Economia do Norte só recupera com a parte visível do iceberg

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Procura das vantagens do Norte dominou o debate Fernando Veludo/NFACTOS

Desenvolver o segmento de exportação foi uma das opções defendidas pelo ministro da Economia, numa conferência do PÚBLICO, no Porto

A imagem de um iceberg dominou o debate de anteontem à noite da série Olhares Cruzados Sobre o Porto, na qual o ministro da Economia e Inovação, Vieira da Silva, Daniel Bessa, director da Cotec, e o presidente da Associação Empresarial de Portugal, José António Barros, discutiram as estratégias económicas para combater a alta taxa de desemprego do Norte.

Vieira da Silva lembrou que a recuperação da economia está dependente das indústrias de bens transaccionáveis, com capacidade de exportar, mas na actual situação as empresas com esse potencial (oito por cento do total) representam apenas a parte emersa do iceberg. Para o ministro, é no desenvolvimento deste segmento que está "a base de boa parte do sucesso" da economia do Norte e do país.

Daniel Bessa considerou a imagem de Vieira da Silva "fantástica", concordando que a pequena parte do iceberg que fica acima da linha do mar "é menor, mas a mais importante". Para o director da Cotec, apesar de "nos termos atrasado muito" no desenvolvimento de um sector transformador competitivo no exterior, há empresas, como a Efacec ou a Bial, que, "com gente nova e qualificada", foram capazes de "encontrar coisas que podem ser produzidas e vendidas". É por aqui que se deve esperar a redução do desemprego no futuro próximo, diz Daniel Bessa. "Não acredito na estratégia de manter a todo o custo empresas sem viabilidade".

Como princípio, José António Barros não discorda da análise de Daniel Bessa. Mas contrapôs no debate a necessidade de se encarar o problema com pragmatismo. "Temos de mudar, mas à nossa frente há uma transição de dez ou 15 anos. Até lá, temos de viver com as indústrias tradicionais", sublinhou. E neste caminho paralelo entre a sustentação da tradição e o desenvolvimento das "novas actividades", é importante "continuar a inovar e a procurar novos mercados". A esse propósito, José António Barros lembrou o caso de Angola, que já é o terceiro destino das exportações nacionais, ou o facto de a indústria de calçado estar já a vender em destinos como a Colômbia.

Neste processo de evolução paralela, mas complementar, "o Norte tem muitas vantagens", considerou Vieira da Silva. "Tem uma tradição empresarial, espírito de iniciativa, uma rede de universidades entre Aveiro e Braga capaz de produzir conhecimento e até um modelo de ordenamento territorial que favorece a inovação e o investimento", disse o ministro.

No terceiro trimestre de 2009, o diferencial entre a taxa de desemprego do Norte e a média nacional atingiu o mais alto valor de sempre (11,9, contra 10,1 por cento). PÚBLICO