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João Rodrigues raquel esperança

Falámos com um editor (o sector com mais peso nas indústrias culturais), uma dupla de arquitectos e outra de designers (sectores que mais crescem) e dois produtores de televisão (o audiovisual é o sector com maior crescimento de exportações)

João Rodrigues

editor da Sextante

Às vezes, as formas indirectas de apoio são as mais úteis. "A edição é uma indústria que raramente se socorreu do Estado para sobreviver e ter a importância que tem", diz João Rodrigues, editor da Sextante. E, no entanto, beneficiaria se, por exemplo, o Estado desse alguns benefícios fiscais aos pequenos livreiros, travando assim a "agonia do mercado das livrarias independentes".

São estas livrarias que dão espaço a produtos diferentes dos livros de grande rotação que invadem as grandes livrarias e os hipermercados e que "expulsam os clássicos, os jovens escritores, a grande literatura". Para os pequenos editores, as pequenas livrarias são um espaço para chegarem aos seus públicos. A asfixia de uns leva à dos outros.

Durante três anos, João Rodrigues acreditou que a Sextante poderia sobreviver sozinha - aliás, continua a acreditar que há espaço para as pequenas editoras ("quanto maiores são as bolas das grandes, mais pequenos espaços vão surgindo entre essas bolas"). A única coisa que é preciso é imaginação e qualidade. O segredo é "identificar os livros que estão em falta e fazer as pessoas sentir "eu tenho que ter isto em casa"". E saber tirar partido de meios como a Internet - é por aí que hoje a Sextante se mantém em contacto com cerca de duas mil pessoas.

Mas a experiência ensinou-lhe também outras coisas. "Pobre do editor sem capital que quer jogar o jogo todo do mercado. As grandes operações de comunicação e de marketing são praticamente impossíveis para um pequeno editor". Por isso, em Janeiro deste ano, a Sextante foi comprada pela Porto Editora, e João Rodrigues espera agora poder manter o tipo de trabalho de edição que fazia, mas com as vantagens de estar integrado num grande grupo.

Mas acha que há um papel para o Estado. Por exemplo no apoio a bolsas de criação. "A criação raramente tem sido ajudada".

E também na promoção dos escritores portugueses no estrangeiro, que continua a ser "diminuta e irregular", ao contrário do que acontece com países como por exemplo a Holanda. Aliás, a Holanda pode servir de exemplo noutro aspecto: "As bibliotecas públicas compram à cabeça mil livros; isso salva uma edição". Em Portugal, lamenta João Rodrigues, "a relação da Cultura com a Educação é ainda escandalosamente débil". Alexandra Prado Coelho

Tiago Mota Saraiva

e Andreia Salavessa

arquitectos Ateliermob

Quando ganharam uma menção honrosa no concurso para o Tribunal de Grande Instância de Paris, Tiago Mota Saraiva, de 33 anos, e Andreia Salavessa, de 32, os dois sócios do Ateliermob (www.ateliermob.com), criado em 2005 em Lisboa e onde actualmente trabalham seis pessoas, esperavam ter tido algum incentivo do Estado português. "Havia também um atelier italiano e o Estado italiano deu um enorme apoio, uma grande divulgação nos meios de comunicação em Itália. Parecia que era o projecto vencedor. Nós nem tínhamos dinheiro para ir receber o prémio a França", contam.

Esse era o tipo de apoio que, dizem, o Estado podia e devia dar aos arquitectos, sobretudo os jovens. "Nunca há uma operação de Estado, e se há é sempre para apoiar os que já têm a tal reputação, notoriedade e prestígio", afirma Tiago, apontando para três palavras que sublinhara no estudo do Ministério da Cultura sobre o peso das actividades culturais e criativas na economia. Dá outro exemplo: "Quando a rainha da Dinamarca foi à China, levou muitos jovens arquitectos e todos saíram de lá com trabalhos. Portugal opta por levar sempre os construtores". Reconhece, no entanto, que já tiveram uma experiência positiva: quando foram seleccionados para ir ao Festival de Arquitecturas Vivas de Montpellier, tiveram apoio financeiro do Instituto Camões e da Direcção-Geral das Artes.

Os jovens arquitectos portugueses procuram as suas próprias vias. "A internacionalização surge muito pelos programas Erasmus e Leonardo e pela vontade de as pessoas circularem". O Ateliermob, por exemplo, tem uma estratégia de divulgação através do blogue, em português e inglês. "É uma óptima plataforma para nos projectarmos lá fora. Até há pouco tempo, fazíamos um press-release e das primeiras dez respostas nove eram de publicações internacionais". O blogue serve também para divulgar trabalhos e prémios de outros ateliers, mas "essa plataforma, uma espécie de base de dados, podia existir no Estado".

Para o Ateliermob, até agora "o grosso das encomendas tem sido concursos públicos ganhos em Portugal", mas é preciso participar em muitos, um investimento que pesa num atelier, até porque agora é "cada vez mais raro haver prémios, o prémio é a contratualização". Uma das grandes críticas de Tiago tem a ver com o Parque Escolar e com a forma como, diz, as encomendas de escolas foram feitas sem oferecer oportunidades aos mais jovens.

Com tanto que há a fazer, sobretudo numa estratégia de "acupuntura urbana" que pode contribuir para "a melhoria da qualidade de vida das pessoas", Tiago e Andreia lamentam que os jovens arquitectos não sejam melhor aproveitados, e que haja pessoas que lhes vão bater à porta oferecendo-se para trabalhar sem receber. A.P.C.

