Donativos de empresas a causas sociais está a crescer e atingiu 80 milhões em dois anos

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Fundação Serralves

O investimento na comunidade equivale a 1,3 por cento do resultado antes de impostos, mas não passa geralmente por processos rigorosos de gestão

Em pouco mais de dois anos, as empresas portuguesas investiram cerca de 80 milhões de euros em projectos de responsabilidade social, a maior parte dirigidos a crianças.

Um estudo sobre o papel das empresas na sociedade, elaborado pela consultora Sair da Casca (SDC) e que será hoje apresentado em Lisboa, mostra que entre 2007 e 2008, 35 por cento das organizações aumentaram o investimento neste tipo de causas.

Há dois anos, o valor atribuído a organizações não-governamentais e outras instituições representou cerca de 1,3 por cento do resultado antes de impostos das sociedades analisadas, atingindo um total de 65 milhões de euros (mais 38 por cento do que em 2007). Os dados foram obtidos pela análise dos relatórios de sustentabilidade de 45 empresas, acessíveis no site da BCSD Portugal, Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável. Ao alargar o período de análise até 15 de Março de 2010, conclui-se que 51 empresas já investiram cerca de 80 milhões de euros.

Para além da causa "crianças" ser a que mais apoios recebe - a ajuda a idosos ou a pessoas com dependência é vista como menos positiva e mais complexa de comunicar - há uma tendência para centrar esses donativos em instituições que têm mais notoriedade. "Destacam-se na área cultural, a Fundação Serralves e a Fundação Casa da Música, e nas áreas sociais, a Associação Acreditar, o Banco Alimentar contra a Fome, a Cruz Vermelha Portuguesa, a Cais, a EPIS - Empresários para a Inclusão Social, a Fundação Gil e o Refúgio Aboim Ascensão", lê-se no estudo. Na lista dos mais beneficiados também estão incluídas iniciativas locais, como escolas, associações recreativas ou festas populares.

Na hora de seleccionar as instituições, há "relações pessoais, hábitos e muita tendência para apoiar causas e projectos cujo impacto emocional é tão forte que torna difícil uma resposta negativa", diz o relatório.

Ao contrário do que se passa noutras dimensões da empresa, estes apoios não passam por processos rigorosos de gestão e a escolha das entidades a apoiar não é clara: apenas nove por cento das empresas comunicam critérios de selecção. Para além disso, 13 por cento não revelam os montantes em causa.

Nathalie Ballan, da SDC, defende que apoiar a comunidade vai além da "obrigação" das organizações, que "já pagam impostos, salários e cumprem deveres legais". Ainda assim, "parecem menos bons gestores nestas áreas", não incorporando os donativos ou práticas de mecenato no seu negócio. "Não estão habituadas a questionar as suas práticas de filantropia", disse ao PÚBLICO.

Os relatórios de sustentabilidade primam, quase todos, pela ausência de indicadores, objectivos e resultados, ainda que as empresas em causa utilizem estes parâmetros como ferramentas internas de gestão para outras áreas de negócio. Regra geral, as relações com a comunidade são feitas através do departamento de comunicação, opção criticada pelo terceiro sector, "que lamenta a falta de conhecimento que as organizações podem ter das necessidades sociais".

A SDC analisou os relatórios de sustentabilidade de empresas como a CP, Vodafone, PT, BES ou Galp.