João Galamba Somos filhos da madrugada

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paulo ricca

"A minha persona pública existe, em grande parte, devido aos blogues." É bloguista, é deputado do PS. Nasceu em liberdade, em 1976. O mundo que ele conhece já não é o do seu pai. A sua luta não é a mesma e as armas também não.

Com o que é que sonha esta geração. Como é que vive com o seu passado (o seu, o dos pais, o do país). Como é que articula isso com um mundo em mutação acelerada. Com novas influências, inesgotáveis possibilidades, com diferentes fantasmas. Como são, como estão. O que lêem, o que escrevem. Como é que passam do uso privado para o uso público da literatura.

Um exemplo: "Eu sabia que o Baudelaire e o Flaubert eram autores fundamentais no cânone da literatura do século XIX. Depois de ler certos filósofos, percebi porquê. Aquilo que seria uma experiência privada e puramente estética, ganhou uma dimensão de política e crítica da sociedade que não tinha ideia que existia nesses autores."

Esta geração vive fora, estuda fora, trabalha fora. Viaja. Fala inglês. Usa o skype. Está nas redes sociais. Tem novas formas de se dar com os outros, de dizer coisas. "Há pessoas que escrevem melhor sobre si do que sobre a realidade e outras ao contrário; encaixo-me nessa segunda categoria." Ele escreve sobre política, sobre a realidade e essa é uma forma de intervir politicamente. Desde as últimas eleições legislativas, ser deputado é outra.

Epítome desta geração, João Galamba nasceu em 1976. É licenciado em Economia na Universidade Nova. É doutorando da London School of Economics. Trabalhou como consultor. Regressou a Lisboa no final de 2006. Trabalhou na Direcção-Geral dos Assuntos Técnicos e Económicos do Ministério dos Negócios Estrangeiros durante a presidência portuguesa da União Europeia. A partir do Verão de 2008, trabalhou na Unidade de Missão dos Cuidados Continuados Integrados (UMCCI).

No Outono do ano passado, casou com uma mulher de direita.

Fez-se adulto já no "fim da História", para usar a expressão de Fukuyama; ou seja, depois de 1989. Houve uma cisão à qual não assistiu, um mundo que não conheceu. É o resultado destes dois mundos?

Estudei Economia numa faculdade muito liberal, onde o discurso de Fukuyama fazia sentido. E havia uma dissonância entre isso e um conjunto de instintos adquiridos na infância, por influência do meu pai (que tem um passado político activo, esteve preso em Peniche e fez parte de todos os movimentos esquerdistas antes do 25 de Abril). Isto não terá marcado toda a minha geração, que é plural; mas comigo aconteceu. Até Londres, vivia um bocadinho frustrado: uma parte de mim não queria concordar, mas não sabia como. Não tinha o arsenal de conceitos e de autores que me permitiram contestar o que Fukuyama dizia.

A London School of Economics (LSE), onde estudou, é uma escola que não tem que ver com o PS, ou com o seu pai, Jorge Galamba, ou com Peniche. Foi um encontro explosivo?

A LSE surgiu como um gesto de desespero. Desde sempre tive dificuldade em imaginar-me a trabalhar. Fui para a Faculdade de Economia sem pensar verdadeiramente na opção que estava a tomar. Tinha jeito para matemática e os meus pais tinham a preocupação de que fosse para um curso com elevada empregabilidade.

Qual é o seu percurso profissional?

Trabalhei no Banco Santander de Negócios e depois numa consultora chamada Cluster Consulting, que actuava na área das novas tecnologias. Mas nunca me revi verdadeiramente no trabalho que fazia. (Há pessoas, como o João Constâncio, que não percebem porque é que temos de nos rever no trabalho que fazemos, que a realização se faça através do trabalho.) Tinha interesse em Ciência Política e em Filosofia e o programa de doutoramento na LSE era suficientemente abrangente para responder a esta minha insatisfação.

Quanto tempo passou entre o fim do curso e a ida para Londres?

Dois anos e pouco. Queria disciplinar-me. Quis obrigar-me a trabalhar e a ganhar uma certa independência financeira. Para pro