mudanças que a administração Obama está a ponderar. Por Bárbara Wong, na Carolina do Norte

Magro, de olhos azuis e cabelo louro, Trevor, de 13 anos, não sabe explicar a diferença entre a sua escola e as outras. Sabe que gosta de ali estar porque é onde estão os seus amigos, sabe que gosta de fazer trabalho voluntário - ensina básquete, diz, porque é importante ajudar os outros. Ao seu lado, Gretchen, uma porto-riquenha de grandes olhos castanhos, delineados com lápis e rimel, explica, com um sorriso tímido, que na sua escola aprende mais do que a História da Carolina do Norte ou dos EUA. Acha que está a ser preparada para conhecer melhor o mundo onde vive. Em casa, os pais não querem que fale espanhol, para que aprenda bem o inglês.

Na East Garner Magnet Middle School, no condado de Wake, Carolina do Norte, todos os alunos do 3.º ciclo do ensino básico (do 6.º ao 8.º ano) estão a aprender de acordo com o International Baccalaureate, um programa internacional, que alguns colégios portugueses também aplicam, que tem como mais-valia preparar os estudantes para o ensino superior, dando-lhes ferramentas que podem facilitar-lhes a entrada nas universidades, explica Brandi Bullock, a professora responsável pelo projecto.

Os corredores da escola estão vazios e algumas portas das salas de aula estão abertas. Lá dentro há professores a trabalhar com um ou dois alunos, enquanto outros estão a fazer trabalhos de grupo ou sentados à frente do quadro interactivo, a trabalhar. No átrio do grande auditório, a turma de Teatro está a preparar os cenários para um musical.

O ambiente é o de um colégio privado, mas esta é uma escola pública onde mais de metade dos estudantes recebe apoio dos serviços de acção social. A maioria (55 por cento) é afro-americana; para 26 por cento o inglês é a segunda língua, diz Jessica Burroughs, vice-directora.

Atrair como um íman

No ano passado, a escola ganhou um prémio de excelência dado pela Magnet Schools of America, a organização que reúne este género de estabelecimentos de ensino. Mas o que é, afinal, uma magnet school - ou "escola-íman"?

É uma escola pública com um currículo pensado para alunos que, à partida, têm dificuldade em frequentar a escola. Há currículos, como os da de East Garner, virados para uma educação internacional, mas existem outros, mais centrados nas artes, ciências, tecnologias ou especialmente pensados para crianças sobredotadas. O objectivo é atrair alunos para a escola, daí o nome magnet. Mas não basta ter mais recursos - estas escolas têm mais financiamento do que as outras públicas -, ou melhores condições, como os quadros interactivos. Os alunos são outro ingrediente precioso.

Depois do toque de saída, os estudantes da East Garner (são 1150 para 60 professores) aglomeram-se à porta, à espera do autocarro amarelo com as letras pretas que identificam a sua função school bus. Ao contrário de outras escolas, esta recebe alunos de todo o condado, o que significa que alguns jovens poderão fazer uma hora de viagem.

A intenção é ter uma população o mais diversificada possível (porque se entende que essa é, também, uma arma contra o insucesso), com alunos de famílias muito diferentes. Mais uma vez, a imagem do "íman" é útil para perceber que os bons comportamentos e os bons resultados podem ser conquistados se o ambiente em que se estuda for o mais saudável, justifica Jessica Burroughs.

Nova lei até ao fim do ano

Nas paredes limpas dos corredores de East Garner há convites para bailes, festas e vendas. São os meios que os pais encontram para angariar fundos para a escola, explica Kristine Stead, da associação de pais. O dinheiro reverte a favor dos alunos mais pobres, para pagar as visitas de estudo, viagens de finalistas ou outros projectos.

Nos Estados Unidos, o financiamento das escolas públicas não é centralizado no Governo federal. Este suporta apenas cerca de dez por cento do orçamento dos estabelecimentos de ensino - o restante é do governo estadual e a maior fatia do bolo vem da administração local, do distrito.