Pedro Ferreira e Rita João

designers Pedrita

Já tornaram uma garrafa de água do Luso num conjunto de sete quadrados e doze hexágonos (uma experiência geométrica que criou garrafinhas Luso de arrumação fácil) e já espalharam duas mil andorinhas Bordalo Pinheiro nas fachadas de Belém (a instalação Primavera). Os Pedrita são Pedro e Rita, Pedro Ferreira e Rita João, têm 32 anos e trabalham juntos desde a universidade, na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa. Criaram a sua identidade colectiva Pedrita em 2005, depois de terem passado pelo programa Erasmus (Delft e Milão) e pela escola que foi a Fabrica da Benetton. Vão do design de produto às instalações, da curadoria de exposições (em Lisboa, em Turim) aos livros sobre bolos e noites Pecha Kucha (de troca de ideias e apresentação de projectos). A dupla de designers concorda que o seu ofício está na moda. "Quando decidi ir para Design [na universidade], tive de explicar à minha avó o que eu ia estudar", recorda Rita João. "De repente, começou-se a ouvir falar, as pessoas sabem o que é". Agora "há uma moda, mas também há uma discrepância muito grande entre o número de recém-licenciados e o número de postos de trabalho", constata. Os Pedrita frisam outra coisa: o design "é um trabalho que é preciso construir devagarinho", enuncia Rita. "Lá porque temos imensos projectos não quer dizer que tenhamos um retorno financeiro" proporcional, esclarecem. No primeiro ano de actividade em Lisboa, trabalhavam quase exclusivamente para o estrangeiro. Acharam que seria sempre assim. "Surpreendentemente, reverteu-se e começaram a surgir projectos em Portugal". A indústria está a perceber que o design é uma mais-valia, que cria valor nos produtos para exportar, por exemplo, e agora encontram designers residentes nas empresas e fábricas que visitam. Neste momento, "sentimos uma enorme necessidade de voltar novamente ao mercado internacional", explica a designer. Para reactivar contactos rumam a Milão em Abril, para a feira internacional de design. E se surgem demoras ou dificuldades de financiamento, a dupla tenta reger-se por uma filosofia: "Não abandonar projectos, trabalhá-los até ao fim e passar a vendê-los". Para o projecto Fabrico Próprio, sobre pastelaria industrial portuguesa, conseguiram pequenos apoios do Instituto das Artes, do Turismo de Portugal e outros, maiores, de privados ou associações do sector. "Os subsídios e apoios são muito importantes para começar e trabalhar sem a preocupação de viabilidade económica", explica Rita João. "Permitem uma pesquisa consciente" e mais livre. Joana Amaral Cardoso

Ricardo e Renato Freitas

Até ao Fim do Mundo Produtora

A Até ao Fim do Mundo nasceu de uma viagem até ao que os portugueses achavam ser... o fim do mundo. De Angola à Contracosta foi o documentário que os irmãos Ricardo e Renato Freitas fizeram com Paulo Camacho para a SIC, quando todos lá trabalhavam, e foi ele que levou Emídio Rangel a desafiá-los a formar uma produtora de conteúdos. Mais tarde, já nos anos 2000 e com a SIC Notícias a precisar de conteúdos, a Até ao Fim do Mundo ressuscitava e os irmãos Freitas (gémeos de 42 anos) saíam da SIC à vez, acompanhados pelo designer gráfico Agostinho Ribeiro (Paulo Camacho, também sócio, sairia para a Zon) e dedicavam-se a tempo inteiro à produtora. Hoje, a Até ao Fim do Mundo trabalha para os generalistas, para a TV paga, desenha a identidade de alguns canais (o MOV), faz produção de informação, ficção, humor (Os Contemporâneos) e lançou-se em duas aventuras extra - tem uma escola, a Odd School, e "a agência de publicidade mais pequena do mundo", a Até Mais P. Ricardo Freitas explicou ao PÚBLICO que sente o mercado a crescer, sim. "Mas ainda está a medo, tem crescido lentamente". Novos canais, novas plataformas da Zon ou do Meo a quererem conteúdos. "A ideia de fazer o grafismo de uma estação: era algo que fazíamos muito raramente e este ano já vamos para o terceiro ou quarto", explica. A produtora começou por fazer magazines - ainda o faz (Cuidado com a Língua para a RTP, por exemplo) - mas agora quer "fazer cada vez mais ficção". Nos quadros têm cerca de 40 pessoas e em cada projecto surgem muitos mais profissionais externos. O crescimento da produtora levou ao nascimento da escola, da qual se tornaram accionistas maioritários em 2009. "Precisamos de pessoal qualificado que é difícil de encontrar". A escola é como "um centro, quase um banco de ensaio". Quanto ao apoio público ou privado para os seus projectos, orgulham-se de nunca ter precisado - embora se tenham candidatado junto do antigo ICAM, sem sorte e com desilusão sobre os critérios de escolha. "Desistimos". Mas, sobretudo na produção de ficção, a subsidiação "podia ser muito útil para criar uma margem de trabalho, porque hoje é muito difícil encontrar apoio para uma longa-metragem ou para uma série". Do lado dos privados, há resistência em arriscar pela dificuldade de exportação, que rentabiliza os investimentos. "Os nossos conteúdos são muito difíceis de escoar", diz Ricardo Freitas. Por isso, vão apostar na animação, onde a legendagem e dobragem são mais comuns. E já começou, com dois anúncios para um banco angolano e para a CAN. J.A.C.