Há um excesso de mortes nos hospitais ao fim-de-semana

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Ao sábado e domingo dão entrada nos hospitais casos mais graves Rui Gaudêncio

Estudo diz que morrem duas vezes mais pessoas do que o esperado ao sábado e três vezes mais ao domingo nos hospitais portugueses

"Se a doença não escolhe a hora ou o dia de ocorrência, a actividade hospitalar deve aproximar-se o máximo possível desta realidade, ou seja, com uma afectação de recur- sos que seja compatível com as ne- cessidades da procura ou das populações", lê-se na última frase do estudo intitulado Variação na mortalidade e na demora média do internamento por dia de admissão e de alta.

O trabalho exploratório detectou uma realidade preocupante: uma diferença entre o número de óbitos registados e os esperados ao fim-de-semana, que revela um excesso de 6712 mortes.

Nos hospitais portugueses, as segundas-feiras são dias de admissão e as sextas-feiras dias de alta. De uma forma simplista, esta é uma leitura possível dos resultados do estudo que analisou um total de 1.030.183 episódios registados em hospitais e centros hospitalares públicos do Continente, no ano de 2006.

"É um estudo que tem de ser aprofundado para avançar com explicações sólidas para o fenómeno", avisa Carlos Costa, um dos autores do estudo, realizado na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP). Recusando que estes números justifiquem qualquer tipo de alarmismo, o especialista admite que "o fenómeno, conhecido na literatura internacional, tem mais expressão em Portugal".

Carlos Costa adverte, no entanto: "Se tomarmos em conta que existem cerca de 70 hospitais e dividirmos es- te excesso por dias de fim-de-semana, teremos uma morte a mais, por dia, em cada hospital". O autor não duvida de que estamos perante "indícios que precisam ser investigados em Portugal". Mas, reitera, "não interessa lançar o pânico".

De acordo com Carlos Costa, pode- mos avançar com a hipótese de não existir uma afectação de recursos em quantidade e qualidade ou experiência igual entre a semana e o fim-de-semana.

Este facto seria até certo ponto admissível, porque não há tanta actividade programada (cirurgias e consultas, por exemplo). O autor também realça que durante o fim-de-semana são admitidos casos mais graves. A admissão dos outros casos é marcada para os dias úteis.

"Não investigámos a afectação dos recursos. Registámos que, na relação entre óbitos observados e óbitos esperados (tendo em conta a patologia do doente, a gravidade, o sexo, a idade, entre diversos outros critérios), havia um excesso ao fim-de-semana. Tratou-se de uma análise exploratória que não tratou das causas", sublinha.

Diferenças encontradas

E foram encontradas diferenças entre o dia e a noite? "Também não es- tudámos isso. Mas a literatura internacional diz que se morre mais à noite. Percebemos é que doentes iguais (mesmo sexo, idade, patologia, entre outros critérios) não morreram durante a semana".

Sobre a possibilidade de as altas da- das ao fim-de-semana estarem associadas a um maior número de readmissões, o especialista responde que esses dados não foram publicados. "Dos dados que temos a nível de readmissões, o principal motivo, de longe, é o das complicações pós-procedimento que tiveram alta e que, por exemplo, resultam em infecções."

Muito abaixo na lista, acrescenta Carlos Costa, estão "as complicações pós-parto, as infecções urinárias e as doenças pulmonares obstrutivas crónicas".

O estudo assinalou uma relação das admissões com a duração do internamento. A quinta-feira, a sexta e o sábado foram identificados como os dias que "mais potenciam" o prolongamento do internamento.

Uma outra questão é saber se o custo do internamento influencia a alta. Carlos Costa reconhece que podem existir "algumas situações de altas precoces". E acrescenta: "Podem existir "ilhas", mas não será um fenómeno sistémico".

Este especialista nota, enfim, que os resultados do estudo não devem ser extrapolados. "São dados de 2006". Há alguma razão para considerar este ano um período excepcional? "Não. Julgo que os outros serão semelhantes".

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