Os pais ou empresas da região também contribuem para financiar os projectos das escolas. E existem ainda empresas e fundações nacionais que contribuem. Por exemplo, a Fundação Bill e Melinda Gates tem apostado nesta área, sobretudo porque os resultados dos alunos norte-americanos têm sido muito fracos nos testes internacionais - como os que são feitos no âmbito do PISA (Programe for International Student Assessment), da OCDE, que avalia e compara, em determinadas áreas, as competências dos estudantes de diferentes países.

No último PISA, os EUA ficaram entre os países onde os alunos de 15 anos revelaram ser mais fracos. O que levou o Governo federal a decidir agir e a propor novas medidas para os 50 estados aplicarem.

Em meados deste mês, Arne Duncan, secretário para a Educação, propôs ao Senado alterações à Elementary e Secondary Education Act (ESEA) - uma lei aprovada em 1965 com o objectivo de abrir as escolas às minorias, que é revista de cinco em cinco anos.

A administração Bush já o tinha feito, com um diploma que ficou conhecido por No Child Left Behind (NCLB), que fixou objectivos claros às escolas e aos professores. Neste momento, contudo, Barack Obama considera que há novas prioridades como conseguir que as minorias, as crianças com necessidades educativas e as mais desfavorecidas tenham o mesmo tipo de acesso à educação. O objectivo que se propõe cumprir é que em 2020 todos os alunos do país que concluam o secundário estejam aptos para prosseguir os seus estudos para o ensino superior ou entrar no mercado de trabalho.

O combate ao insucesso escolar (que no secundário ronda os 30 por cento) pode passar por aplicar testes a Inglês e Matemática em todos os anos de escolaridade, por promover sistemas de avaliação das escolas e dos professores, por premiar as escolas com melhores resultados e castigar as que tem piores - que, em último caso, podem até ser fechadas.

A lei vai ser discutida, a nível central e estadual e o Governo Obama gostaria que fosse votada até ao final do ano. Actualmente, os estados estão a analisá-la e a perceber qual a melhor maneira de aplicá-la.

Aproximação

Nos EUA, a educação é descentralizada, cada estado é livre de criar os seus próprios mecanismos de avaliação, bem como os seus currículos. Apesar de haver objectivos delineados a nível nacional, não existe um currículo único, nem uma única maneira de avaliar alunos e professores. Em ultima instância, podem existir 50, tantas quantos os estados federais. E é por esta razão que a administração Obama quer definir algumas regras. Como? Até agora, o orçamento federal para a educação era de apenas cerca de dez por cento. Mas para quem vier a cumprir determinados requisitos pode vir a ser mais.

Se, por um lado, os democratas defendem mais poder central para, de alguma maneira, homogeneizar as escolas do país, por outro, os republicanos consideram que os estados são livres e que a influência federal deve ser cada vez menor. Ainda assim, começa a existir alguma aproximação entre os dois partidos. Algumas das propostas de Obama, no que diz respeito à ESEA, estão muito próximas das ideias dos republicanos. Ambos defendem, por exemplo, mais avaliação das escolas.

Ainda há, contudo, um longo caminho de discussão a percorrer - e que não está livre de sinais contraditórios. A East Garner, no por exemplo, pode estar em perigo. É que se Obama defende escolas com uma população mais diversificada, como já acontece, precisamente, nas "escolas-íman", o novo Conselho de Educação de Wake quer que as crianças frequentem a escola mais próxima de casa. Ou seja, propõe o regresso às escolas dos bairros, o que, no entender de muitos, pode fazer regressar a ideia da escola mais fechada sobre si própria e aumentar as desigualdades no acesso a uma educação de qualidade.

A jornalista viajou a convite do Departamento de Estado dos EUA e a viagem foi financiada pela Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento